ESPIRITISMO E ARTE

“O Espiritismo irá depurar a arte que conhecemos e esta arte, depurada, será aquela inspirada nos ensinamentos da Doutrina Espírita”. (Espírito Rossini em Obras Póstumas)


01 – KARDEC – FUNDAMENTO E INSPIRAÇÃO

REVISTA ESPÍRITA DEZEMBRO DE 1860

         Na sessão da Sociedade, do dia 23 de novembro, o Espírito de Alfred de Musset tendo se manifestado espontaneamente, a pergunta seguinte lhe foi dirigida: A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia, foram alternativamente inspiradas pelas ideias pagas e cristãs; quereis nos dizer se, depois da arte pagã e da arte cristã, haverá, um dia, a arte espírita?

– O Espírito respondeu:

“Fizestes uma pergunta que se responde por si mesma; o verme é verme, torna-se verme de seda, depois borboleta. O que ha de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Pois bem, a arte paga, é o verme; a arte cristã, é o envoltório; a arte espírita será a borboleta.”

Quanto mais se aprofunda O sentido dessa graciosa comparação, mais se lhe admite a justeza. À primeira vista, poder-se-ia supor, ao Espírito, a intenção de rebaixar a arte crista, colando a arte espírita no coroamento do edifício; mas não é nada disso, e basta meditar esta poética figura para apanhar-lhe a justeza. Com efeito, o Espiritismo se apoia essencialmente sobre o Cristianismo; não vem substituí-lo, completa-o e veste-o com uma roupa brilhante.

Na infância do Cristianismo, encontram-se os germes do Espiritismo; se se repelissem mutuamente, um renegaria o seu filho e o outro o seu pai. O Espírito, em comparando o primeiro ao verme e o segundo à borboleta, indica perfeitamente o laço de parentesco que os une; há mais: a própria figura pinta o caráter da arte que um inspirou e que o outro inspirará.

A arte cristã, sobretudo, deveu se inspirar nas terríveis provas dos mártires e revestir a severidade da origem materna; a arte espírita, representada pela borboleta, se inspirará nos vaporosos e esplêndidos quadros da existência futura desvendada; alegrará a alma que a arte cristã tomara de admiração e de temor; será o canto de alegria depois da batalha.

O Espiritismo se reconhece todo inteiro na teogonia paga, e a mitologia não é outra coisa senão o quadro da vida espírita poetizada pela alegoria. Quem não reconhece o mundo de Júpiter nos Campos Elíseos, com os seus habitantes de corpos etéreos; e os mundos inferiores no seu Tártaro; as almas errantes nos manes, os Espíritos protetores da família nos lares e nos penai es; no Letes, b esquecimento do passado no momento da reencarnação; nas suas pitonisas, os nossos médiuns videntes e falantes; em seus oráculos, as comunicações com os seres de além-túmulo? A arte, necessariamente, deveu se inspirar nessa fonte tão fecunda para a imaginação; mas para se elevar até o sublime do sentimento, falta-lhe o sentimento por excelência: a caridade cristã. Os homens não conhecem senão a vida material; a arte procurou, antes de tudo, a perfeição da forma. A beleza corpórea era então a primeira de todas as qualidades: a arte se interessou em reproduzi-la, em idealizá-la; mas só ao Cristianismo estava dado fazer ressaltar a beleza da alma sob a beleza da forma; também, a arte cristã, tomando a forma na arte paga, acrescentou-lhe a expressão de um sentimento desconhecido dos Antigos.

Mas, como dissemos, a arte cristã deveu se ressentir da austeridade de sua origem, e se inspirar nos sofrimentos dos primeiros adeptos; as perseguições impeliram à vida de isolamento e de reclusão, e a idéia do inferno à vida ascética; é por isso que a sua pintura e escultura, em suas três quartas partes, sobressaem pelo quadro das torturas físicas e morais; a arquitetura nela reveste um caráter grandioso e sublime, mas sombrio; sua música é grave e monótona como uma sentença de morte; a sua eloquência é mais dogmática do que tocante; a própria beatitude nela traz marca de tédio, de ociosidade e de satisfação toda pessoal; aliás, ela está longe de nós, tão alto colocada, que nos parece quase inacessível, por isso nos toca tão pouco quando não a vemos reproduzida sobre a tela ou o mármore.

O Espiritismo nos mostra o futuro sob uma luz mais à nossa altura; a felicidade está mais perto de nós, está ao nosso alcance, nos seres mesmo que nos cercam e com os quais podemos entrar em comunicação; a morada dos eleitos não é mais isolada: há solidariedade constante entre o céu e a terra; a beatitude não está mais numa contemplação perpétua, que não seria senão uma eterna e inútil ociosidade, ela está numa constante atividade para o bem, sob o próprio olhar de Deus; está, não na quietude de um contentamento pessoal, mas no amor mútuo de todas as criaturas chegadas à perfeição. O mau não está mais relegado às fornalhas ardentes, o inferno está no próprio coração do culpado que encontra, em si mesmo, o seu próprio castigo; mas Deus, em sua bondade infinita, deixando-lhe o caminho do arrependimento, ao mesmo tempo, deixa-lhe a esperança, essa sublime consolação do infeliz.

Que fontes fecundas de inspiração para a arte! Que obras-primas essas ideias novas não podem criar pela reprodução de cenas tão variadas e, ao mesmo tempo, tão suaves ou tão pungentes da vida espírita! Quantos assuntos, ao mesmo tempo, poéticos e palpitantes de interesse nesse comércio incessante dos mortais com os seres de além-túmulo, na presença, junto a nós, dos seres que nos são queridos! Isso não será mais a representação de despejos frios e inanimados, será a mãe tendo ao seu lado a sua filha querida, em sua forma etérea e radiosa de felicidade; um filho ouvindo com atenção os conselhos de seu pai que vela por ele; o ser pelo qual se pede vem testemunhar o seu reconhecimento. E, numa outra ordem de ideias, o Espírito do mal soprando o veneno das paixões, o mau fugindo da visão de sua vítima que lhe perdoa, o isolamento do perverso no meio da multidão que o repele, a perturbação do Espírito no momento do despertar, a sua surpresa diante da visão de seu corpo do qual se espanta por estar separado, o Espírito do defunto no meio dos seus ávidos herdeiros e amigos hipócritas; e tantos outros assuntos tanto mais capazes de impressionar quanto tocam mais de perto a vida real. O artista quer se elevar acima da esfera terrestre?

Ele encontrará assuntos não menos interessantes nesses mundos felizes que os Espíritos se comprazem em descrever, verdadeiros Édens de onde o mal está banido, e nesses mundos ínfimos, verdadeiros infernos, onde todas as paixões reinam soberanas.

Sim, nós o repetimos, o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso, e ainda inexplorado, e quando o artista trabalhar com convicção, como trabalharam os artistas cristãos, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações.

Quando dizemos que a arte espírita será um dia uma arte nova, queremos dizer que as ideias e as crenças espíritas darão, às produções do gênio, um cunho particular, como ocorreu com as ideias e as crenças cristãs, não que os assuntos cristãos jamais caiam em descrédito, longe disso, mas, quando um campo está respigado, o ceifeiro procura colher alhures, e colherá abundantemente no campo do Espiritismo. Já o fez, sem dúvida, mas não de um modo tão especial como o fará mais tarde, quando para isso será encorajado e excitado pelo assentimento geral; quando essas ideias estiverem popularizadas, o que não pode tardar, porque os cegos da geração atual desaparecem, cada dia, da cena pela força das coisas, e a geração nova terá menos preconceitos. A pintura f oi mais de uma vez inspirada por ideias desse gênero; na poesia sobretudo elas pululam, mas estão isoladas, perdidas na multidão; o tempo virá em que farão eclodir obras magistrais, e a arte espírita terás seus Rafaéis e seus Miguel-Ângelos, como a arte paga teve os seus Apeles e os seus Fídias.

(…) Aproveitando da boa vontade do Espírito de Alfred de Musset, foram-lhe dirigidas as perguntas seguintes:

  1. Qual será a influência da poesia no Espiritismo?

– R. A poesia é o bálsamo que se aplica sobre as feridas; a poesia foi dada ao homem como um maná celeste, e todos os poetas são médiuns que Deus enviou sobre a Terra para regenerar um pouco o seu povo, e não deixá-los embrutecer inteiramente; porque, o que há de mais belo! O que fala mais à alma do que a poesia!

  1. A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia foram alternativamente influenciadas pelas ideias pagas e cristãs; quereis nos dizer se, depois da arte paga e da arte cristã, haverá um dia a arte espírita?

– R. Fazeis uma pergunta que se responde por si mesma: o verme é verme, torna-se verme de seda, depois borboleta. O que há de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Pois bem! A arte paga, é o verme; a arte cristã é a crisálida; a arte espírita será a borboleta.

 

ARTE NO CENTRO ESPÍRITA – PLANEJAMENTO E PRÁTICA
Associação Brasileira de Artistas Espíritas – ABRARTE

Capítulo 1

Fundamentação Doutrinária

O centro espírita é definido como sendo, ao mesmo tempo, escola, hospital, templo, oficina e lar. Para bem cumprir essas múltiplas funções ele deve mobilizar todos os recursos doutrinariamente legítimos. Recursos que facilitem o aprendizado, que ajudem a minimizar as dores da alma, propiciem maior sintonia com o sagrado, estimulem o trabalho no bem e ensejem clima para a convivência harmônica entre os que participam de suas atividades.

Percebemos que a arte reúne em si todas essas qualidades, quando analisada e trabalhada através do saber espírita. O drama que comove e educa, a música que eleva, a poesia que leva à reflexão, a dança que inspira, a pintura que influencia, ou o filme que estimula são recursos que não podem ser dispensados na promoção do bem, no socorro das almas sofridas e no apoio de quem busca evolução. Os conteúdos nobres, propiciados pela Doutrina Espírita e pelo Evangelho de Jesus, transformam a arte em instrumento sublime que muito pode fazer pelo público que frequenta ou pelos trabalhadores que atuam no centro espírita.

A literatura espírita é rica em manifestações sobre as nobres funções da arte como instrumento do bem.

O Livro dos Espíritos, através das questões 316, 521, 565 e 566, traz importantes informações acerca da relação entre os Espíritos e as artes.

No mês de dezembro de 1860, Allan Kardec publica na Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos, o artigo Arte Pagã, Arte Cristã e Arte Espírita, apresentando a mensagem de Alfred de Musset ocorrida em 23/11/1860, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Foi a primeira vez que o termo Arte Espírita apareceu e começou a ser discutido. Dessa data até os dias de hoje muito se postulou e muito se praticou sobre este tema.

No livro Obras Póstumas temos, em sua primeira parte, o capítulo intitulado Influência perniciosa das idéias materialistas – Sobre as artes em geral; a regeneração delas por meio do Espiritismo. Percebemos que, indubitavelmente, o Espiritismo tem muito a oferecer à arte.

Ao longo dos anos, vários autores espirituais retomaram a discussão acerca das correlações entre arte e espiritismo, o que demonstra a importância e o compromisso da espiritualidade para com o assunto.

O espírito Áulus assim a define:

“A Arte é a mediunidade do Belo, em cujas realizações encontramos as sublimes visões do futuro que nos é reservado”

André Luiz (Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, cap. 30, FEB).

Por essa definição, a arte é apresentada como instrumento para que o belo existente nas esferas espirituais se expresse no mundo físico, permitindo ao ser encarnado antevisão das realizações nobres que o futuro nos reserva.

Emmanuel considera a arte instrumento para percepção das belezas eternas e para exteriorização dos ideais nobres que fortalecem a esperança do porvir sublime.

“A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças das almas”.

Emmanuel (Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, Questão 161, FEB).

Leon Denis apresenta a arte como a forma pela qual o esplendor da beleza originária de Deus pode se tornar acessível para a maioria dos homens. Considera que a arte pode ser o grande veículo para dar expressão aos ensinamentos e revelações que o Espiritismo propicia. Vejamos:

“A arte é a busca, o estudo, a manifestação dessa beleza eterna, da qual aqui na Terra não percebemos senão um reflexo. Para contemplá-la em todo o seu esplendor, em todo o seu poder, é preciso subir de grau em grau em direção à fonte da qual ela emana, e esta é uma tarefa difícil para a maioria de nós. Ao menos podemos conhecê-la através do espetáculo que o universo oferece aos nossos sentidos, e também através das obras que ela inspira aos homens de talento.

O Espiritismo vem abrir para a arte novas perspectivas, horizontes sem limites. A comunicação que ele estabelece entre os mundos visível e invisível, as informações fornecidas sobre as condições da vida no Além, a revelação que ele nos traz das leis superiores da harmonia e da beleza que regem o universo vêm oferecer a nossos pensadores, a nossos artistas, inesgotáveis temas de inspiração.”

“O conhecimento das vidas sucessivas do ser, sua ascensão dolorosa através dos séculos, o ensinamento dos espíritos a respeito dessa grandiosa questão do destino, lançarão, em toda a história, uma inesperada luz, e fornecerão ainda aos romancistas, aos poetas, temas de drama, móbeis[1] de elevação, todo um conjunto de recursos intelectuais que ultrapassarão em riqueza tudo o que o pensamento já pôde conhecer até o momento.”                       

“O materialismo, com sua insensibilidade, havia esterilizado a arte. Esta arrastava-se na estreiteza do realismo sem poder elevar-se ao máximo da beleza ideal. O Espiritismo vem dar-lhe novo curso, um impulso mais vivo em direção às alturas, onde ela encontra a fonte fecunda das inspirações e a sublimidade do gênio”

Léon Denis (O Espiritismo na Arte, Capítulo I, Publicações Lachâtre).

O Espírito Vianna de Carvalho considera a arte como recurso para expressar a beleza invisível visando despertar a sensibilidade dos seres humanos para as aspirações nobres da evolução, como segue:

         “A arte tem como meta materializar a beleza invisível de todas as coisas, despertando a sensibilidade e aprofundando o senso de contemplação, promovendo o ser humano aos páramos da Espiritualidade. Graças à sua contribuição, o bruto se acalma, o primitivo se comove, o agressivo se apazigua, o enfermo se renova, o infeliz se redescobre, e todos os outros indivíduos ascendem na direção dos Grandes Cimos. (..) Desse modo, evolui do grotesco ao transcendental, aprimorando as qualidades e tendências, que estarão sempre à frente dos comportamentos de cada época. Lentamente, a Arte se desenvolve alterando os conteúdos e melhor qualificando a mensagem de que se faz portadora”.

Vianna de Carvalho. (Franco, Divaldo Pereira. Atualidade do Pensamento Espírita, p. 126).

Todas essas considerações conduzem ao entendimento de que a arte tem um papel importante a desempenhar nos abençoados espaços onde os ensinamentos do Espiritismo são veiculados. Não apenas um papel esporádico e limitado aos momentos festivos, e sim um papel destacado, sistemático e de regularidade ordinária. Um papel que lhe atribua dimensão similar às demais atividades da casa no socorro às dores e inquietudes dos que batem às suas portas, em busca de consolo e orientação.

Para que se concretizem as previsões de Kardec e dos Espíritos superiores acerca da influência do Espiritismo sobre as artes, faz se necessário, por parte das lideranças espíritas, maior incentivo nesta área. É fundamental o investimento no estudo sério sobre o tema e a criação de condições da prática e do aprimoramento das artes por parte daqueles que professam a Doutrina dos Espíritos.

“Dentro em pouco, também vereis as artes se acercarem dele (Espiritismo), como de uma mina riquíssima, e traduzirem os pensamentos e os horizontes que ele patenteia, por meio da pintura, da música, da poesia e da literatura. Já se vos disse que haverá um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e a arte cristã. É uma grande verdade, pois os maiores gênios se inspirarão nele. Em breve, vereis os primeiros esboços da arte espírita, que mais tarde ocupará o lugar que lhe compete.

Allan Kardec (Obras Póstumas, Segunda Parte. A minha primeira Iniciação no Espiritismo. Paris 24 de abril de 1866 – Regeneração da Humanidade, penúltimo parágrafo).

 

CADERNOS DE ARTE DA ABRARTE

A Arte Espírita Perante a Tradição.

 

“Assim como a Arte cristã sucedeu a Arte pagã, transformando-a, a Arte espírita será o complemento e a transformação da Arte cristã.” –  Allan Kardec

A frase acima tem sido utilizada por artistas espíritas e entusiastas de sua arte como verdadeira bandeira das novas ideias que bafejarão a renovação moral da arte. É de fato uma bela imagem que apreende, em poucas linhas, séculos de história da produção humana.

Dada a relevância da afirmação kardequiana, é justo que sobre ela nos debrucemos, problematizando-lhe o sentido e buscando entender qual será o lugar da Arte Espírita no contexto das manifestações artísticas em geral. Para tanto, traçarei um pequeno panorama histórico, evidentemente resumido por questões do espaço que seria necessário para um roteiro mais completo.

Detenhamo-nos, de início, no que o Codificador chama de Arte pagã. O termo “paganismo” tem sido tomado como designativo de tudo aquilo que não se refere ao cristianismo, sendo seu significado mais completo aquele que dá conta de sua ligação às doutrinas politeístas. Quando Kardec utiliza o termo em se tratando de arte está retratando bem a mentalidade de sua época (que também é a de nossa própria) que divide a história humana em duas fases, sendo o nascimento do Cristo seu marco.

Que não se pense, no entanto, que a expressão pagã é empregada por Kardec de modo pejorativo.

Nem se pode dizer, em se tratando de arte, que a de um tipo ou povo é superior ou inferior em comparação com outras manifestações estéticas que se sucedem no espaço e no tempo.

Sabe-se que as primeiras manifestações artísticas remontam à pré-história e que as chamadas pinturas rupestres, qualquer que fosse sua função cujo conhecimento se perdeu na esteira do tempo, não eram todas iguais, já apresentando diferenças que se poderiam chamar, por comparação, de estilos individuais. Posteriormente, em diversas civilizações, as manifestações artísticas ligavam-se ora à religiosidade, ora a questões puramente estéticas.

Portanto, o vocábulo “pagã” é utilizado por Kardec, e por outros intelectuais de sua época, apenas com a finalidade de estabelecer uma linha temporal.

Com o advento do cristianismo e posteriormente sua disseminação pelo mundo mediante diversos movimentos sócio-político-religiosos, a chamada arte cristã passa então a ser a representante direta do poder da igreja. Esta arte dividia espaço com a arte profana (pro = fora; fanum = templo; literalmente de fora do templo) e com ela se comunicava, retirando da tradição artística os elementos que lhe eram necessários para constituir-se enquanto ARTE e fugir do puro e simples proselitismo.

Os diversos estilos ou tendências estéticas que se sucedem no tempo, nada mais são que mostras do pensamento humano em determinada época. Cada estilo buscará na estética anterior os elementos mediante os quais se constituirá como arte, seja através de sua manutenção, seja por sua negação (o que é mais frequente).

Tomando a frase de Kardec em seu aspecto mais simples, pode-se dizer que a arte espírita será filha natural da Arte Cristã, que por sua vez é filha da Arte Pagã, uma configuração resumida do conceito de tradição.

Mas o que exatamente é a tradição? Cito como tentativa de resposta a definição de Octavio Paz:

Entende-se por tradição a transmissão, de uma geração a outra, de notícias, lendas, histórias, crenças,       costumes, formas literárias e artísticas, ideias e estilos; […] (1984: 17)

A Arte Espirita será portanto a herdeira de toda a riqueza de séculos de arte, não havendo possibilidade de ela se constituir sozinha, i.e., sem o diálogo com a tradição cultural humana de séculos e séculos.

Apresentam-se aqui questionamentos relevantes: O artista espírita precisa conhecer arte para fazer arte? A Arte Espírita necessita dialogar com a tradição e a contemporaneidade? Busquemos caminhos para as respostas.

O poeta e ensaísta americano T. S. Eliot assinala que a tradição é obtida pelo artista como resultado de um grande trabalho de aquisição, o que equivale a dizer que para fazer arte é preciso conhecer arte. Neste processo de enriquecimento cultural está envolvido o que Eliot chama de sentido histórico o qual

Compreende uma percepção não só do passado mas da sua presença; o sentido histórico compele o homem a escrever não apenas com sua própria geração no sangue, mas também com um sentimento de      que toda a literatura desde Homero […] possui uma existência simultânea e compõe uma ordem simultânea. (1997: 22-3)

Concebemos, portanto, que a Arte Espírita não poderá ser arte por excelência se menosprezar o processo histórico do qual é resultante. Aquele que se propõe a se expressar com conteúdo espírita aliado à qualidade estética deve investir em seu processo de aquisição cultural. Ainda segundo Eliot:

Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte, detém, sozinho, o seu completo significado.

O seu significado, a sua avaliação, é a avaliação da sua relação com os poetas e artistas mortos. […] Os monumentos existentes formam uma ordem ideal, a qual é modificada pela introdução da nova, da      verdadeiramente nova, obra de arte. (l997:23)

E quanto ao lugar da Arte Espírita no contexto da tradição? Simples, o mesmo lugar que ocupa a Arte Cristã. A Arte Espírita será mais uma dessas rupturas presentes em toda a tradição da cultura humana. E é justamente por ser ruptura que se ligará à tradição, se levarmos em conta a afirmativa de Octavio Paz que, em Os filhos do barro, assevera a existência de uma tradição da ruptura que implicaria numa dupla negação: da tradição e a da própria ruptura. Em termos mais simples pode-se afirmar que a Arte Espírita necessita ter o seu tanto de tradição e o seu tanto de ruptura para que realmente seja ARTE.

Retomando a frase de Kardec, a Arte Espírita complementará a tradição pois, assim como todas as expressões da sensibilidade humana, desenvolverá elementos latentes das artes que estão aguardando serem devidamente observados; será a sua transformação ao apontar rumos novos que têm sua origem nos antigos conceitos. O diálogo com a tradição e a contemporaneidade leva à qualificação; a Arte Espirita, portanto, só alçará o vôo da borboleta a partir do momento que deixar de estar fechada em si e buscar sua qualificação mediante seu enriquecimento cultural. Tal enriquecimento deve partir de cada artista, dentro de sua própria área de atuação.

Gláucio Cardoso

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

O ELIOT, T. S. A tradição e o talento individual (Tradition and the Individual Talent). Trad. de          Fernando de Mello Moser: 2a ed. Lisboa: Guimarães Editores, I997.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas (Oeuvres Posthumes). Trad. De Guillon Ribeiro. 22a ed. Rio        de Janeiro: FEB, 1987.
PAZ, Octavio. Os filhos do barro (Los hijos del limo). Trad. de Olga Savary.Rio de Janeiro:          Nova Fronteira, 1984.

 

OBRAS PÓSTUMAS

Allan kardec

Influência perniciosa das ideias materialistas
Sobre as artes em geral; sua regeneração pelo Espiritismo

 

O Espírito não pode se identificar senão com aquilo que sabe, ou que crê ser uma verdade, e essa verdade, mesmo moral, torna-se para ele uma realidade que exprime tanto melhor quanto a sente melhor; e então, se à inteligência ele junta a flexibilidade do talento, faz passar as suas próprias impressões nas almas dos outros; quais impressões, contudo, pode provocar aquele que não as tem?

A realidade, para o materialista, é a Terra: seu corpo é tudo, uma vez que fora dele nada há, uma vez que mesmo o seu pensamento se extingue com a desorganização da matéria, como o fogo com o combustível. Ele não pode traduzir, para a linguagem da arte, senão o que vê e o que sente; ora, se não vê e não sente senão a matéria tangível, não pode transmitir outra coisa. Onde não vê senão o vazio, não pode nada haurir.

Se se aventura nesse mundo desconhecido para ele, ali entra como um cego e, apesar de seus esforços para se elevar ao diapasão do ideal, permanece sobre o terra-a-terra como um pássaro sem asas.

A decadência da arte, neste século, é o resultado inevitável da concentração das ideias sobre as coisas materiais, e essa concentração, a seu turno, é o resultado da ausência de toda crença na espiritualidade do ser. O século não colhe senão o que semeou. Quem semeia pedras não pode recolher frutas.

As artes não sairão de seu torpor senão por uma reação para as idéias espiritualistas.

E como o pintor, o poeta, o literato, o músico, poderiam ligar seu nome a obras duráveis, quando, para a maioria, não crêem eles mesmo no futuro de seus trabalhos; quando não percebem que a lei do progresso, essa força invencível que arrasta atrás de si os Universos sobre os caminhos do infinito, lhes pede mais que pálidas cópias de criações magistrais dos artistas do tempo passado. Lembra-se dos Fídias, dos Apeles, dos Rafaéis, dos Migueis Ângelos, faróis luminosos que se destacam na obscuridade dos séculos decorridos, como brilhantes estrelas no meio de profundas trevas; mas quem pensa anotar o clarão de uma lâmpada lutando contra o brilhante Sol de um belo dia de verão?

O mundo caminha a passos de gigante desde os tempos históricos; as filosofias dos povos primitivos se transformaram gradualmente. As artes, que se apoiam sobre as filosofias, que delas são a consagração idealizada, deveram elas também se modificar e se transformar. É matematicamente exato dizer que, sem crença, as artes não têm, vitalidade possível, e que toda transformação filosófica conduz, necessariamente, a uma transformação artística paralela.

Em todas as épocas de transformações, as artes periclitam, porque a crença sobre a qual se apóiam não é mais suficiente para as aspirações aumentadas da Humanidade, e que os princípios novos, não sendo ainda adotados de maneira definitiva pela grande maioria dos homens, os artistas não ousam explorar, senão hesitantes, a mina desconhecida que se abre sobre os seus passos.

Durante as épocas primitivas, em que os homens não conheciam senão a vida material, onde a filosofia divinizava a Natureza, a arte procurou, antes de tudo, a perfeição da forma. A beleza corpórea era, então, a primeira das qualidades; a arte dedicou-se a reproduzi-la, a idealizá-la.

Mais tarde, a filosofia entrou num caminho novo; os homens, progredindo, reconheceram, acima da matéria, uma força criadora e organizadora, recompensando os bons, punindo os maus, fazendo da caridade uma lei, um mundo novo, um mundo moral se edifica sobre as ruínas do antigo mundo.

Dessa transformação nasceu uma arte nova, que fez palpitar a alma sob a forma e acrescentou, à perfeição plástica, a expressão de sentimentos desconhecidos dos antigos.

O pensamento viveu sob a matéria; ele, porém, revestiu as formas severas da filosofia cuja arte inspirava. Às tragédias de Ésquilo, aos mármores de Milo, sucederam as descrições e as pinturas de torturas físicas e morais dos condenados. A arte se eleva; reveste um caráter grandioso e sublime, mas sombrio ainda. Está, com efeito, toda inteira na pintura do inferno e do céu da Idade Média, de sofrimentos eternos, ou de uma beatitude tão longe de nós, colocada tão alto, que nos parece quase inacessível; talvez seja porque esta última nos toque tão pouco quando a vemos reproduzida sobre a tela ou sobre o mármore.

Hoje ainda, ninguém poderia contestá-lo, o mundo está num período de transição, sacudido entre os hábitos antiquados, as crenças insuficientes do passado, e as verdades novas que lhe são progressivamente reveladas.

Como a arte cristã sucedeu a arte pagã transformando-a, a arte espírita será o complemento da transformação da arte cristã. O Espiritismo nos mostra, com efeito, o futuro sob uma luz nova e mais ao nosso alcance; por ele, a felicidade está mais perto de nós, está ao nosso lado, nos Espíritos que nos cercam e que jamais deixaram de estar em relação conosco.

A morada dos eleitos, a dos condenados, não estão mais isoladas; há solidariedade incessante entre o céu e a Terra, entre todos os mundos de todos os Universos; a felicidade consiste no amor mútuo de todas as criaturas chegadas à perfeição, e numa constante atividade tendo por objetivo instruir e conduzir, a essa mesma perfeição, aqueles que estão atrasados. O inferno está no próprio coração do culpado que encontra o castigo nos seus remorsos, mas não é eterno, e o mau, entrando no caminho do arrependimento, reencontra a esperança, este sublime consolo dos infelizes.

Que fontes inesgotáveis de inspiração para a arte! Quantas obras-primas, de todos os gêneros, as idéias novas não poderiam produzir, pela reprodução das cenas tão múltiplas e tão variadas da vida espírita! Em lugar de representar os despojos frios e inanimados, ver-se-á a mãe tendo ao seu lado a sua filha querida, na sua forma radiosa e etérea: a vítima perdoa o seu carrasco; o criminoso fugindo em vão do espetáculo, sem cessar renascente, de suas ações culposas! O isolamento do egoísta e do orgulhoso, no meio da multidão; a perturbação do Espírito nascendo na vida espiritual, etc., etc.; e se o artista quer se elevar acima da esfera terrestre, nos mundos superiores, verdadeiros Édens onde os Espíritos avançados gozam da felicidade adquirida, ou reproduzir algumas cenas dos mundos inferiores, verdadeiros infernos onde as paixões reinam soberanas, quantas cenas emocionantes, quantos quadros palpitantes de interesse não haverá para se reproduzir!

Sim, certamente, o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso e ainda inexplorado; e quando o artista reproduzir o mundo espírita com convicção, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações, e o seu nome viverá nos séculos futuros, porque às preocupações materiais e efêmeras da vida presente, substituirá o estudo da vida futura e eterna da alma.

A música espírita

          Recentemente, na sede da Sociedade Espírita de Paris, o Presidente me deu a honra de pedir a minha opinião sobre o estado atual da música e sobre as modificações que lhe poderiam trazer a influência das crenças espíritas. Se não me entreguei em seguida a esse benevolente e simpático pedido, crede-o bem, senhores, que só uma causa maior motivou a minha abstenção.

Os músicos, meu Deus! são homens como os outros, mais homens talvez, e, a esse título, são fracos e pecáveis. Não fui isento de fraquezas, e se Deus me fez a vida longa, a fim de me dar o tempo de me arrepender, a embriaguez do sucesso, a complacência dos amigos, a bajulação dos aduladores, frequentemente, disso me retiraram a possibilidade. Um maestro é uma força, neste mundo onde o prazer desempenha tão grande papel. Aquele cuja arte consiste em seduzir os ouvidos, a comover o coração, vê muitas armadilhas se criarem sob os seus passos, e nelas cai, o infeliz! Embriaga-se com a embriaguez dos outros; os aplausos lhe tapam os ouvidos, e vai direto ao abismo, sem procurar um ponto de apoio para resistir ao arrastamento.

Entretanto, apesar dos meus erros, eu tinha fé em Deus; acreditava na alma que vibrava em mim e, desligado de sua carga sonora, ela depressa reconheceu-se no meio das harmonias da criação e confundiu a sua prece com aquelas que se elevam da Natureza ao infinito da criação, ao Ser incriado!….

Estou feliz pelo sentimento que provocou a minha vinda entre os espíritas, porque foi a simpatia que a ditou, e, se a curiosidade de início me atraiu, é ao meu reconhecimento que devereis a minha apreciação da questão que me foi colocada.

Eu estava lá, prestes a partir, crendo tudo saber, quando o meu orgulho caindo me revelou minha ignorância. Eu permanecia mudo, e escutava: retornei, instruí-me, e quando, às palavras de verdade emitidas pelos vossos instrutores, se juntaram a reflexão e a meditação, eu disse a mim: O grande maestro Rossini, o criador de tantas obras de arte, segundo os homens, não fez, ai de mim! Se não debulhar algumas das pérolas menos perfeitas do escrínio musical criado pelo Mestre dos mestres. Rossini juntou notas, compôs melodias, saboreou no copo que contém todas as harmonias; furtou algumas centelhas ao fogo sagrado, mas esse fogo sagrado, nem ele nem outros não o criaram! – Não inventamos nada: copiamos do grande livro da Natureza e a multidão aplaude quando não deformamos muito a partitura.

Uma dissertação sobre a música celeste! Quem poderia disso se encarregar? Que Espírito sobre-humano poderia fazer vibrar a matéria em uníssono dessa arte encantadora! Que cérebro humano, que Espírito encarnado poderia dela apreender as nuanças variadas ao infinito?… Quem possui, nesse ponto, o sentimento da harmonia?… Não, o homem não está feito para semelhantes condições!… Mais tarde?… bem mais tarde!…

Esperando, talvez venha logo satisfazer ao vosso desejo e vos dar a minha apreciação sobre o estado atual da música, e dizer-vos das transformações, dos progressos que o Espiritismo poderá nela introduzir. – Hoje é muito cedo ainda.

O assunto é vasto, já o estudei, mas me excede ainda; quando nele for mestre, se todavia a coisa for possível, ou melhor, quando tiver entrevisto tanto quando o estado de meu Espírito mo permitirá, eu vos satisfarei; mas ainda um pouco de tempo. Se um músico pode falar sozinho da música do futuro, deve fazê-lo como mestre, e Rossini não quer, dela falar como um escolar.

ROSSINI

(Médium, Sr. Desliens).

 

O silêncio que guardei sobre a questão que o Mestre da Doutrina Espírita me dirigiu, foi explicado. Era conveniente, antes de abordar esse difícil assunto, me recolher, me lembrar, e condensar os elementos que estão sob a minha mão. Eu não tinha, que estudar a música, tinha somente que classificar os argumentos com método, a fim de apresentar um resumo capaz de dar a ideia de minha concepção sobre a harmonia. Esse trabalho, que não fiz sem dificuldade, está terminado, e estou pronto a submetê-lo à apreciação dos espíritas.

A harmonia é difícil de definir; frequentemente, confundem-na com a música, com os sons resultantes de um arranjo de notas, e de vibrações de instrumentos produzindo esse arranjo. Mas a harmonia não é, isso, não mais do que a chama não é a luz. A chama resulta da combinação de dois gases, é tangível; a luz que ela projeta é um efeito dessa combinação, e não a própria chama: ela não é tangível. Aqui, o efeito é superior à causa. Assim ocorre com a harmonia; ela resulta de um arranjo musical, é um efeito que é igualmente superior à causa: A causa é brutal e tangível; o efeito é sutil e não é tangível.

Pode-se conceber a luz sem chama e compreende-se a harmonia sem música. A alma está apta a perceber a harmonia fora de todo concurso de instrumentação, como está apta para ver a luz fora de todo concurso de combinações materiais. A luz é um sentido íntimo que a alma possui: quanto mais esse sentido está desenvolvido, melhor ela percebe a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma: ela é percebida em razão do desenvolvimento desse sentido. Fora das causas tangíveis, a luz e a harmonia são de essência divina; são as possuídas em razão dos esforços que se fazem para adquiri-las. Se comparo a luz e a harmonia, é para melhor me fazer compreender, e porque também esses dois sublimes gozos da alma são filhos de Deus e, por conseguinte, irmãos.

A harmonia do espaço é tão complexa, tem tantos graus que conheço, e muito mais ainda que me estão ocultos no éter infinito, que aquele que está colocado numa certa altura de percepções, está como saído do espanto contemplando essas harmonias diversas, que constituiriam, se estivessem reunidas, a mais insuportável cacofonia; ao passo que, ao contrário, percebidas, separadamente, constituem a harmonia particular a cada grau. Essas harmonias são elementares e grosseiras nos graus inferiores; levam ao êxtase nos graus superiores. Tal harmonia que fere um Espírito de percepções sutis, extasia um Espírito de percepções grosseiras; e quando é dado, ao Espírito inferior se deleitar nas delícias das harmonias superiores, o êxtase o toma e a prece entra nele; o arrebatamento o transporta para as esferas elevadas do mundo moral; ele vive de uma vida superior à sua e gostaria de viver sempre assim. Mas quando a harmonia cessa de penetrá-lo, ele desperta, ou, querendo-se, ele adormece; em todos os casos, retorna à realidade de sua situação, e, nos lamentos que deixa escapar por ter descido, se exala uma prece ao Eterno, para pedir a força de subir. É para ele um grande motivo de estímulo.

Eu não tentaria dar a explicação dos efeitos musicais que o Espírito produz agindo sobre o éter; o que é certo é que o Espírito produz os sons que quer, e que não pode querer o que não sabe. Ora, portanto, aquele que compreende muito, que tem nele a harmonia, que dela está saturado, que goza, ele mesmo, de seu sentido íntimo, desse nada impalpável, dessa abstração que é a concepção da harmonia, age quando quer sobre o fluido universal que, instrumento fiel, reproduz o que o Espírito concebe e quer. O éter vibra sob a ação da vontade do Espírito; a harmonia que este último traz em si se concretiza, por assim dizer, ela se exala doce e suave como o perfume da violeta, ou ruge como a tempestade, ou ela explode como o raio, ou se lamenta como a brisa; é rápida como o relâmpago, ou lenta como a nuvem; é quebrada como um soluço, ou unida como uma relva; é desgrenhada como uma catarata, ou calma como um lago; murmura como um regato ou ronca como uma torrente. Ora tem a aspereza agreste das montanhas, ora a frescura de um oásis; ela é alternativamente triste e melancólica como a noite, jovem e alegre como o dia; é caprichosa como a criança, consoladora como a mãe e protetora como o pai; é desordenada como a paixão, límpida como o amor, e grandiosa como a Natureza.

Quando ela está neste último termo, confunde-se com a prece, glorifica Deus, e coloca no arrebatamento aquele mesmo que a produz ou a concebe.

Ó comparação! Comparação! Por que é necessário ser obrigado a te empregar! Por que é necessário se dobrar às tuas necessidades degradantes e emprestar, à natureza tangível, imagens grosseiras para fazer conceber a sublime harmonia na qual o Espírito se deleita. E ainda, apesar das comparações, não se pode fazer compreender essa abstração que é um sentimento íntimo quando ela é causa, e uma sensação quando se torna efeito.

O Espírito que tem o sentimento íntimo da harmonia é como o Espírito que tem a aquisição intelectual; ele goza constantemente, um e o outro, da propriedade inalienável que amontoaram. O Espírito inteligente, que ensina a sua ciência àqueles que ignoram, sente a felicidade de ensinar porque torna felizes aqueles a quem instrui; o Espírito que faz o éter ressoar com acordes da harmonia que está nele, experimenta a felicidade de ver satisfeitos aqueles que o escutam.

A harmonia, a ciência e a virtude são as três concepções do Espírito; a primeira o extasia, a segunda o esclarece, a terceira o eleva. Possuídas em suas plenitudes, elas se confundem e constituem a pureza. Ó Espíritos puros que as contendes! Descei às nossas trevas e clareai a nossa marcha; mostrai-nos o caminho que tomastes, a fim de que sigamos as vossas pegadas!

E quando penso que esses Espíritos, dos quais posso compreender a existência, são seres finitos, átomos, em face do Senhor universal e eterno, minha razão fica confundida pensando na grandeza de Deus e da felicidade infinita que saboreia em si mesmo, pelo único fato de sua pureza infinita, uma vez que tudo o que a criatura adquire não é senão uma parcela que emana do Criador. Ora, se a parcela chega a fascinar pela vontade, a cativar e a deslumbrar pela suavidade, a resplandecer pela virtude, que deve produzir, pois, a fonte eterna e infinita de onde ela é tirada? Se o Espírito, ser criado, chega a haurir em sua pureza tanto de felicidade, que idéia se deve ter daquela que o Criador possui em sua pureza absoluta? Eterno problema!

O compositor que concebe a harmonia a traduz na grosseira linguagem que se chama música; concretiza a sua ideia, ele escreve. O artista estuda a forma e agarra o instrumento que permite representar a ideia. O ar, posto em movimento pelo instrumento, leva-a ao ouvido que a transmite à alma do ouvinte. Mas o compositor ficou impossibilitado de representar inteiramente a harmonia que concebera, por falta de uma linguagem suficiente; executando-a, por sua vez, não compreendeu toda a ideia escrita, e o instrumento indócil, do qual se serve, não lhe permite traduzir tudo o que ele compreendeu. O ouvido é ferido por um ar grosseiro que o cerca, e a alma recebe, enfim, por um órgão rebelde, a horrível tradução da ideia nascida na alma do maestro. A ideia do maestro era o seu sentimento íntimo, embora desvirtuada pelos agentes de instrumentação e de percepção, ela produziu, entretanto, sensações naqueles que o ouviram traduzir; essas sensações são a harmonia. A música as produziu: elas são o efeito desta última. A música é posta a serviço do sentimento para produzir a sensação. O sentimento, no compositor, é a harmonia; a sensação, no ouvinte, é também harmonia, com esta diferença de que ela é concebida por um e recebida pelo outro. A música é o médium da harmonia, ela a recebe e a dá, como o refletor é o médium da luz, como tu és o médium dos Espíritos. Ela a torna mais ou menos desvirtuada segundo seja mais ou menos executada, como o refletor devolve mais ou menos bem a luz segundo seja mais brilhante e polido, como o médium exprime mais ou menos os pensamentos dos Espíritos, segundo ele seja mais ou menos flexível.

E agora que a harmonia está bem compreendida em sua significação, que se sabe que ela é concebida pela alma e transmitida à alma, compreender-se-á a diferença que há entre a harmonia da Terra e a harmonia do espaço.

Entre vós, tudo é grosseiro: o instrumento de tradução e o instrumento de percepção; entre nós tudo é sutil: tendes o ar, nós temos o éter; tendes o órgão que obstrui e obscurece; entre nós, a percepção é direta, e nada a obscurece. Entre vós, o autor é traduzido; entre nós ele fala sem intermediário, e na língua que exprime todas as concepções. E, todavia, essas harmonias têm a mesma fonte, como a luz da Lua tem a mesma fonte que a do Sol, a harmonia da Terra não é senão o reflexo da harmonia do espaço.

A harmonia é tão indefinível quanto a felicidade, o medo, a cólera: é um sentimento. Não é compreendida senão quando possuída, e não é possuída senão quando adquirida. O homem que é alegre não pode explicar a sua alegria; aquele que tem medo não pode explicar o seu medo; eles podem dizer os fatos que provocam esses sentimentos, defini-los, descrevê-los, mas os sentimentos restam inexplicados. O fato que causa a alegria de um não produzirá nada sobre o outro; o objeto que ocasiona o medo de um produzirá a coragem de outro. As mesmas causas são seguidas de efeitos contrários; em física não é assim, em metafísica isso existe. Isso existe porque o sentimento é a propriedade da alma, e que as almas diferem entre si de sensibilidade, de impressionabilidade, de liberdade. A música, que é a causa segunda da harmonia percebida, penetra e transporta um e deixa o outro frio e indiferente. É que o primeiro está em estado de receber a impressão que produz a harmonia, e que o segundo está num estado contrário; ele ouve o ar que vibra, mas não compreende a idéia que lhe transporta. Este chega ao aborrecimento e adormece, aquele ao entusiasmo e chora.

Evidentemente, o homem que gosta das delícias da harmonia é mais elevado, mais depurado, do que aquele que ela não pode penetrar; a sua alma está mais apta a sentir; liberta-se mais facilmente, e a harmonia a ajuda a libertar-se; ela a transporta e lhe permite ver melhor o mundo moral. De onde é necessário concluir que a música é essencialmente moralizadora, uma vez que leva a harmonia às almas, e que a harmonia as eleva e as engrandece.

A influência da música sobre a alma, sobre o seu progresso moral, é reconhecida por todo o mundo; mas a razão dessa influência é geralmente ignorada. Sua razão está inteiramente neste fato: que a harmonia coloca a alma sob a força de um sentimento que a desmaterializa. Este sentimento existe em um certo grau, mas se desenvolve sob a ação de um sentimento similar mais elevado. Aquele que está privado desse sentimento, a ele é levado gradativamente: acaba, ele também, por se deixar penetrar e se deixar arrastar no mundo ideal onde esquece, por um instante, os grosseiros prazeres que prefere à divina harmonia.

E agora, se se considera que a harmonia sai do concerto do Espírito, disso se deduzirá que se a música exerce uma feliz influência sobre a alma, a alma, que a concebe, exerce também uma influência sobre a música. A alma virtuosa, que tem a paixão do bem, do belo, do grande, e que adquiriu a harmonia, produzirá obras-primas capazes de penetrar as almas mais blindadas e comovê-las. Se o compositor é terra-a-terra, como representará a virtude que ele desdenha, o belo que ignora e o grande que não compreende? Suas composições serão o reflexo de seus gostos sensuais, de sua leviandade, de sua indiferença. Elas serão ora licenciosas e ora obscenas, ora cômicas, ora burlescas; comunicarão aos ouvintes os sentimentos que exprimirão e perverte-los-ão ao invés de melhorá-los.

O Espiritismo, moralizando os homens, exercerá, pois, uma grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão as suas virtudes fazendo ouvir as suas composições.

Rir-se-á menos, chorar-se-á mais; a hilaridade dará lugar à emoção, a fealdade dará lugar à beleza e o cômico à grandiosidade.

Por outro lado, os ouvintes que o Espiritismo terá disposto para receberem facilmente a harmonia, apreciarão, na audição da música séria, um encanto verdadeiro; desdenharão a música frívola e licenciosa que se apodera das massas. Quando o grotesco e o obsceno forem abandonados pelo belo e pelo bem, os compositores dessa ordem desaparecerão; porque, sem ouvintes, nada ganharão, e é para ganhar que eles se sujam.

Oh! sim, o Espiritismo terá influência sobre a música! Como isso seria de outro modo? Seu advento mudará a arte, depurando-a. Sua fonte é divina, sua força a conduzirá por toda a parte onde haja homens para amar, para se elevar e para compreender. Tornar-se-á o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas, pedir-lhe-ão as suas inspirações, e ele as fornecerá, porque é rico, é inesgotável.

O Espírito do maestro Rossini, numa nova existência, retornará para continuar a arte que considera como a primeira de todas; o Espiritismo será o seu símbolo e o inspirador de suas composições.

ROSSINI.

(Médium, Sr. Nivart).

[1]          Móbil – O que induz, incita ou motiva; causa, motivo, motor


2 – ARTE NO LIVRO DOS ESPÍRITOS

O LIVRO DOS ESPÍRITOS

Allan Kardec

Parte Segunda – Cap. IV

Da pluralidade das Existências – Ideias inatas.

 

         Questão 220 – Ao mudar de corpo, podem-se perder alguns talentos intelectuais, não mais ter, por exemplo, o gosto pelas artes?

– Sim, se desonrou esse talento ou se fez dele um mau uso. Uma capacidade intelectual pode, além do mais, permanecer adormecida numa existência, porque o Espírito veio para exercitar uma outra que não tem relação com ela. Então, qualquer talento pode permanecer em estado latente para ressurgir mais tarde.

Parte Segunda – Cap. VI

Da Vida Espírita – Percepções, Sensações e Sofrimento dos Espíritos.

 

         Questão 251 – Os Espíritos são sensíveis à música?

– Quereis falar de vossa música? O que é ela perante a música celeste cuja harmonia nada na Terra vos pode dar uma ideia? Uma está para a outra como o canto de um selvagem está para uma suave melodia. Entretanto, Espíritos vulgares podem sentir um certo prazer ao ouvir vossa música, porque ainda não são capazes de compreender uma mais sublime. A música tem para os Espíritos encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas bastante desenvolvidas. A música celeste é tudo o que a imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.

 

Parte Segunda – Cap. VI

Da Vida Espírita – Recordações da Existência Corporal.

        

         Questão 315 – Aquele que abandonou trabalhos de arte ou de literatura conserva por suas obras o amor que lhes tinha quando era vivo?

– De acordo com sua elevação, julga-os sob um outro ponto de vista e, frequentemente, se arrepende de coisas que admirava antes.

         Questão 316 – O Espírito se interessa pelos trabalhos que se executam na Terra pelo progresso das artes e das ciências?

– Isso depende de sua elevação ou da missão que deve desempenhar. O que vos parece magnífico é, muitas vezes, pouca coisa para certos Espíritos, que a consideram como um sábio vê a obra de um estudante. Eles têm consideração pelo que pode contribuir para a elevação dos Espíritos encarnados e seus progressos.

Parte Segunda – Cap. IX

Da Intervenção dos Espíritos no Mundo Corporal – Anjos de Guarda.

Espíritos Familiares, Protetores ou Simpáticos.

 

         Questão 521 – Certos Espíritos podem ajudar no progresso das artes ao proteger aqueles que se ocupam delas?

– Há Espíritos protetores especiais que assistem aos que os invocam quando os julgam dignos. Porém, não deveis acreditar que consigam fazer com que os indivíduos sejam aquilo que não são. Eles não fazem os cegos enxergarem, nem os surdos ouvirem. Os antigos fizeram desses Espíritos divindades especiais. As Musas eram a personificação alegórica dos Espíritos protetores das ciências e das artes, como designavam sob o nome de Lares e Penates os Espíritos protetores da família.

Modernamente, também, as artes, as diferentes indústrias, as cidades, os continentes têm seus patronos protetores, Espíritos Superiores, mas sob outros nomes. Cada homem tem Espíritos que lhe são simpáticos, e resulta disso que, em todas as coletividades, a generalidade dos  Espíritos simpáticos está em relação com a generalidade dos indivíduos; que os Espíritos de costumes e procedimentos estranhos são atraídos para essas coletividades pela identidade dos gostos e dos pensamentos; em uma palavra, que essas multidões de pessoas, assim como os indivíduos, são mais ou menos bem assistidos e influenciados conforme a natureza dos pensamentos dos que os compõem.

Entre os povos, as causas de atração dos Espíritos são os costumes, os hábitos, o caráter dominante e principalmente as leis, porque o caráter de uma nação se reflete em suas leis. Os homens que fazem reinar a justiça entre si combatem a influência dos maus Espíritos. Em toda parte onde as leis consagram injustiças, contrárias à humanidade, os bons Espíritos estão em minoria e a massa dos maus se reúne e mantém a nação sob o domínio das suas ideias e paralisa as boas influências parciais que ficam perdidas na multidão, como uma espiga isolada no meio dos espinheiros. Ao estudar os costumes dos povos ou de qualquer reunião de homens, é fácil, portanto, fazer uma ideia da população oculta que se infiltra em seus pensamentos e em suas ações.

 

Parte Segunda – Cap. X

Ocupações e Missões dos Espíritos.

 

         Questão 565 – Os Espíritos examinam nossos trabalhos de arte e se interessam por eles?

– Examinam o que possa provar a elevação dos Espíritos e seu progresso.

         Questão 566 – Um Espírito que teve uma especialidade na Terra, um pintor, um arquiteto, por exemplo, se interessa pelos trabalhos de sua predileção durante a vida?

– Tudo se confunde num objetivo geral. Sendo bom, se interessa tanto quanto lhe é permitido se ocupar em ajudar as almas a se elevarem até Deus. Esqueceis, aliás, que um Espírito que praticou uma arte na existência em que o conhecestes pode ter praticado uma outra em anterior existência, porque é preciso que saiba tudo para ser perfeito. Assim, conforme o grau de seu adiantamento, pode não haver mais especialidade para ele; é o que quis dizer, afirmando que tudo se confunde em um objetivo geral.

Notai ainda isso: o que é sublime para vosso mundo atrasado é apenas criancice nos mundos mais avançados. Como quereis que os Espíritos que habitam esses mundos onde existem artes desconhecidas para vós admirem o que para eles é somente obra de um estudante? É como vos disse: eles se interessam por tudo que pode revelar o progresso.


3 – LEON DENIS – UM VISIONÁRIO DA ARTE

O ESPIRITISMO NA ARTE

Leon Denis

 PARTE I

A beleza é um dos atributos divinos. Deus pôs nos seres e nas coisas esse encanto misterioso que nos atrai, nos seduz, nos cativa e enche a alma de admiração, às vezes de entusiasmo.

A arte é a busca, o estudo, a manifestação dessa beleza eterna da qual percebemos, aqui na Terra, apenas um reflexo. Para contemplá-la em todo o seu esplendor, em todo o seu poder, é preciso subir de grau em grau em direção à fonte de onde ela emana, e isso é uma tarefa difícil para a maioria entre nós. Pelo menos, podemos conhecê-la pelo espetáculo que o Universo oferece aos nossos sentidos e também pelas obras que ela inspira aos homens de gênio.

O Espiritismo vem abrir para a arte novas perspectivas, horizontes sem limites. A comunicação que ele estabelece entre os mundos visível e invisível, as indicações fornecidas sobre as condições da vida no Além, a revelação que ele nos traz das leis de harmonia e de beleza que regem o Universo vêm oferecer aos nossos pensadores, aos nossos artistas, motivos inesgotáveis de inspiração.

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Dissemos que o objetivo essencial da arte é a procura e a realização da beleza; é, ao mesmo tempo, a procura de Deus, pois que Deus é a fonte primeira e a realização perfeita da beleza física e moral.

Quanto mais a inteligência se apura, se aperfeiçoa e se eleva, mais se impregna da idéia do belo. O objetivo essencial da evolução, portanto, será a procura e a conquista da beleza, a fim de realizá-la no ser e nas suas obras. Tal é a norma da alma na sua ascensão infinita.

Nisso já se impõe a necessidade das vidas sucessivas como meio de adquirir, por esforços contínuos e graduados, um sentido sempre mais preciso do bem e do belo. Os inícios são modestos aqui na Terra, a alma se prepara primeiro nas tarefas humildes, obscuras, apagadas, depois, pouco a pouco, por novas etapas, o espírito adquire a dignidade de artista. Mais elevado ainda, ele se abrirá às concepções vastas e profundas, que são o privilégio do gênio, e se tornará capaz de realizar a lei suprema da beleza ideal.

Em nossa Terra, os artistas não se inspiram todos nesse ideal superior. A maior parte limita-se a imitar o que eles chamam “a natureza”, sem perceber que ela não é mais que um dos aspectos da obra divina. No espaço, porém, a arte reveste formas ao mesmo tempo mais sutis e mais grandiosas e se ilumina com um reflexo divino.

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Primeira Lição de O Esteta

“Estou feliz por vos falar de uma arte que foi minha preocupação constante. Tendes cem vezes razão em defender a causa da arte e colocá-la em paralelo na Terra e no espaço. A arte é de essência divina, é uma manifestação do pensamento de Deus, uma radiação do cérebro e do coração de Deus transmitida sob a forma artística.

No entanto, muitas coisas do plano divino não podem ser transmitidas aos homens. A arte, sob forma de inspiração, faz parte desse todo maravilhoso que compõe o Universo. É o relâmpago, ou antes, é a centelha que estabelece a relação entre Deus e suas criaturas.

Vós podeis vos perguntar quais são os reflexos que guardamos da arte após haver passado séries de existências em diferentes mundos. Eu vou tentar vos dizer.

Em vossa Terra, a arte ainda é uma coisa pouco importante e vos contentais com isso. A arte existe em todos os domínios: no do pensamento, no da escultura, no da música. É neste último que ela se manifesta melhor e torna-se acessível a mais cérebros. Primeiro, quando o espírito humano encarna na Terra e que traz, seja da sua vida no espaço, seja em conseqüência de um trabalho anterior nas vidas terrestres, uma certa noção do ideal estético, quando chega à maturidade na sua vida terrestre, sua bagagem artística se exterioriza sob a forma de inspirações ligadas a uma qualidade mestra que nós chamaremos de o gosto junto ao sentido do belo. Eis aí, pois, o artista criado e pronto para trabalhar sobre a matéria.

Quando esse artista realizou uma vida de trabalho, ele retorna ao espaço. Lá se libertará do seu ser uma quantidade imensa de pensamentos que ele deseja concretizar. Nesse meio fluídico, ele terá todos os materiais necessários para reconstituir o que seu pensamento aprisionado na carne não pôde realizar em uma só existência.

O espírito não possui órgão visual, mas o pensamento reúne todos os sentidos. Primeiro, ele recebe em sua memória as mais belas coisas que sensibilizaram seu cérebro na existência precedente. Se ele viveu em um meio elevado, graças às diretrizes adquiridas, os quadros que passarão em seu pensamento serão verdadeiramente inspirados pelo culto do belo. Portanto, nosso ser espiritual, em nome do seu trabalho, será, em pouco tempo, transferido a um meio fluídico suficientemente puro, livre de parcelas materiais, e de lá poderá receber, pela lembrança, o reflexo artístico de suas vidas anteriores. Por um simples querer, tudo se concretizará com a ajuda dos fluidos ambientes. Esse espírito era pintor? Seu pensamento refletirá os quadros dos mestres que ele conheceu e amou. Era escultor? As formas antigas ou clássicas, ou aquelas da sua época aparecerão sobre a tela do seu pensamento. Depois, com o tempo, outros espíritos, não-atraídos pela arte, mas desejosos de se elevarem em direção a um plano superior, se agruparão em torno dos seres que, por seu trabalho e seu adiantamento, planam em regiões fluídicas mais puras. Esses seres, que se aproximam do artista, receberão mais facilmente o pensamento deste último; por um trabalho prolongado, se estabelecerá uma fusão entre o espírito do profano e o espírito do artista. Pouco a pouco, o profano receberá em seu pensamento os quadros e as cenas artísticas do seu mestre espiritual e poderá, então, experimentar alegrias estéticas muito grandes e se tornar, ele mesmo, artista em uma futura existência, porquanto terá recebido os primeiros elementos da arte no contato com um ser mais avançado do que ele.

É assim que, geralmente, os meios artísticos se perpetuam da Terra ao espaço, do espaço à Terra, e nos outros mundos, visto que existem aqueles em que os meios de criação artística são mais ricos do que em vosso globo.

Devo acrescentar que os espíritos, por trocas de pensamentos, podem criar formas com a ajuda da sucessão de cores que é infinita no espaço: quanto mais os planos são elevados, mais a sucessão de cores é desenvolvida.

Na atmosfera terrestre não podemos exteriorizar nosso pensamento de uma forma clara e precisa. É como se vós quisésseis projetar vosso pensamento sobre uma tela cinzenta em lugar de uma tela branca.

Às vezes os espíritos se reúnem, através de seus pensamentos, trocam formas, criam quadros variados. Se um espírito que viveu em um mundo superior se encontra no meio deles, ele faz seus irmãos menos privilegiados aproveitarem os recursos artísticos que ele pôde adquirir. O criador dessas cenas tem o poder de destruir imediatamente o que seu pensamento criou. Portanto, essas cenas são passageiras e pessoais ao espírito; mas aqueles que têm o desejo de se elevar podem aproveitar essa projeção artística, constituída pela combinação de moléculas fluídicas emanadas do meio ambiente.”

PARTE II

A arte, sob suas formas diversas, como dissemos no artigo anterior, é a expressão da beleza eterna, uma manifestação da poderosa harmonia que rege o Universo; é o raio de luz que vem do alto e que dissipa as brumas, as obscuridades da matéria, e nos faz entrever os planos da vida superior. A arte é, por si mesma, plena de ensinamentos, de revelações, de luz. Ela arrasta a alma em direção às regiões da vida espiritual, que é a verdadeira vida, e que a alma anseia tornar a encontrar um dia.

A arte bem compreendida é um poderoso meio de elevação e de renovação. É a fonte dos mais puros prazeres da alma; ela embeleza a vida, sustenta e consola na provação e traça para o espírito, antecipadamente, as rotas para o céu. Quando a arte é sustentada, inspirada por uma fé sincera, por um nobre ideal, é sempre uma fonte fecunda de instrução, um meio incomparável de civilização e de aperfeiçoamento.

Porém, em nossos dias, muito freqüentemente ela é aviltada, desviada do seu objetivo, escravizada por mesquinhas teorias de escola e, principalmente, considerada como um meio de chegar à fortuna, às honras terrestres. Emprega-se a arte para adular as más paixões, para superexcitar os sentidos, e assim faz-se da arte um meio de aviltamento.

Quase todos aqueles que receberam a sagrada missão de conduzir as almas para o alto se eximiram dessa tarefa. Eles se tornaram culpados de um crime, recusando-se a instruir e a esclarecer as sociedades, perpetuando a desordem moral e todos os males que se precipitam sobre a humanidade. Esse comportamento explica a decadência da arte em nossa época e a ausência de obras importantes.

O pensamento de Deus é a fonte das altas e sãs inspirações. Se nossos artistas soubessem beber nessa fonte, nela encontrariam o segredo das obras imperecíveis e as maiores felicidades. O Espiritismo vem lhes oferecer os recursos espirituais de que nossa época tem necessidade para se regenerar. Ele nos faz compreender que a vida, em sua plenitude, é apenas a concepção e a realização da beleza eterna.

Viver é sempre subir, sempre crescer, sempre acrescentar em si o sentimento e a noção do belo.

As grandes obras só se elaboram no recolhimento e no silêncio, à custa de longas meditações e de uma comunhão mais ou menos consciente com o mundo superior. O alarido das cidades não é conveniente ao vôo do pensamento; ao contrário, a calma da natureza, a paz profunda das montanhas, facilitam a inspiração e favorecem a eclosão do talento. Assim, confirma-se, uma vez mais, o provérbio árabe: “O barulho é para os homens, o silêncio é para Deus!”

O espírita sabe que imensa ajuda a comunhão com o Além, com os espíritos celestes, oferece ao artista, ao escritor, ao poeta. Quase todas as grandes obras tiveram colaboradores invisíveis. Essa associação se fortifica e se acentua pela fé e pela prece, que permitem às forças do Alto penetrarem mais profundamente em nós e impregnarem todo o nosso ser. Mais do que qualquer outro, o espírita sente as correntes poderosas que passam sobre as frontes pensativas e inspiram ideias, formas, harmonias, que são como os materiais dos quais o gênio se utilizará para edificar sua maravilhosa obra.

A consciência dessa colaboração dá a medida da nossa fraqueza; ela nos faz compreender qual parte cabe à influência de nossos irmãos mais velhos, de nossos guias espirituais, daqueles que, do espaço, se inclinam sobre nós e nos assistem em nossos trabalhos. Ela nos ensina a ficar humildes no sucesso. O orgulho do homem é que fez a fonte das altas inspirações secar. A vaidade, que é o defeito de muitos artistas, torna o seu espírito insensível e afasta as grandes almas que concordariam protegê-los. O orgulho forma uma espécie de barreira entre nós e as forças do Além.

O artista espírita conhece sua própria indigência, mas sabe que acima dele, abre-se um mundo sem limites, pleno de riquezas, de tesouros incalculáveis, perto dos quais todos os recursos da Terra não são mais que pobreza e miséria. O espírita também sabe que esse mundo invisível – se ele souber tornar-se digno dele, purificando seu pensamento e seu coração – pode tornar mais intensa a ação do Alto, fazê-lo participar de suas riquezas pela inspiração e pela revelação e delas impregnar as obras que serão como um reflexo da vida superior e da glória divina.

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A inspiração e a evolução da arte e do pensamento

      O objetivo deste tópico é, principalmente, mostrar o considerável papel que a inspiração desempenhou em todos os tempos na evolução da arte e do pensamento. Todos os estudantes do oculto sabem que uma onda de ideias, de formas, de imagens, derrama-se incessantemente do mundo invisível sobre a humanidade. A maior parte dos escritores, dos artistas, dos poetas, dos inventores, conhece essas correntes poderosas que vêm fecundar seu cérebro, ampliar o círculo das suas concepções.

Ora a inspiração se introduz suavemente em nosso intelecto, mistura-se intimamente ao nosso próprio pensamento, de tal forma que se torna impossível distingui-la, ora é uma irrupção súbita, uma invasão cerebral, um sopro que passa sobre nossas frontes e nos agita fortemente numa espécie de febre. Outras vezes é como uma voz interior, tão nítida, tão clara que parece vir de fora para nos falar de coisas graves e profundas. Uma corrente de forças e de pensamentos agita-se e rola em torno de nós, buscando penetrar nos cérebros humanos dispostos a recebê-los, a assimilá-los, a traduzi-los sob a forma e a medida de suas capacidades, de seu grau de evolução. Uns o exprimem de uma forma mais ampla, outros, de forma mais restrita, de acordo com suas aptidões, com a riqueza ou a pobreza das expressões que lhes são familiares e os recursos de sua inteligência.

Terceira Lição

      “Eu gostaria de vos falar sobre a inspiração. É um procedimento de transmissão da luz divina; ela se produz sob diversas formas, porquanto a arte, com suas inúmeras ramificações, aproxima-se em graus diversos desse plano divino do qual vos falo. Quando, no espaço, o espírito de um artista decidiu reencarnar, leva com ele as amizades de seres queridos que, por causas diversas, devem ficar no espaço. Mas, por intuição, esses amigos enviarão a esse ser, aprisionado na carne, fluidos provenientes do seu meio e idéias que darão novo impulso à parcela de talento que existe nele e que, sob o domínio da carne, estaria bastante propensa a ficar adormecida.

A inspiração tem duas formas: uma pessoal, outra mais ampla, transmitida por espíritos elevados que haurem a arte das fontes mais puras e comunicam seus efeitos a um ser que os emprega de forma ordenada por seus meios próprios e naturais.

A inspiração pessoal é a mais comum. Vós sabeis que um ser que é capaz de experimentar esse fenômeno já é evoluído; sua evolução se realizará por etapas. Em cada uma das suas vidas, ele terá um período mais marcante que outros, aquele em que o trabalho foi mais obstinado e, por consequência, mais produtivo; dele resultarão aquisições que se acumularão no perispírito. Na existência seguinte, essas aquisições voltarão a aparecer sob a forma de um dom inato. Esse dom, para os que não são iniciados, se denominará inspiração. Mas essa inspiração não tem senão um caráter humano; em geral ela é fria, não sendo animada pelas luzes divinas.

Para tornar essa inspiração mais bela, mais elevada, é preciso impregná-la de ideal e de fluidos que emanam do foco divino. Chegamos assim à segunda forma de inspiração. Vós sabeis que os amigos invisíveis velam pelos seres que eles sentem que são dignos de serem protegidos e encorajados. Do espaço, os espíritos superiores pressentem a pequena chama criada pela inspiração pessoal. Para torná-la mais brilhante, pela prece, se Deus o permite, esses guias irão buscar, nas esferas onde reinam radiações maravilhosas, os elementos da vida criadora que alimentarão essa pequena chama e dela farão brotar centelhas de talento.

Pode acontecer que o corpo humano seja um pouco perturbado por essas forças. Quando os átomos físicos não podem resistir a esse influxo, produz-se uma desordem no organismo. É o que explica os homens de talento terem, algumas vezes, falta de equilíbrio.

Eis a explicação material do fenômeno. O que sentirá o ser sob o efeito de uma inspiração? Se ele é suficientemente sensível, quando uma idéia, um pensamento que ele não podia prever, aflorar em seu cérebro, ele o assimilará como um receptor telefônico que recebe ondas elétricas e vibra à sua passagem. Ele é um pintor? De repente, sobre sua paleta, ele encontrará o segredo da mistura das cores que irá produzir uma nova cor, adaptando-se admiravelmente ao movimento de traços que torna o rosto expressivo ou ao relevo que deve ser dado a um quadro que está em execução. Ele é um pensador? Um escritor? Um poeta? Desse mesmo cérebro brotarão a ideia, a imagem, a expressão que devem realçar e ilustrar a obra que tem necessidade de revestir uma forma mais elevada e mais colorida. Ele é um músico? No momento em que menos esperar, um acorde, uma série harmônica, uma melodia, virão, pela sua suavidade, sua pureza, sua riqueza, dar à sua composição, um brilho que ela não teria conseguido adquirir. Se o ser humano é, desde o seu nascimento, tornado por um ideal, podeis calcular os novos tesouros que se ligarão a ele. A arte ideal é uma das formas da prece, seu pensamento atrairá amigos invisíveis muito elevados; a eles será fácil fazer realçar o brilho da chama acesa anteriormente e, da alma do artista, brotarão obras inspiradas pelo belo e pelo divino.

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      Os Espíritos, imbuídos das belas obras rebuscadas sobre a Terra e no espaço, e que estão atualmente desencarnados, retornarão no momento em que a arte e o espírito, divinizados, deverão reflorir de uma forma mais intensa. Paralelamente, outros espíritos, que anteriormente trabalharam para a evolução material, impregnaram-se de positivismo e, aqui na Terra, na hora presente, sua inspiração, que está classificada como inspiração pessoal, encaminha-se para as coisas científicas. Mas o grupo de artistas idealistas que fica no espaço busca iluminar com uma luz divina esses seres que têm belas qualidades, sob o ponto de vista do trabalho, e que devem fazer surgir a centelha da ciência.

Eis por que, nesse momento, observais uma luta entre a ciência pura e a procura dos destinos humanos, sua formação e a do Cosmos.


4 – O ARTISTA ESPÍRITA: INSTRUÇÕES DA ESPIRITUALIDADE

 

O CONSOLADOR

Francisco C. Xavier pelo espírito Emmanuel

Capítulo II – Sentimento

ARTE

161 –Que é arte?

-A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma. O artista verdadeiro é sempre o “médium” das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas mais vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o Infinito e abrindo, em todos os caminhos a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, de sabedoria, de paz e de amor.

162 –Todo artista pode ser também um missionário de Deus?

-Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas cristalizações do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das idéias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhes é próprios, como a literatura, a música, a pintura, a plástica. Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão-somente a luz espiritual que vem do coração uníssono como cérebro, nas realizações da vida, então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus, porquanto saberá penetrar os corações na paz da meditação e do silêncio, alcançando o mais alto sentido da evolução de si mesmo e de seus irmãos em humanidade.

163 –Pode alguém se fazer artista tão-só pela educação especializada em uma existência?

-A perfeição técnica, individual de um artista, bem como as suas mais notáveis características, não constituem a resultantes das atividades de uma vida, mas de experiências seculares na Terra e na esfera espiritual, porquanto o gênio, em qualquer sentido, nas manifestações artísticas mais diversas, é a síntese profunda de vidas numerosas, em que a perseverança e o esforço se casaram para as mais brilhantes florações da espontaneidade.

164 –Como devemos compreender o gênio?

– O gênio constitui a súmula dos mais longos esforços em múltiplas existências de abnegação e de trabalho, na conquista dos valores espirituais. Entendendo a vida pelo seu prisma real, muita vez desatende ao círculo estreito da vida terrestre, no que se refere às suas fórmulas convencionais e aos seus preconceitos, tornando-se um estranho ao seu próprio meio, por suas qualidades superiores e inconfundíveis. Esse é o motivo por que a ciência terrestre, encarcerada nos cânones do convencionalismo, presume observar no gênio uma psicose condenável, tratando-o, quase sempre, como a célula enferma do organismo social, para glorifica-lo, muitas vezes, depois da morte, tão logo possa aprender a grandeza da sua visão espiritual na paisagem do futuro.

165 –Como poderemos entender o psiquismo dos artistas, tão diferente do que caracteriza o homem comum?

– O artista, de um modo geral, vive quase sempre mais na esfera espiritual que propriamente no plano terrestre. Seu psiquismo é sempre a resultante do seu mundo íntimo, cheio de recordações infinitas das existências passadas, ou das visões sublimes que conseguiu apreender nos círculos de vida espiritual, antes da sua reencarnação no mundo.

Seus sentimentos e percepções transcendem aos do homem comum, pela sua riqueza de experiências no pretérito, situação essa que, por vezes, dá motivos à falsa apreciação da ciência humana, que lhe classifica os transportes como neurose ou anormalidade, nos seus erros de interpretação. É que, em vista da sua posição psíquica especial, o artista nunca cede às exigências do convencionalismo do planeta, mantendo-se acima dos preconceitos contemporâneos, salientando-se que, muita vez, na demasia de inconsiderações pela disciplina, apesar de suas qualidades superiores, pode entregar-se aos excessos nocivos à liberdade, quando mal dirigida ou falsamente aproveitada. Eis por que, em todas as situações, o ideal divino da fé será sempre o antídoto dos venenos morais, desobstruindo o caminho da alma para as conquistas elevadas da perfeição.

166 –No caso dos artistas que triunfaram sem qualquer amparo do mundo e se fizeram notáveis tão-só pelos valores da sua vocação, traduzem suas obras alguma recordação da vida no Infinito?

-As grandes obras-primas da arte, na maioria das vezes, significam a concretização dessas lembranças profundas. Todavia, nem sempre constituem um traço das belezas entrevistas no Além pela mentalidade que as concebeu, e sim recordações de existências anteriores, entre as lutas e as lágrimas da Terra.

Certos pintores notáveis, que se fizeram admirados por obras levadas a efeito sem os modelos humanos, trouxeram à luz nada mais nada menos que as suas próprias recordações perdidas no tempo, na sombra apagada da paisagem de vidas que se foram. Relativamente aos escritores, aos amigos da ficção literária, nem sempre as suas concepções obedecem à fantasia, porquanto são filhas de lembranças inatas, com as quais recompõem o drama vivido pela sua própria individualidade nos séculos mortos.

O mundo impressivo dos artistas tem permanentes relações com o passado espiritual, de onde os extraem o material necessário à construção espiritual de suas obras.

167 –O grandes músicos, quando compõem peças imortais, podem ser também influenciados por lembranças de uma existência anterior?

-Essa atuação pode verificar-se no que se refere às possibilidades e às tendências, mas, no capítulo da composição, os grandes músicos da Terra, com méritos universais, não obedecem a lembranças do pretérito, e sim a gloriosos impulsos das forças do Infinito, porquanto a música na Terra é, por excelência, a arte divina. As óperas imortais não nasceram do lodo terrestre, mas da profunda harmonia do Universo, cujos cânticos sublimes foram captados parcialmente pelos compositores do mundo, em momentos de santificada inspiração. Apenas desse modo podereis compreender a sagrada influência que a música nobre opera nas almas, arrebatando-as, em quaisquer ocasiões, às ideias indecisas da Terra, para as vibrações do íntimo com o Infinito.

168 –Os Espíritos desencarnados cuidam igualmente dos valores artísticos no plano invisível para os homens?

-Temos de convir que todas as expressões de arte na Terra representam traços de espiritualidade, muitas vezes estranhos à vida do planeta. Através dessa realidade, podereis reconhecer que a arte, em qualquer de suas formas puras, constitui objeto da atenção carinhosa dos invisíveis, com possibilidades outras que o artista do mundo está muito longe de imaginar. No Além, é com o seu concurso que se reformam os sentimentos mais impiedosos, predispondo as entidades infelizes às experiências expiatórias e purificadoras. E é crescendo nos seus domínios de perfeição e de beleza que a alma envolve para Deus, enriquecendo-se nas suas sublimes maravilhas.

169 –A emotividade deve ser disciplinada?

-Qualquer expressão emotiva deve ser disciplinada pela fé, porquanto a sua expansão livre, na base das incompreensões do mundo, pode fazer-se acompanhar de graves consequências.

170 –Com tantas qualidades superiores para o bem, pode o artista de gênio transformar-se em instrumento do mal?

-O homem genial é como a inteligência que houvesse atingido as mais perfeitas condições de técnica realizadora; essa aquisição, porém, não o exime da necessidade de progredir moralmente, iluminando a fonte do coração.

Em vista de numerosas organizações geniais, não haverem alcançado a culminância de sentimento é que temos contemplado, muitas vezes, no mundo, os talentos mais nobres encarcerados em tremendas obsessões, ou anulados em desvios dolorosos, porquanto, acima de todas as conquistas propriamente materiais, a criatura deve colocar a fé, como o eterno ideal divino.

171 –De modo geral, todos os homens terão de buscar os valores artísticos para a personalidade?

-Sim; através de suas vidas numerosas a alma humana buscará a aquisição desses patrimônios, porquanto é justo que as criaturas terrenas possam levar da sua escola de provações e de burilamento, que é o planeta, todas as experiências e valores, suscetíveis de serem encontrados nas lutas da esfera material.

172 –Existem, de fato, uma arte antiga e uma arte moderna?

-A arte envolve com os homens e, representando a contemplação espiritual de quantos a exteriorizam, será sempre a manifestação da beleza eterna, condicionada ao tempo e ao meio de seus expositores.

A arte, pois, será sempre uma só, na sua riqueza de motivos, dentro da espiritualidade infinita.

Ponderemos, contudo, que, se existe hoje grande número de talentos com a preocupação excessiva de originalidade, dando curso às expressões mais extravagantes de primitivismo, esses são os cortejadores irrequietos da glória mundana que, mais distanciados da arte legítima, nada mais conseguem que refletir a perturbação dos tempos que passam, apoiando o domínio transitório da futilidade e da força. Eles, porém. Passarão como passam todas as situações incertas de um cataclismo, como zangões da sagrada colméia da beleza divina, que, em vez de espiritualizarem a Natureza, buscam deprimi-la com as suas concepções extravagantes e doentias.

 

NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 30 – Últimas Páginas 

         Ante o Sol renascente, o campo terrestre brilhava em plena manhã clara. Mudos e expectantes, renteamos com um homem do campo manobrando a enxada na defesa do solo.

Áulus apontou-o com a destra e rompeu o silêncio, murmurando:

– Vejam! A mediunidade como instrumentação da vida surge em toda a parte. O lavrador é o médium da colheita, a planta é o médium da frutificação e a flor é o médium do perfume. Em todos os lugares, damos e recebemos, filtrando os recursos que nos cercam e moldando-lhes a manifestação, segundo as nossas possibilidades.

Avançávamos e, em breves momentos, víamo-nos defrontados por singela oficina de carpinteiro. Nosso orientador indicou o operário que aplainava enorme peça e observou:

– Possuímos no artífice o médium de preciosas utilidades. Da devoção com que se consagra ao trabalho, nasce elevada percentagem de reconforto à Civilização.

Não longe, surpreendemos pequena marmoraria, à porta da qual um jovem envergava o escopro, ferindo a pedra.

– Eis o escultor – disse Áulus –, o médium da obra-prima. A Arte é a mediunidade do Belo, em cujas realizações encontramos as sublimes visões do futuro que nos é reservado.

 

CADERNOS DE ARTE DA ABRARTE

A contribuição da arte espírita para a sociedade

A arte é a máxima possibilidade de expressão do espírito. Podemos aferir o nível de evolução humana, de uma época ou de uma civilização, através da arte, uma vez que esta é o materializar do conjunto de crenças (morais e espirituais) predominantes em uma sociedade. Isto explica, segundo Kardec, a decadência das artes na atualidade.

A decadência das artes, neste século, resultou inevitavelmente da concentração dos pensamentos sobre as coisas materiais, concentração essa que, a seu turno, é o resultado da ausência de toda crença, de toda fé na espiritualidade do ser.(Kardec,1977:157).

Temos, portanto, nas artes um termômetro do pensamento coletivo humano. Por outro lado o caminho inverso também é possível, ou seja, através das artes criar novos referenciais, novas idéias, realizar uma revelação divina. Emmanuel nos confirma essa possibilidade:

Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas cristalizações do    convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das ideias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhe é própria, como a literatura, a música, a pintura, a plástica. (Emmanuel,1980:101)

Nós espíritas sabemos que o espiritismo contribui para o progresso da humanidade na medida que destrói o materialismo, uma das chagas da sociedade, e faz o homem compreender que seus verdadeiros interesses residem na sua natureza espiritual, conforme questão 799 de O Livro dos Espíritos. Apresentar e fazer compreender esta realidade à sociedade não é um trabalho fácil, e, tão pouco rápido.

Muitas almas estão prontas para receber, em sua intimidade, as verdades universais apresentadas pelo espiritismo, mas, infelizmente, estas informações ainda não chegam a todos os que necessitam, estejam eles dentro de nossa cidade, estado ou outro país.

É necessário ter uma visão macro desse processo e tomar consciência que para implementar uma nova cultura (espiritual), na civilização, esta necessita ser trabalhada nas várias frentes da organização social e expressão humana, tais como: educação, religião, família, governo, mídias e artes. Neste contexto, podemos verificar a grande contribuição da arte espírita para a sociedade.         Através dela é possível apresentar as novas verdades, já reveladas aos homens, pelos prepostos de Deus. Estas verdades encontram-se sintetizadas nos princípios da Doutrina Espírita: Deus, Jesus (e sua mensagem), espírito, perispírito, evolução, livre arbítrio, causa e efeito, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados, imortalidade da alma, vida futura, plano espiritual, mediunidade, influência dos espíritos na nossa vida, ação dos espíritos na natureza.

Todos estes temas são inesgotáveis fontes de inspiração e pesquisa para o artista espírita e, logicamente, fontes de esperança e consolação para uma humanidade carente de valores superiores.

O artista embeleza o caminho da inteligência acordando o coração para as mensagens edificantes que o mundo encerra em seu conteúdo de espiritualidade. (Emmanuel, 2000:132)

O desafio da arte espírita, dentro do contexto social, será fazer da realidade atual o ponto de partida, e não o contrário, ponto de chegada. Explico melhor. Temos a tendência de “adequar” as belezas divinas e as verdades universais para dentro de clichês artísticos já conhecidos. Isso se dá devido a tradição cultural, repetindo velhas fórmulas ou técnicas, na pintura, na música, no teatro, na dança, etc. Com isso, acabamos engessando o novo dentro de uma arte do passado. Deveremos construir uma arte do presente para o futuro, quebrando “as algemas do passado”. Ao invés de criarmos um rock espírita, dançarmos um RAP espírita, encenarmos um drama espírita, que tal conduzir o expectador ao “êxtase supradimensional” através de um novo estilo musical, ao “vôo interior da alma” através de uma nova dança, ao “replanejamento de vida” através de uma nova forma de interpretar e interagir com o publico no teatro, ao “encontro consigo mesmo” através do simbólico de uma nova pintura? Tudo isso para possibilitar a mais perfeita expressão do belo, do são, do bom, do bem, do amor, da caridade, do perdão, da humildade, da simplicidade, etc, através das artes.

Quando nos possibilitamos este olhar fica mais fácil entender a expressão: “As artes não sairão do torpor em que jazem, senão por meio de uma reação no sentido das ideias espiritualistas.” (Kardec,1977:157)

A arte espírita é, para a sociedade, educadora: esclarece, ensina, distrai (distração sã), consola e ilumina. A arte espírita é descida dos planos superiores para nos conduzir até Deus. Ela deverá ser sempre instrumento de ascensão espiritual para a sociedade!

Cláudio Marins

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. Obras Póstumas (Euvres Posthumes). Tradução de Guillon Ribeiro. 16a ed. Rio de Janeiro: FEB, 1977.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos (LE LIVRE DES ESPRITS). Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2007.
XAVIER, Francisco Cândido (Médium) e EMMANUEL (Espírito). Fonte Viva. 24a ed. Brasília: FEB, 2000.
XAVIER, Francisco Cândido (Médium) e EMMANUEL (Espírito). O consolador. 8a ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980.
UBALDI, Pietro. A Grande Síntese: Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito. Tradução de Mário Corboli.10a ed. São Paulo: Lake, 1976.
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte e na pintura em particular (DUSPIRITUAL DANS L’ART). Tradução de Álaro Cabral e Antonio de Pádua Danesi. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco, pelo espírito Vianna de Carvalho

 Psicologia da Arte

Questão 148

         O legítimo portador da beleza caracteriza-se pelo conteúdo da mensagem que expressa, enriquecendo a Humanidade com paz, com inspiração e engrandecimento moral, fazendo que, através da sua manifestação de arte, as pessoas se encontrem e confraternizem, respeitando-se umas às outras, sem os apelos às paixões perturbadoras que induzem à violência, ao sexo desvairado, aos tormentos que desgovernam as emoções com predominância das sensações.

O artista real é missionário de Deus como co-criador junto à Humanidade. A sua contribuição permanece edificando, mesmo quando ele morre, e não raro, pela qualidade e profundidade do conteúdo da sua inspiração, que antecipa o futuro, não é reconhecido como gênio, senão depois da morte.

Vianna de Carvalho


5 – SER ARTISTA ESPÍRITA: UMA AÇÃO DE EVANGELIZAÇÃO DA ALMA

CONDUTA ESPÍRITA

Waldo Vieira pelo espírito André Luiz

Capítulo 44

 Perante a Arte

Colaborar na cristianização da arte, sempre que se lhe apresentar ocasião.
A arte deve ser o Belo criando o Bom.
Repelir, sem crítica azeda, as expressões artísticas torturadas que exaltem a animalidade ou a extravagância.
O trabalho artístico que trai a Natureza nega a si próprio.
Burilar incansavelmente as obras artísticas de qualquer gênero.
Melhoria buscada, perfeição entrevista.
Preferir as composições artísticas de feitura espírita integral, preservando-se a pureza doutrinária.
A arte enobrecida estende o poder do amor.
Examinar com antecedência as apresentações artísticas para as reuniões festivas nos arraiais espíritas, dosando-as e localizando-as segundo as condições das assembleias a que se destinem.
A apresentação artística é como o ensinamento: deve observar condições e lugar.
“E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.”
Paulo. (Filipenses, capítulo 4, versículo 7.)

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco, pelo espírito Vianna de Carvalho

         Cada espírito vê e sente a Arte com as suas características e expressões evolutivas, porquanto, à medida que o ser progride, amplia a capacidade de perceber a beleza e senti-la nas suas várias expressões.

Essa forma de identificação muito pessoal, que é resultado da experiência individual, expressa-se na aptidão por uma ou por outra manifestação da Arte, bem como na maneira de traduzir o sentimento no instante da sua captação.

Colocando a sua maneira de entendimento e emoção cria o estilo, que se poderia chamar o legítimo autógrafo colocado naquilo que faz.

Vianna de Carvalho

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

Allan Kardec

Capítulo 13

 item 16

            (…)E todos vós que podeis produzir, dai. Dai vosso talento, vossas inspirações, vosso coração, que Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que sois lidos pelas pessoas da sociedade, satisfazei o gosto deles, mas que o produto de alguma de vossas obras seja consagrado ao consolo dos infelizes.

Pintores, escultores, artistas de todos os gêneros, que vossa inteligência também venha em ajuda dos vossos irmãos, não tereis por isso diminuído a vossa glória e tereis aliviado o sofrimento de muitos.


6 – A APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA – RELAÇÃO COM A PLATEIA NOS DOIS PLANOS DA VIDA

O LIVRO DOS MÉDIUNS

Allan Kardec

 Capítulo 14

Itens 169 e 170 

Assistimos certa noite à representação da ópera Oberon ao lado de um excelente médium vidente. Havia no salão grande número de lugares vazios, mas muitos estavam ocupados por Espíritos que pareciam acompanhar o espetáculo. Alguns se aproximavam de certos espectadores e pareciam escutar as suas conversas. No palco se passava outra cena: por trás dos atores muitos Espíritos joviais se divertiam em contracená-los, imitando-lhes os gestos de maneira grotesca.

Outros, mais sérios, pareciam inspirar os cantores, esforçando-se por lhes dar mais energia. Um desses mantinha-se junto a uma das principais cantoras. Julgamos as suas intenções um tanto levianas e o evocamos após o baixar da cortina. Atendeu-nos e reprovou com severidade o nosso julgamento temerário.

“Não sou o que pensas, — disse, — sou o seu guia, o seu Espírito protetor, cabe-me dirigi-la”.

Após alguns minutos de conversação bastante séria, deixou-nos dizendo:

“Adeus. Ela está no seu camarim e preciso velar por ela”.

Evocamos depois o Espírito de Weber, autor da ópera, e lhe perguntamos o que achava da representação.

“Não foi muito má, — respondeu, — mas fraca. Os atores cantam, eis tudo. Faltou inspiração. Espera, — acrescentou, — vou tentar insuflar-lhes um pouco do fogo sagrado”!

Vimo-lo então sobre o palco, pairando acima dos atores. Um eflúvio parecia se derramar dele para os intérpretes, espalhando-se sobre eles. Nesse momento verificou-se entre eles uma visível recrudescência da energia.

Eis outro fato que prova a influência dos espíritos sobre os homens, sem que estes o percebam.

Assistimos a uma representação teatral com outro médium. Conversando com um Espírito espectador, disse-nos ele: Estás vendo aquelas duas senhoras sozinhas num camarote de primeira?

Pois bem, vou me esforçar para tirá-las do salão. Dito isso, foi se colocar no camarote das senhoras e começou a falar-lhes. Súbito as duas, que estavam muito atentas ao espetáculo, se entreolharam, parecendo consultar-se e a seguir se foram, não voltando mais. O Espírito nos fez então um gesto gaiato, significando que cumprira a palavra. Mas não o pudemos rever para pedir-lhe maiores explicações.

Muitas vezes fomos assim testemunhas do papel que os Espíritos exercem entre os vivos.

Observamo-los em diversos lugares de reunião: em bailes, concertos, sermões, funerais, núpcias, etc., e em toda parte os encontramos atiçando as más paixões, insuflando a discórdia, excitando as rixas e regozijando-se com suas proezas. Outros, pelo contrário, combatem essa influência perniciosa, mas só raramente são ouvidos.

Allan Kardec


7 – A APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA – IRRADIAÇÃO DO BEM

MECANISMOS DA MEDIUNIDADE

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 4

Matéria Mental

         Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim, espontaneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir.

É nessa projeção de forças, a determinarem o compulsório intercâmbio com todas as mentes encarnadas ou desencarnadas, que se nos movimenta o Espírito no mundo das formas-pensamentos, construções substanciais na esfera da alma, que nos liberam o passo ou no-lo escravizam, na pauta do bem ou do mal de nossa escolha. Isso acontece porque, à maneira do homem que constrói estradas para a sua própria expansão ou que talha algemas para si mesmo, a mente de cada um, pelas correntes de matéria mental que exterioriza, eleva-se a gradativa libertação no rumo dos planos superiores ou estaciona nos planos inferiores, como quem traça vasto labirinto aos próprios pés.

Capítulo 11

Onda Mental

         Recorrendo, ainda, a recursos igualmente incompletos, recordemos a televisão, cujos serviços se verificam à base de poderosos feixes eletrônicos devidamente controlados.

Nos transmissores dessa espécie, é imperioso conjugar a aparelhagem necessária à captação, transformação, irradiação e recepção dos sons e das imagens de modo simultâneo.

De igual maneira, até certo ponto, o pensamento, a formular-se em ondas, age de cérebro a cérebro, quanto a corrente de elétrons, de transmissor a receptor, em televisão.

Não desconhecemos que todo Espírito é fulcro gerador de vida onde se encontre.

E toda espécie de vida começa no impulso mental.

Sempre que pensamos, expressando o campo íntimo na ideação e na palavra, na atitude e no exemplo, criamos formas-pensamentos ou imagens-moldes que arrojamos para fora de nós, pela atmosfera psíquica que nos caracteriza a presença.

Sobre todos os que nos aceitem o modo de sentir e de ser, consciente ou inconscientemente, atuamos à maneira do hipnotizador sobre o hipnotizado, verificando-se o inverso, toda vez que aderimos ao modo de ser e de sentir dos outros.

Capítulo 12

Reflexo Condicionado

         (…) Uma conversação, essa ou aquela leitura, a contemplação de um quadro, a ideia voltada para certo assunto, um espetáculo artístico, uma visita efetuada ou recebida, um conselho ou uma opinião representam agentes de indução, que variam segundo a natureza que lhes é característica, com resultados tanto mais amplos quanto maior se nos faça a fixação mental ao redor deles.

 

A GÊNESE

Allan Kardec

Capítulo XIV – item 19

         Assim se explicam os efeitos que se produzem nos lugares de reunião. Uma assembleia é um foco de irradiação de pensamentos diversos. É como uma orquestra, um coro de pensamentos, onde cada um emite uma nota.

Resulta daí uma multiplicidade de correntes e de eflúvios fluídicos cuja impressão cada um recebe pelo sentido espiritual, como num coro musical cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

Mas, do mesmo modo que há radiações sonoras, harmoniosas ou dissonantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto é harmonioso, agradável é a impressão; penosa, se aquele é discordante. Ora, para isso, não se faz mister que o pensamento se exteriorize por palavras; quer ele se externe, quer não, a irradiação existe sempre.

Tal a causa da satisfação que se experimenta numa reunião simpática, animada de pensamentos bons e benévolos. Envolve-a uma como salubre atmosfera moral, onde se respira à vontade; sai-se reconfortado dali, porque impregnado de salutares eflúvios fluídicos. Basta, porém, que se lhe misturem alguns pensamentos maus, para produzirem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido, ou o de uma nota desafinada num concerto. Desse modo também se explica a ansiedade, o indefinível mal-estar que se experimenta numa reunião antipática, onde malévolos pensamentos provocam correntes de fluido nauseabundo.

NOS DOMINIOS DA MEDIUNIDADE

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 4

Ante o Serviço

         A mente, por isso, continua encarcerada nos interesses quase sempre inferiores do mundo, cristalizada e enfermiça em paisagens inquietantes, criadas por ela mesma. Daí o valor do culto religioso respeitável, formando ambiente propício à ascensão espiritual, com indiscutíveis vantagens, não só para os Espíritos encarnados que a ele assistem, com sinceridade e fervor, mas também para os desencarnados, que aspiram à própria transformação. Todos os santuários, em seus atos públicos, estão repletos de almas necessitadas que a eles comparecem, sem o veículo denso, sequiosas de reconforto.

Os expositores da boa palavra podem ser comparados a técnicos eletricistas, desligando “tomadas mentais”, através dos princípios libertadores que distribuem na esfera do pensamento.

Capítulo 13

Pensamento e Mediunidade

         Imaginar é criar.

E toda criação tem vida e movimento, ainda que ligeiros, impondo responsabilidade à consciência que a manifesta. E como a vida e o movimento se vinculam aos princípios de permuta, é indispensável analisar o que damos, a fim de ajuizar quanto àquilo que devamos receber.

(…)Nossos pensamentos geram nossos atos e nossos atos geram pensamentos nos outros.

Inspiremos simpatia e elevação, nobreza e bondade, junto de nós, para que não nos falte amanhã o precioso pão da alegria. Convicção de imortalidade, sem altura de espírito que lhe corresponda, será projeção de luz no deserto.

Capítulo 19

Dominação Telepática

         O pensamento exterioriza-se e projeta-se, formando imagens e sugestões que arremessa sobre os objetivos que se propõe atingir. Quando benigno e edificante, ajusta-se às Leis que nos regem, criando harmonia e felicidade, todavia, quando desequilibrado e deprimente, estabelece aflição e ruína. A química mental vive na base de todas as transformações, porque realmente evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles encarnados ou desencarnados que se afinam conosco.

 

AÇÃO E REAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 10

Entendimento

          (…) registrávamos o império da música, em sua majestade soberana, arrebatando-nos às mais sublimes emoções. Aqueles minutos valiam para nós como abençoada oração. Os lances da magnífica sinfonia como que nos elevavam a círculos harmoniosos de ignota beleza e todos trazíamos lágrimas abundantes, de vez que os encantadores acordes em movimento possuíam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente, os refolhos do ser.

Findas as notas derradeiras, despedimo-nos, maravilhados. Nossos pensamentos vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais fraternos.


8 –  AS RESPONSABILIDADES DE SER ARTISTA ESPÍRITA

LIBERTAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 17

Assistência Fraternal

         Fitei-o, vigilante, e notei-lhe o singular brilho dos olhos. Parecia alucinado, abatido. Com a expressão típica da loucura cronicificada, falou, aflito:

– Permite-me indagar?

– Perfeitamente – respondi surpreso.

– Que é o pensamento?

Não aguardava a pergunta que me era desfechada, mas, centralizando minha capacidade receptiva, no propósito de responder com acerto, elucidei como pude:

– O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.

– Ah! – fez o estranho cavalheiro, um tanto atormentado – a explicação significa que as nossas idéias exteriorizadas criam imagens, tão vivas quanto desejamos?

– Indiscutivelmente.

– Que fazer, então, para destruir nossas próprias obras, quando interferimos, erroneamente, na vida mental dos outros?

– Auxilie-nos a apreciar seu caso, contando-nos alguma coisa de sua experiência – pedi com interesse fraternal.

O interlocutor, provavelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa, expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo, com frases incisivas, quentes de sinceridade e dor:

– Fui homem de letras, mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia, estendendo minhas criações à mocidade de meus dias.

Não consegui posição de evidência, nos galarins da fama; entretanto, mais que eu poderia imaginar, impressionei, destrutivamente, muitas mentalidades juvenis, arrastando-as a perigosos pensamentos. Depois do meu decesso, sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis, que me não deixam em paz, e, enquanto isto ocorre, outras entidades me buscam, formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar.     Compreendi que me achava em ligação, desde a existência terrestre, com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações indesejáveis. No fundo, eu mantinha por mim mesmo, no próprio espírito, suficiente material de leviandade e malícia, que eles exploraram largamente, adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar, sem meu concurso ativo.

Acontece, porém, que abrindo meus olhos à verdade, na esfera em que hoje respiramos, em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas idéias que lhes infundi, na romagem carnal, certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior, como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. Assemelham-se a personalidades autônomas, se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam, gesticulam, acusam-me e riem-se de mim. Reconheço-as sem dificuldade.      São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Investem contra mim, apupam-me e vergastam-me o brio, como se fossem filhos rebelados contra um pai criminoso. Tenho vivido ao léu, qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender, porém, os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas idéias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco?

Havia nos ouvintes significativa expectação, não obstante a calma reinante.

O infeliz deixou de falar, titubeante. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo, apalermado e trêmulo à nossa vista. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e, correndo aos meus braços, bradou:

– Ei-lo! ei-lo que chega por dentro de mim… É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! Acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!…          Alçando a destra à garganta, denunciava, aflito:

– Serei assassinado! Socorro! socorro!…

Os demais companheiros perturbados e sofredores, ali presentes, alarmaram-se, desditosos.

Houve quem tentasse fugir, mas, com uma frase apenas, sustei o tumulto que se iniciava.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco pelo espírito Vianna de carvalho

Educação Artística.

Questão 142

 

A evolução do ser é abrangente, facultando-lhe experiências em várias áreas do conhecimento, do comportamento, da iluminação.

É comum, no entanto, ver-se o Espírito que se realizou em determinado campo de vivência, retornar na mesma atividade, de modo a ampliar o espaço das realizações, não somente plenificando-se, mas também favorecendo a Humanidade com a visão mais ampla e profunda em torno daquela conquista.

O artista, em particular, tende a voltar a reencarnar-se no círculo da beleza, mas, quase sempre em outro gênero de expressão, crescendo na forma de traduzir a grandeza e a majestade da Vida, que a sua sensibilidade capta com maior desenvoltura.

Assim, podemos identificar, por exemplo, Rafael Sanzio renascendo em Frederic Chopin, transformando cores em sons, mas permanecendo vinculado à harmonia.

Vianna de Carvalho

 

CADERNOS DE ARTE DA ABRARTE

A Responsabilidade do Artista Espírita

 

Estamos assistindo, neste momento, ao surgimento de muitos grupos e artistas em geral no meio espírita, tal como o alvorecer de uma nova era que se inicia para a arte espírita.

Concordamos com o médium Divaldo Pereira Franco quando diz que o século passado foi o da tecnologia e que o século que se iniciaria a partir do ano 2001 seria o século das artes e da espiritualidade.

Muito felizes somos por estarmos num tempo no qual cada vez mais pessoas abrem as mentes e os corações para as artes em geral, e pelo tanto que podemos fazer para envolvê-las neste ‘universo’ que é o da estética e da beleza, um dos atributos de Deus, concedendo a nós uma fração das suas virtudes para que possamos apreender e sentir a presença Dele em nós.

Mas diante de tantas possibilidades de realizações e tanta carência das pessoas em geral que buscam a arte como parte de suas realizações, na mesma medida daqueles que buscam o aprimoramento moral e intelectual, é imperioso não deixarmos de falar da responsabilidade do artista espírita no que diz respeito a sua postura ética e moral, social e técnica.

Do ponto de vista moral, que em filosofia significa conjunto de regras a serem seguidas, temos que considerar o artista espírita como aquele que procura seguir o código moral deixado pelo Cristo que é o Evangelho, unido ao que Allan Kardec classifica como sendo o verdadeiro espírita, aquele que se esforça na luta contra as suas más inclinações. O mestre de Lion tira-nos a responsabilidade de sermos seres superiores ou perfeitos e nos deixa o simples conselho de sermos imperfeitos, mas cumpridores fiéis ao dever moral.

A Ética, um dos principais ramos da Filosofia, é a investigadora do bom e do certo. É ela quem questiona se uma coisa é boa ou má, certa ou errada, etc. Enfim, podemos dizer, para efeito didático, que a ética é o questionamento da moral. Sendo assim o artista será ético quando ele observa e questiona o que é melhor para si, como padrão de conduta, e moral quando ele se enquadra naqueles padrões de conduta suficientes para que tenha um julgamento cada vez mais sadio, daquilo que sua inteligência concebe como beleza.

O mundo hoje está cheio de artistas frustrados e deprimidos, transmitindo os raios de suas inspirações sempre permeadas de concepções pessimistas a respeito do mundo. O artista espírita deve se alegrar por conhecer a realidade que descortina paulatinamente a sua frente e transmiti-la em forma de beleza e esperança aos que se encontram oprimidos e tristonhos com suas provações e dificuldades psicológicas.

Do ponto de vista social, aquele que se vale do seu estro e/ou da sua interpretação sente intuitivamente a necessidade de levar a todas as pessoas o objeto de suas ocupações, sem contar que este sentir é um chamado da consciência para não guardar para si o que foi feito para ser compartilhado com todos sem distinção.

Dentro do aspecto social, o ato da doação da renda financeira das atividades artísticas para instituições filantrópicas ou mesmo artísticas me parece uma questão saudável e natural, pois vivemos numa sociedade da qual pertencemos e ter uma função ativa nocrescimento dela é profundamente prazeroso e gratificante dentro do nosso sentimento de utilidade.

Por fim a técnica se nos apresenta como uma necessidade, mas o domínio completo dela não nos parece o fim para o qual deveríamos encaminhar os nossos esforços; assim observamos a técnica do ponto de vista de sua utilidade ao bom desenvolvimento daquilo que nos propomos a fazer. A pessoa que ama aquilo que faz busca com abnegação o seu aprimoramento a fim de transmitir com a maior perfeição possível a sua arte, mas a técnica está a serviço do artista e não o contrário.

Outro aspecto importante, sem a pretensão de encerrar o assunto sobre a postura do artista, é a finalidade, ou seja, qual é o objetivo do grupo ou de quem esteja disposto a iniciar um trabalho artístico. Muitas pessoas há no espiritismo, totalmente despreocupadas em ter qualquer tipo de finalidade com relação aos efeitos do seu trabalho, alegando serem livres e sem rótulos; ora, usar conceitos espíritas e levantar a bandeira de um movimento não pode limitar ninguém! Somos livres e a nossa maior liberdade está em nosso pensamento.

Embora estejamos ainda formando as bases estruturais da Arte Espírita, é preciso desde já trabalhar pelo aprimoramento dela; levar com força de convicção um projeto bem intencionado para que os bons espíritos, responsáveis pela evolução do planeta, encontrem em nós instrumentos capazes de transmitir aos seres aquilo que o materialismo não foi capaz de inspirar: o anseio de uma vida melhor e mais venturosa!

Dentro de tudo isso podemos dizer que uma boa obra ou apresentação pode divulgar, curar, revelar, ensinar, contagiar e emocionar! Todas as atividades no mundo capazes de influenciar positivamente um ser humano são dignas do amparo da espiritualidade maior; sendo a arte uma ciência elevada no mundo, quem não educa a sua sensibilidade através da auto-reflexão, estará se fechando às sublimes inspirações emanadas dos planos maiores, ou recebendo com imperfeição e imprecisão as concepções avançadas do progresso.

Enfim, beleza, bondade, sabedoria e inteligência são atributos que devemos buscar incessantemente, pois o artista do futuro terá em si a marca inconfundível da estética avançada e laureada de bondade, paz e sabedoria emocional. O artista do futuro não será mais o velho gênio perturbado e constrangido pelas suas deficiências.

Encerramos lembrando a célebre frase do Grande compositor desencarnado Rossini, em comunicação mediúnica anotada por Allan Kardec:

[…] O Espiritismo moralizando os homens, exercerá, pois, uma grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão suas virtudes fazendo ouvir as suas composições […]. Rir-se-á menos, chorar-se-á mais; a hilaridade dará lugar à emoção, a fealdade dará lugar à beleza, e o cômico à grandiosidade.

E mais adiante acrescenta o Maestro:

Oh, sim, o espiritismo terá influência sobre a música! Como isso seria de outro modo? Seu advento mudará a arte, depurando-a. Sua fonte é divina, sua força a conduzirá por toda parte onde haja homens para amar, para se elevar e para compreender. Tornar-se-á o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas, pedir-lhe-ão as suas inspirações, e ele as fornecerá, porque é rico, é inesgotável…

Bom, diante destas palavras só nos resta colocar a mão na massa e avançarmos dentro da fé e do trabalho que nos conduzirá a planos cada vez melhores.

Clayton Prado

 

Referências Bibliográficas

KARDEC, Allan. Obras Póstumas (OEuvres Posthumes). Trad. De Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 7a Ed. Araras-SP: IDE, 1999, Cap.IX, p.182.


10 – ARTE NO MUNDO ESPIRITUAL

 

NOSSO LAR

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 3

A Oração Coletiva

 

Mal não saíra da consoladora surpresa, divina melodia penetrou quarto adentro, parecendo suave colméia de sons a caminho das esferas superiores. Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração. Ante meu olhar indagador, o enfermeiro, que permanecia ao lado, esclareceu, bondoso:

__ É chegado o crepúsculo em “Nosso Lar”. Em todos os núcleos desta colônia de trabalho, consagrada ao Cristo, há ligação direta com as preces da Governadoria.

E enquanto a música embalsamava o ambiente, despediu-se,  atencioso:

__ ‘ ‘ __

         Aquela melodia renovava-me as energias profundas. Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia. Seguindo vacilante, cheguei a enorme salão, onde  numerosa assembleia meditava em silêncio, profundamente recolhida. Da abóbada cheia de claridade brilhante, pendiam delicadas e flóreas guirlandas, que vinham do teto à base, formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior.

Ninguém parecia dar conta da minha presença, ao passo que mal dissimulava eu a surpresa inexcedível. Todos os circunstantes, atentos, pareciam aguardar alguma coisa. Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente, notei que ao fundo, em tela gigantesca, desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica.

Obedecendo a processos adiantados de televisão, surgiu o cenário de templo maravilhoso.

__ ‘ ‘ __

         Mal terminara a explicação, as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino, repleto de indefinível beleza. A fisionomia de Clarêncio, no círculo dos veneráveis companheiros, figurou-se-me tocada de mais intensa luz. O cântico celeste constituía-se de notas angelicais, de sublimado reconhecimento. Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e, quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato, desenhou-se ao longe, em plano elevado, um coração maravilhosamente azul com estrias douradas. Cariciosa música, em seguida, respondia aos louvores, procedente talvez de esferas distantes.

Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós; mas, se fixávamos os miosótis celestiais, não conseguíamos detê-los nas mãos. As corolas minúsculas desfaziam-se de leve, ao tocar-nos a fronte, experimentando eu, por minha vez, singular renovação de energias ao contacto das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração.

 __ ‘ ‘ __

         Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfermo, amparado pelo amigo que me atendia de perto. Entretanto, não era mais o doente grave de horas antes. A primeira prece coletiva, em “Nosso Lar”, operara em mim completa transformação. Conforto inesperado envolvia-me a alma. Pela primeira vez, depois de anos consecutivos de sofrimento, o pobre coração, (Imagem simbólica formada pelas vibrações mentais dos habitantes da colônia. – (Nota do Autor espiritual) saudoso e atormentado, à maneira de cálice muito tempo vazio, enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança.

Capítulo 17

Em Casa de Lísias

         Ligado um grande aparelho, fez-se ouvir música suave. Era o louvor do momento crepuscular. Surgiu, ao fundo, o mesmo quadro prodigioso da Governadoria, que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes, no parque hospitalar. Naquele momento, porém, sentia-me dominado de   profunda e misteriosa alegria. E vendo o coração azul desenhado ao longe, senti que minh’alma se ajoelhava no templo interior, em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.

Capítulo 18

Amor, alimento das Almas

         Decorridos momentos, a senhora Laura falou sorridente:

– Todos vocês trabalharam muito hoje. Utilizaram o dia com proveito. Não estraguem o programa afetivo, por nossa causa. Não esqueçam a excursão ao Campo da Música. Notando a preocupação de Lísias, advertiu a alavra materna:

– Vai, meu filho. Não faças Lascínia esperar tanto. Nosso irmão ficará em minha companhia, até que te possa acompanhar nesses entretenimentos.

Capítulo 24

O Impressionante Apelo

         Ligado o receptor, suave melodia derramou-se no ambiente, embalando-nos em harmoniosa sonoridade, vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor, no gabinete de trabalho. Daí a instantes, começou ele a falar:

– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”. Continuamos a irradiar o apelo da colônia, em benefício da paz na Terra.

(…) Nesse ínterim, interrompia-se a música, voltando o locutor:

– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus  da  Europa.  Forças  tenebrosas  do Umbral penetram  em  todas  as  direções, respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem.

Capítulo 32

Notícias de Veneranda

         (…) Surgiram deliciosos recantos em toda parte. Os mais interessantes, todavia, a meu ver, são os que se instituíram nas escolas. Variam nas formas  e  dimensões.  Nos  parques  de  educação  do  Esclarecimento,  instalou  a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação, em forma de estrela, dentro do qual se abrigam cinco numerosas classes de aprendizados e cinco instrutores diferentes. No centro,  funciona  enorme  aparelho  destinado  a  demonstrações  pela  imagem,  à maneira  do  cinematógrafo  terrestre,  com  o  qual  é  possível  levar  a  efeito  cinco projeções variadas, simultaneamente. Essa iniciativa melhorou consideravelmente a cidade, unindo no mesmo esforço o serviço proveitoso à utilidade prática e à beleza espiritual.

(…) Esse  salão  é  nota  de  júbilo  para  os  nossos Ministérios. Talvez já saiba que o Governador aqui vem, quase que semanalmente, aos  domingos.  Ali  permanece  longas  horas,  conferenciando  com  os  Ministros  da Regeneração,  conversando  com  os  trabalhadores,  oferecendo  sugestões  valiosas, examinando nossas vizinhanças com o Umbral, recebendo nossos  votos e  visitas, e confortando  enfermos  convalescentes.  À  noitinha,  quando  pode  demorar-se,  ouve música  e  assiste  a  números  de  arte,  executados  por  jovens  e  crianças  dos  nossos educandários. A maioria dos forasteiros, que se hospedam em “Nosso Lar”, costuma vir  até  aqui  só  no  propósito  de  conhecer  esse  “palácio  natural”,  que  acomoda confortavelmente mais de trinta mil pessoas.

Capítulo 42

A Palavra do Governador

         Tive a impressão de que toda a vida social do nosso Ministério convergiu para o grande salão natural, desde o raiar de domingo, quando verdadeiras caravanas de  todos  os  departamentos  regeneradores  chegavam  ao  local.  O  Grande  Coro  do Templo  da  Governadoria,  aliando­se  aos  meninos  cantores  das  escolas  do Esclarecimento,  iniciou  a  festividade  com  o  maravilhoso  hino  intitulado  “Sempre Contigo,  Senhor  Jesus”,  cantado  por  duas  mil  vozes  ao  mesmo  tempo.  Outras melodias  de  beleza  singular  encheram  a  amplidão.  O  murmúrio  doce  do  vento, canalizado em vagas de perfume, parecia responder às harmonias suaves.

Havia permissão geral de ingresso ao  enorme recinto verde, para todos os servidores  da  Regeneração,  porque,  conforme  o  programa  estabelecido,  o  culto evangélico era dedicado especialmente a eles, comparecendo os demais Ministérios, por numerosas delegações.

Pela  primeira  vez,  tive  à  frente  dos  olhos  alguns  cooperadores  dos Ministérios da Elevação  e  União Divina, que me pareceram vestidos em  brilhantes claridades.

A  festividade  excedia  a  tudo  que  eu  pudesse  sonhar  em  beleza  e deslumbramento. Instrumentos musicais de sublime poder vibratório embalavam de melodias a paisagem odorante.

Às dez horas, chegou o Governador acompanhado pelos doze Ministros da Regeneração.

Nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço; a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e  justo.  Alto,  magro,  envergando  uma  túnica  muito  alva,  olhos  penetrantes  e maravilhosamente lúcidos, apoiava-se num bordão, embora caminhasse com aprumo juvenil.

Satisfazendo-me a curiosidade, Salústio informou:

–  O  Governador  sempre  estimou  as  atitudes  patriarcais,  considerando  que se deve administrar com amor paterno. Sentando-se  ele  na  tribuna  suprema,  levantaram-se  as  vozes  infantis, seguidas de harpas caridosas, entoando o hino “A Ti, Senhor, Nossas Vidas”.

O velhinho enérgico e amorável passeou o olhar pela assembleia compacta, constituída de  milhares  de  assistentes. Em  seguida, abriu  um  livro  luminoso  que  o companheiro me informou ser o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Folheou-o atento e, depois, leu em voz pausada:

–  “E  ouvíreis  falar  de  guerras  e  de  rumores  de  guerras;  olhai,  não  vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.” – Palavras do Mestre em Mateus, capítulo 24, versículo 6.

Volume  de  voz  consideravelmente  aumentado  pelas  vibrações  elétricas,  o chefe  da  cidade  orou  comovidamente,  invocando  as  bênçãos  do  Cristo,  saudando, em seguida, os representantes da União Divina, da Elevação, do Esclarecimento, da Comunicação  e  do  Auxílio,  dirigindo-se,  com  especial  atenção,  a  todos  os colaboradores dos trabalhos de nosso Ministério.

__ ‘ ‘ __

         (…) Comovido e deslumbrado, ouvi as crianças entoarem o hino que a Ministra Veneranda  intitulara  “A  Grande  Jerusalém”.  O  Governador  desceu  da  tribuna  sob vibrações de imensa esperança e foi então que brisas cariciosas começaram a soprar sobre  as  árvores,  trazendo,  talvez  de  muito  longe,  pétalas  de  rosas  diferentes,  em maravilhoso azul, que se desfaziam, de leve, ao tocar nossas frontes, enchendo-nos o coração de intenso júbilo.

Capítulo 45

No Campo da Música

         À tardinha, Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música.

– É preciso distrair-se um pouco, André! – disse ele, gentil.

Vendo-me relutante, acentuou:

– Falarei a Tobias. A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso. Vamos!

(…) Despedindo-nos, a dona da casa me abraçou e falou, bem-humorada:

– Então, doravante, a cidade terá mais um frequentador para o Campo da Música! Tome cuidado com o coração!… Quanto a mim, ainda ficarei hoje em casa. Vingar-me-ei de vocês, porém, muito breve! Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!…

(…) Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música. Luzes de indescritível beleza banhavam extenso parque, onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas. Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes: um espetáculo absolutamente novo para mim.

(…) Nesse momento, atingimos a faixa de entrada, onde Lísias pagou gentilmente o ingresso.

Notei, ali mesmo, grande grupo de passeantes, em torno de gracioso coreto, onde um corpo   orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira. Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente, dando acesso ao interior do parque, em várias direções. Observando minha admiração pelas canções que se ouviam, o companheiro explicou:

– Nas extremidades do Campo, temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime; mas, no centro, temos a música universal e divina, a arte santificada, por excelência.

Com efeito, depois de atravessarmos alamedas risonhas, onde cada flor parecia possuir seu reinado particular, comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu. Na Terra, há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional. Ali, contudo, verificava-se o contrário. O centro do campo estava repleto. Eu havia presenciado numerosas agregações de gente, na colônia, extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador, mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então.

(…) Não era luxo, nem excesso de qualquer natureza, o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso. Era a expressão natural de tudo, a simplicidade confundida com a beleza, a arte pura e a vida sem artifícios. O elemento feminino aparecia na paisagem, revelando extremo apuro de gosto individual, sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina. Grandes árvores, diferentes das que se conhecem na Terra, guarnecem belos recintos, iluminados e acolhedores

Grandemente maravilhado com a música sublime, ouvi Lísias dizer:

– Nossos orientadores, em harmonia, absorvem raios de inspiração nos planos mais altos e os grandes compositores terrestres são, por vezes, trazidos às esferas como a nossa, onde recebem

algumas expressões melódicas, transmitindo-as, por sua vez, aos ouvidos humanos, adornando os temas recebidos com o gênio que possuem. O Universo, André, está cheio de beleza e sublimidade.

O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus.

Capítulo 48

Culto Familiar

         Fez-se grande quietude e Clarêncio disse comovedora e singela prece. Em seguida, Lísias se fez ouvir na cítara harmoniosa, enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento. Logo após, Clarêncio tomou novamente a palavra:

(…) Observei, então, com surpresa, que as filhas e a neta da senhora Laura, acompanhadas de Lísias, abandonavam o estrado, tomando posição junto dos instrumentos musicais. Judite, Iolanda e Lísias se encarregaram, respectivamente, do piano, da harpa e da cítara, ao lado de Teresa e Eloísa, que integravam o gracioso coro familiar.

As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se, cariciosa e divina, semelhante a gorjeio celeste. Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento, quando vozes argentinas embalaram o interior. Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção, composta por eles mesmos.

(…) Às derradeiras notas da bela composição, notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso-acinzentada, apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura. Era Ricardo. Impossível descrever a sagrada emoção da família, dirigindo-lhe amorosas saudações.

O recém-chegado, após falar particularmente à companheira e aos filhos, fixou o olhar amigo em nós outros, pedindo fosse repetida a suave canção filial, que ouviu banhado em lágrimas. Quando se calaram as últimas notas, falou comovidamente:

– Oh! Meus filhos, como é grande a bondade de Jesus, que nos aureolou o culto  doméstico do  Evangelho com  as  supremas  alegrias  desta  noite!

OS MENSAGEIROS

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 

Capítulo 16

No Posto de Socorro

 

De varanda extensa e nobre, onde as colunatas se enfeitavam de hera florida, muito diferente, porém, da que conhecemos na Terra, penetramos em vasto salão mobiliado ao gosto mais antigo.

Os móveis delicadamente esculturados formavam conjunto encantador. Admirado, fixei as paredes, de onde pendiam quadros maravilhosos. Um deles, contudo, impunha-me especial atenção.

Era uma tela enorme, representando o martírio de São Dinis, o Apóstolo das Gálias rudemente supliciado nos primeiros tempos do Cristianismo, segundo meus humildes conhecimentos de História. Intrigado, recordei que vira, na Terra, um quadro absolutamente igual àquele. Não se tratava de um famoso trabalho de Bonnat, célebre pintor francês dos últimos tempos? A cópia do Posto de Socorro, todavia, era muito mais bela. A lenda popular estava lindamente expressa nos mínimos detalhes. O glorioso Apóstolo, seminu, com a cabeça decepada, tronco aureolado de intensa luz, fazia um esforço supremo por levantar o próprio crânio que lhe rolara aos pés, enquanto os assassinos o contemplavam, tomados de intenso horror; do alto, via-se descer um emissário divino, trazendo ao Servo do Senhor a coroa e a palma da vitória. Havia, porém, naquela cópia, profunda luminosidade, como se cada pincelada contivesse movimento e vida.

Observando-me a admiração, Alfredo falou, sorrindo:

– Quantos nos visitam, pela primeira vez, estimam a contemplação desta cópia soberba.

– Ah! sim – retruquei –, o original, segundo estou informado, pode ser visto no Panteão de Paris.

– Engana-se – elucidou o meu gentil interlocutor –, nem todos os quadros, como nem todas as grandes composições artísticas, são originariamente da Terra. É certo que devemos muitas criações sublimes à cerebração humana; mas, neste caso, o assunto é mais transcendente. Temos aqui a história real dessa tela magnífica. Foi idealizada e executada por nobre artista cristão, numa cidade espiritual muito ligada à França. Em fins do século passado, embora estivesse retido no círculo carnal, o grande pintor de Bayonne visitou essa colônia em noite de excelsa inspiração, que ele, humanamente, poderia classificar de maravilhoso sonho. Desde o minuto em que viu a tela, Florentino Bonnat não descansou enquanto não a reproduziu, palidamente, em desenho que ficou célebre no mundo inteiro. As cópias terrestres, todavia, não têm essa pureza de linhas e luzes, e nem mesmo a reprodução sob nossos olhos tem a beleza imponente do original, que já tive a felicidade de contemplar de perto, quando organizávamos, aqui no Posto, homenagens singelas para a honrosa visita que nos fez o grande servo do Cristo. Para movimentar as providências necessárias, visitei pessoalmente a cidade espiritual a que me referi.

Grande espanto apossara-se-me do coração. Via, agora, explicada a tortura santa dos grandes artistas, divinamente inspirados na criação de obras imortais; agora, reconhecia que toda arte elevada é sublime na Terra, porque traduz visões gloriosas do homem na luz dos planos superiores.

Parecendo interessado em completar meus pensamentos, Alfredo considerou:

– O gênio construtivo expressa superioridade espiritual com livre trânsito entre as fontes sublimes da vida. Ninguém cria sem ver, ouvir ou sentir, e os artistas de superior mentalidade costumam ver, ouvir e sentir as realizações mais altas do caminho para Deus.

 

Capítulo 31

Cecília ao Órgão

         Conversávamos, animadamente, quando Alfredo nos convidou para o Salão de Música.

Houve geral contentamento. A senhora Bacelar, dando o braço à nobre Ismália, parecia encantada com a lembrança.

Dirigimo-nos para o grande recinto, prodigiosamente iluminado por luzes de um azul doce e brilhante. Deliciosa música embalava-nos a alma. Observei, então, que um coro de pequenos músicos executava harmoniosa peça, ladeando um grande órgão, algo diferente dos que conhecemos na Terra. Oitenta crianças, meninos e meninas, surgiam, ali, num quadro vivo, encantador.

Cinqüenta tangiam instrumentos de corda e trinta conservavam-se, graciosamente, em posição de canto.. Executavam, com maravilhosa perfeição, uma linda barcarola que eu nunca ouvira no mundo.

Comovidíssimo, ouvi o administrador explicar:

– As crianças do Posto são as nossas flores vivas. Dão-nos perfume, encantamento, alegria, suavizando-nos todos os trabalhos.

Abeiramo-nos do órgão, sentando-nos todos em confortáveis poltronas.

Quando as crianças terminaram, sob aplausos calorosos, Ismália pediu a Cecília executasse alguma coisa.

– Eu? – disse a jovem, corando – se a senhora vem das altas esferas, onde a harmonia é santificada e pura, como poderei executar para os seus ouvidos?

– Não diga isso, Cecília – tornou, sorridente, a generosa esposa do administrador –, a música elevada é sublime em toda parte. Vá, minha filha! lembre-me o lar terreno nos dias mais belos!…

E, antes que a jovem Bacelar perguntasse qual a peça preferida, Ismália continuou:

– Os serviços musicais do Posto levam-me a recordar a velha Fazenda, quando voltava do Internato… Meus pais estimavam as composições européias e, quase todas as noites, ensaiava ao piano…

E, fixando em Cecília os olhos úmidos e brilhantes, rematou:

– Sua mamãe deve lembrar comigo a música predileta de meu velho e carinhoso pai…

Notei que a senhora Bacelar disse alguma coisa à filha, em voz baixa, e vimos Cecília caminhar para o grande instrumento, sem hesitação. Com emoção indizível, ouvimo-la executar, magistralmente, a ‘Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Bach, acompanhada pelas crianças exultantes.

Fixei o rosto de Ismália, notando, pela luz do seu olhar, que seus pensamentos vagueavam longe, talvez em torno do antigo ninho doméstico. Vi-a enxugar as lágrimas discretas e abraçar Cecília carinhosamente, ao findar a execução.

– Agora, Cecília, cante alguma canção da própria alma! – falou a nobre senhora com ternuras de mãe – mostre-nos seu coração…

Os senhores Bacelar estavam satisfeitos e emocionados. Lia se-lhes nos gestos o carinho com que acompanhavam os menores movimentos da filha.

A jovem sorriu, voltou ao teclado, mas permanecia, agora, fundamente transfigurada. Seu belo semblante parecia refletir alguma luz diferente, que vinha de mais alto. Começou a cantar, de maneira misteriosa e comovedora. A música parecia sair-lhe das profundezas do coração, mergulhando-nos em sublime emotividade. Procurei guardar as palavras da maravilhosa canção, mas seria impossível repeti-las integralmente, no círculo dos encarnados na Terra. A sombra da meia-noite não poderia traduzir o revérbero da aurora. Mas de algo me lembro, para registrar aqui, com a fidelidade de que é suscetível minha memória imperfeita.

Como se fora rodeada de claridades diversas daquela em que nos banhávamos, Cecília cantou com voz veludosa e cariciante:

“Guardei para os teus olhos
As estrelas brilhantes do céu calmo…
Guardei para tua alma
Todos os lírios puros dos caminhos!…
Amado meu, amado meu,
Como é longa a viagem entre escolhos
Neste oceano imenso da saudade,
Ao sublime luar da eternidade!…
Em vão, a fada Esperança
Acende a luz dentro de mim…
Porque te foste ao mundo, assim?
Volta, amado!
Ainda mesmo
Que as tuas mãos estejam frias
E que teus pés sangrem de dor.
Trago comigo o bálsamo, a ternura,
Volta a mim,
Vem respirar, de novo, no jardim
Da Imortal união!…
Curarei tuas chagas de amargura,
Dar-te-ei o roteiro para a estrada,
Amarei os que amas,
Para que me abençoes com o teu sorriso.
Volta, amado!
Esquece a dor e a sombra do passado,
Volta, de novo, ao nosso paraíso!…”

         Quando desferiu as últimas notas, vi-lhe o semblante lavado em lágrimas, como se fora banhado em pérolas de luz. Observei que a senhora Bacelar, muitíssimo comovida, tocou de leve a mão de Ismália, e falou:
– Cecília nunca o esquece.

A esposa do administrador, mostrando-se extremamente sensibilizada, indagou:

– Não têm vocês novas notícias de Hermínio?

– O pobrezinho tem vivido de queda em queda – esclareceu a nobre interlocutora – e Cecília sabe que não poderá contar com ele, por muito tempo ainda, guardando, por esse motivo, muita mágoa íntima. Entretanto, nossa filha não desanima e trabalha, incessantemente, cheia de esperança.

Nesse momento, porém, a jovem regressava ao círculo familiar, enxugando os olhos.

A esposa de Alfredo abraçou-a e falou:

– Minhas felicitações! não sabia que você progredira tanto na arte divina! E que bela canção!…

Cecília fez um gesto de timidez, beijou a mão da carinhosa amiga e retrucou:

– Perdoe-me, querida Ismália, meu coração permanece ainda muito ligado à Terra!…

Capítulo 32

Melodia Sublime

         Num gesto nobre, Aniceto pediu a Ismália que executasse algum motivo musical de sua elevada esfera.

A esposa de Alfredo não se fez rogada. Com extrema bondade, sentou-se ao órgão, falando, gentil:

– Ofereço a melodia ao nosso caro Aniceto.

E, ante nossa admiração comovida, começou a tocar maravilhosamente. Logo às primeiras notas, alguma coisa me arrebatava ao sublime. Estávamos extasiados, silenciosos. A melodia, tecida em misteriosa beleza, inundava-nos o espírito em torrentes de harmonia divina. Penetrava-me o coração um campo de vibrações suavíssimas, quando fui surpreendido por percepções absolutamente inesperadas. Com assombro indefinível, reparei que a esposa de Alfredo não cantava, mas no seio caricioso da música havia uma prece que atingia o sublime – oração que eu não escutava com os ouvidos mas recebia em cheio na alma, através de vibrações sutis, como se o melodioso som estivesse impregnado do verbo silencioso e criador. As notas de louvor alcançavam-me o âmago do espírito, arrancando-me lágrimas de intraduzível emotividade:

“O Senhor Supremo de Todos os Mundos
E de Todos os Seres,
Recebe, Senhor,
O nosso agradecimento
De filhos devedores do teu amor!
Dá-nos tua bênção.
Ampara-nos a esperança,
Ajuda-nos o ideal
Na estrada Imensa da vida…
Seja para o teu coração,
Cada dia,
Nosso primeiro pensamento de amor!
Seja para tua bondade
Nossa alegria de viver!…
Pai de amor infinito
Dá-nos tua mão generosa e santa.
Longo é o caminho.
Grande o nosso débito,
Mas inesgotável é a nossa esperança.
Pai Amado,
Somos as tuas criaturas,
Raios divinos
De tua Divina inteligência.
Ensina-nos a descobrir
Os tesouros imensos
Que guardaste
Nas profundezas de nossa vida,
Auxilia-nos a acender
A lâmpada sublime
Da Sublime Procura!
Senhor,
Caminhamos contigo
Na eternidade!…
Em Ti nos movemos para sempre.
Abençoa-nos a senda,
Indica-nos a Sagrada Realização.
E que a glória eterna
Seja em teu eterno trono!…
Resplandeça contigo a Infinita Luz,
Mane em teu coração misericordioso
A Soberana Fonte do Amor,
Cante em tua Criação Infinita
O sopro divino da eternidade.
Seja a tua bênção
Claridade aos nossos olhos,
Harmonia ao nosso ouvido,
Movimento às nossas mãos,
Impulso aos nossos pés.
No amor sublime da Terra e dos Céus!…
Na beleza de todas as vidas,
Na progressão de todas as coisas,
Na voz de todos os seres,
Glorificado sejas para sempre,
Senhor.”

         Que melodia era aquela que se ouvia através de sons inarticulados? Não pude conter as lágrimas abundantes. Cecília comovera-nos a sensibilidade. lembrando as harmonias terrenas e os afetos humanos. Ismália, no entanto, arrebatava-nos o Espírito, elevando-nos ao Supremo Pai.       Nunca ouvira oração de louvor como aquela! Além disso, a esposa de Alfredo glorificava o Senhor de maneira diferente, inexprimível na linguagem humana. A prece tocara-me as recônditas fibras do coração e reconhecia que nunca meditara na grandeza divina, como naquele instante em que uma alma santificada falava de Deus, com a maravilha de suas riquezas espirituais.

E não era só eu a chorar como criança. Aniceto enxugava os olhos, de maneira discreta, e algumas senhoras levavam o lenço ao rosto.

Compreendi que a oração terminara, porque a música mudou de expressão. O caráter heróico cedeu lugar a lirismo encantador.

Experimentando a profunda serenidade ambiente, vi que luzes prodigiosas jorravam do Alto sobre a fronte de Ismália, envolvendo-a num arco irisado de efeito magnético e, com admiração e enlevo, observei que belas flores azuis partiam do coração da musicista, espalhando-se sobre nós. Desfaziam-se como se feitas de caridosa bruma anilada, ao tocar-nos, de leve, enchendo-nos de profunda alegria. A maior parte caía sobre Aniceto, fazendo-nos recordar as palavras amigas da dedicatória. Impressionavam-me profundamente aquelas corolas fluídicas, de sublime azul-celeste, multiplicando-se, sem cessar, no ambiente, e penetrando-nos o coração como pétalas constituídas apenas de colorido perfume.

Sentia-me tão alegre, experimentava tamanho bom ânimo que não conseguiria traduzir as emoções do momento.

Mais alguns minutos e Ismália terminou a magistral melodia.

A esposa do administrador desceu até nós, coroada de intensa luz. Alfredo avançou, beijando-a no rosto, ao mesmo tempo que Aniceto lhe estendia a destra, agradecido.

– Há muito tempo não ouvia músicas tão sublimes como as desta noite – exclamou nosso orientador, sorrindo. Cecília falou-nos do sublime amor terrestre, Ismália arrebatou-nos ao divino amor celestial. Idéia feliz a de permanecermos no Posto! Fomos igualmente socorridos pela luz da amizade, que nos revigorou o bom ânimo!

MISSIONÁRIOS DA LUZ

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 10

Materialização

Notando a perturbação vibratória do ambiente, em vista da atitude desaconselhável dos companheiros encarnados, disse Calimério ao controlador mediúnico:

– Alencar, é necessário extinguir o conflito de vibrações. Nossos amigos ignoram ainda como auxiliar-nos, harmonicamente, através das emissões mentais. É mais razoável se abstenham da concentração por agora.   Diga-lhes que cantem ou façam música de outra natureza. Procure distrair-lhes a atenção deseducada.

Alencar, porém, que se encontrava sob preocupações fortes, diante das múltiplas obrigações que deveria desempenhar no momento, pediu a colaboração de Alexandre, que se colocou à disposição dele, imediatamente:

– André – falou o meu orientador, em tom grave –, improvisemos a garganta ectoplásmica. Não podemos perder tempo.

E, identificando-me a inexperiência, acrescentou:

– Não precisa inquietar-se. Bastará ajudar-me na mentalização das minúcias anatômicas do aparelho vocal.

Estava aturdido, mas o instrutor considerou:

– A força nervosa do médium é matéria plástica e profundamente sensível às nossas criações mentais. Logo após. Alexandre tomou pequena quantidade daqueles eflúvios leitosos, que se exteriorizavam particularmente através da boca, narinas e ouvidos do aparelho mediúnico, e, como se guardasse nas mãos reduzida quantidade de gesso fluido, começou a manipulá-lo, dando-me a impressão de estar completamente alheio ao ambiente, pensando, com absoluto domínio de si mesmo, sobre a criação do momento.

Aos poucos, vi formar-se, sob meus olhos atônitos, um delicado aparelho de fonação. No íntimo do esqueleto cartilaginoso, esculturado com perfeição na matéria ectoplásmica, organizavam-se os fios tenuíssimos das cordas vocais, elásticas e completas na fenda glótica e, em seguida, Alexandre experimentava emitir alguns sons, movimentando as cartilagens aritenóides.

Formara-se, ao influxo mental e sob a ação técnica de meu orientador, uma garganta irrepreensível.

Com assombro, verifiquei que através do pequeno aparelho improvisado e com a cooperação dos sons de vozes humanas, guardados na sala, nossa voz era integralmente percebida por todos os encarnados presentes.

Parecendo-me satisfeito com o êxito de seu trabalho, Alexandre falou pela garganta artificial, como quem utilizava um instrumento vocal humano:

– Meus amigos, a paz de Jesus seja convosco! Ajudem-nos, cantando! Façam música e evitem a concentração!…

Fez-se música no ambiente e vi que o Irmão Alencar, depois de ligar-se profundamente à organização mediúnica, tomava forma, ali mesmo, ao lado da médium, sustentada por Calimério e assistida por numerosos trabalhadores.

Aos poucos, valendo-se da força nervosa exteriorizada e de vários materiais fluídicos, extraídos no interior da casa, aliados a recursos da Natureza, Alencar surgiu aos olhos dos encarnados, perfeitamente materializado.

OBREIROS DA VIDA ETERNA

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 1

Convite ao Bem

         Breves minutos decorreram e penetramos, por nossa vez, o recinto radioso.

Vagavam no ar suaves melodias, precedendo a palavra orientadora. Flores perfumosas, ornamentando o ambiente, embalsamavam a nave ampla.

Alguns instantes agradabilíssimos de espera e o emissário apareceu na tribuna simples, magnificamente iluminada. Era um ancião de porte respeitável, cujos cabelos lhe teciam uma coroa de neve luminosa. De seus olhos calmos, esplendidamente lúcidos, irradiavam-se forças simpáticas que de súbito nos dominaram os corações. Depois de estender sobre nós a mão amiga, num gesto de quem abençoa, ouviu-se o coro do templo entoando o hino “Glória aos Servos Fiéis”:

(…) Transcorridos alguns momentos de meditação, Metelo fez exibir num grande globo de substância leitosa, situado na parte central do templo, vários quadros vivos do seu campo de ação nas zonas inferiores. Tratava-se da fotografia animada, com apresentação de todos os sons e minúcias anatômicas inerentes às cenas observadas por ele, em seu ministério de bondade cristã.

Capítulo 10

Fogo Purificador

         Vasta dose de paciência era despendida por todos nós, para conter a multidão furiosa. Impressionavam-nos as formas monstruosas e miseráveis a se arrastarem vestidas de sombra, quando começaram a chegar entidades aureoladas de luz. Trajavam farrapos e traziam comovedores sinais de sofrimento. Dando a perceber que desejavam isolar a mente das centenas de revoltados que ali se congregavam em ativo movimento de insurreição, contemplavam o Alto e cantavam hinos de reverência ao Senhor, em regozijo da própria renovação, cânticos esses abafados pela algaravia dos rebeldes agitados.

Reparava, pela expressão de quantos luminados se aproximavam de nós, que se esforçavam por manter o pensamento alheio às objurgatórias dos maus, temendo talvez o interesse mental pelo que emitiam, circunstância criadora de novos laços magnéticos favoráveis à dominação dos verdugos. Intentavam, por isso, alimentar o máximo desprendimento dos apodos que lhes eram lançados pela turba malévola e impenitente.

Formavam agrupamentos de formosura singular. Sublimes quadros de paraíso, no inferno de atrozes padecimentos! Vinham, de mãos entrelaçadas, como a permutar energias, a fim de que se lhes aumentasse a força para a salvação, no minuto supremo da batalha que mantinham, talvez, desde muito antes. E esse processo de troca instintiva dos valores magnéticos infundia-lhes prodigiosa renovação de poder, porquanto levitavam, sobrepondo-se ao desvairado ajuntamento. Emolduravam-lhes a fronte belos círculos de luz, com brilho mais ou menos uniforme. Enquanto os tipos de semblante sinistro lhes dirigiam insultos, elas cantavam hosanas ao Cristo, entoando louvores, que, de certo, lembravam os júbilos dos primeiros cristãos, perseguidos e flagelados nos circos, quando se retiravam sob os apupos de espectadores perversos.

NO MUNDO MAIOR, ANDRÉ LUIZ POR FRANCISCO XAVIER

Capítulo 3

A casa Mental

Inquestionavelmente, vivíamos todos em intenso trabalho, com escassas horas reservadas a excursões de entretenimento; demais, fruíamos ambiente de felicidade e alegria a favorecer-nos a marcha evolutiva. Nossos templos constituíam, por si sós, abençoados núcleos de conforto e de revigoramento. Nas associações culturais e artísticas encontrávamos a continuidade da existência terrestre, enriquecida, porém, de múltiplos elementos educativos.

O campo social regurgitava de oportunidades maravilhosas para a aquisição de inestimáveis afeições. Os lares, em que situávamos o serviço diuturno, erguiam-se entre jardins encantadores, quais ninhos tépidos e venturosos em frondes perfumadas e tranquilas.

Capítulo 15

Apelo Cristão

Eusébio, ao terminar, estava aureolado de prodigiosas emissões de luz.

A assembléia prosternada mostrava semblantes lívidos de estupefação.

Enorme grupo de colaboradores de nosso plano elevou a voz em harmonias, entoando comovente cântico de glorificação ao Supremo Senhor.

As melodiosas notas do hino perdiam-se, ao longe, no arvoredo distante, nas asas de suave brisa…

Capítulo 20

No Lar de Cipriana

Cipriana, assumindo a direção da prece, fez-se acompanhar pelos colaboradores diretos que a seguiam no momento.

De alma genuflexa, vi-a de olhos erguidos para o alto, de onde jorrava intensa luz sobre a sua fronte… Do tórax, do cérebro e das mãos brotavam radiosas emissões de força divina, das quais ela se constituía visível intermediária para nós todos.

Alcançados pelos fulgurantes raios que fluíam de esfera superior através de sua personalidade sublime, sentíamo-nos embalados por indizível suavidade…

Harmonioso coro de uma centena de vozes bem afinadas cantou inolvidável hino de louvor ao Supremo Pai, arrancando-me copiosas lágrimas.

LIBERTAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 3

Entendimento

A essa altura da instrutiva conversação, chegamos a gracioso templo.

Nesse doce recanto consagrado à materialização de entidades sublimes, a luz suave da noite calma como que se fazia mais bela.

As vibrações constantes das preces, aí emitidas por vários séculos, tinham criado em torno da edificação prodigioso clima de encantamento.

Melodia celeste derramava-se à surdina e as flores delicadas do átrio pareciam corresponder aos sons cristalinos, variando no brilho e na cor, quase que imperceptivelmente.

(…) Não houve tempo para conversações prévias.

Em seguida a saudações ligeiras e cordiais, foi composto o conjunto de oração.

Os doadores de energia radiante, médiuns de materialização em nosso plano, se alinhavam, não longe, em número de vinte.

Comovedora partitura soou, argentina e leve, em aposento próximo, predispondo-nos à meditação de ordem superior.

Capítulo 4

Numa Cidade Estranha

Música exótica fazia-se ouvir não distante e Gúbio rogou-nos prudência e humildade em favor do êxito no trabalho a desdobrar-se.

Reerguemo-nos e avançamos.

Fizera-se-nos tardio o passo e nossa movimentação difícil.

Capítulo 5

Operações Seletivas

Varando, agora, o recinto, os lictores passaram o instrumento simbólico às mãos e alinharam-se, corretos, perante a tribuna espaçosa, sobre a qual resplandecia alarmante facho de luz.

Os julgadores, por sua vez, desceram, pomposos, dos tronos içados e tomaram assento numa espécie de nicho a salientar-se de cima, inspirando silêncio e temor, porque a turba inconsciente, em redor, calou-se de súbito.

Tambores variados rufaram, como se estivéssemos numa parada militar em grande estilo, e uma composição musical semi-selvagem acompanhou-lhes o ritmo, torturando-nos a sensibilidade.

Terminado aquele ruído, um dos julgadores se levantou e dirigiu-se à massa, aproximadamente nestes termos:

– “Nem lágrimas, nem lamentos. (…)

Capítulo 17

Assistência Fraternal

         Fitei-o, vigilante, e notei-lhe o singular brilho dos olhos. Parecia alucinado, abatido. Com a expressão típica da loucura cronicificada, falou, aflito:

– Permite-me indagar?

– Perfeitamente – respondi surpreso.

– Que é o pensamento?

Não aguardava a pergunta que me era desfechada, mas, centralizando minha capacidade receptiva, no propósito de responder com acerto, elucidei como pude:

– O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.

– Ah! – fez o estranho cavalheiro, um tanto atormentado – a explicação significa que as nossas idéias exteriorizadas criam imagens, tão vivas quanto desejamos?

– Indiscutivelmente.

– Que fazer, então, para destruir nossas próprias obras, quando interferimos, erroneamente, na vida mental dos outros?

– Auxilie-nos a apreciar seu caso, contando-nos alguma coisa de sua experiência – pedi com interesse fraternal.

O interlocutor, provavelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa, expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo, com frases incisivas, quentes de sinceridade e dor:

– Fui homem de letras, mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia, estendendo minhas criações à mocidade de meus dias.

Não consegui posição de evidência, nos galarins da fama; entretanto, mais que eu poderia imaginar, impressionei, destrutivamente, muitas mentalidades juvenis, arrastando-as a perigosos pensamentos. Depois do meu decesso, sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis, que me não deixam em paz, e, enquanto isto ocorre, outras entidades me buscam, formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar.     Compreendi que me achava em ligação, desde a existência terrestre, com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações indesejáveis. No fundo, eu mantinha por mim mesmo, no próprio espírito, suficiente material de leviandade e malícia, que eles exploraram largamente, adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar, sem meu concurso ativo.

Acontece, porém, que abrindo meus olhos à verdade, na esfera em que hoje respiramos, em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas idéias que lhes infundi, na romagem carnal, certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior, como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. Assemelham-se a personalidades autônomas, se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam, gesticulam, acusam-me e riem-se de mim. Reconheço-as sem dificuldade.      São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Investem contra mim, apupam-me e vergastam-me o brio, como se fossem filhos rebelados contra um pai criminoso. Tenho vivido ao léu, qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender, porém, os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas idéias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco?

Havia nos ouvintes significativa expectação, não obstante a calma reinante.

O infeliz deixou de falar, titubeante. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo, apalermado e trêmulo à nossa vista. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e, correndo aos meus braços, bradou:

– Ei-lo! ei-lo que chega por dentro de mim… É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! Acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!…          Alçando a destra à garganta, denunciava, aflito:

– Serei assassinado! Socorro! socorro!…

Os demais companheiros perturbados e sofredores, ali presentes, alarmaram-se, desditosos.

Houve quem tentasse fugir, mas, com uma frase apenas, sustei o tumulto que se iniciava.

Capítulo 20

Reencontro

         Doce intervalo mostrou-nos o júbilo reinante.

Salutar otimismo transbordava de todos os rostos.

Saldanha, de olhos fitos em nosso dirigente, confundia-nos pelo pranto de contrição purificadora, a correr-lhe, abundante, dos olhos.

Antes que o nosso instrutor pudesse retomar o fio da palavra encorajadora e vigilante, algumas irmãs entoaram formoso hino de louvor à bondade do Cristo, com visível desassombro no olhar firme, dantes ansioso e dorido, enchendo-nos o coração de intraduzível bem-estar.

Raios de safirina luz derramaram-se profusamente sobre nós, enquanto as vozes harmoniosas e singelas se espalhavam, em derredor, tangendo-nos as fibras mais recônditas, nos recessos do ser.

Terminado o cântico melodioso e tocante que nos recordava os pensamentos sublimes de inolvidável Salmo de David 7, o instrutor retomou a palavra e informou que, não obstante as santificadas alegrias daquela hora, a batalha não estava finda.

Faltava-nos o epílogo, esclareceu com inflexão mais grave na voz.

 

ENTRE A TERRA E O CÉU

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 

Capítulo 9

No Lar da Benção

 

Clarêncio movimentou a destra, indicando-nos o quadro sublime a desdobrar-se sob a nossa vista.

Doce melodia que enorme conjunto de meninos acompanhava, cantando um hino delicado de exaltação do amor materno, vibrava no ar.

Aqui e ali, sob tufos de vegetação verde-clara, muitas senhoras sustentavam lindas crianças nos braços.

– É o Lar da Bênção – informou o instrutor, satisfeito. – Nesta hora, muitas irmãs da Terra chegam em visita a filhinhos desencarnados. Temos aqui importante colônia educativa, misto de escola de mães e domicílio dos pequeninos que regressam da esfera carnal.

O Ministro, porém, interrompeu-se, de improviso.

Nossas companheiras pareciam agora tomadas de jubilosa aflição.

Vimo-las desgarrar, de inopino, qual se fossem atraídas por forças irresistíveis, precipitando-se para os anjinhos que cantarolavam alegremente. Enquanto a que nos era menos conhecida enlaçava louro petiz, com infinito contentamento a expressar-se em lágrimas, dona Antonina abraçou um pequeno de formoso semblante, gritando, feliz:

– Marcos! Marcos!…

– Mãezinha! Mãezinha!… – respondeu a criança, colando-se-lhe ao peito.

 

AÇÃO E REAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 10

Entendimento

         (…) registrávamos o império da música, em sua majestade soberana, arrebatando-nos às mais sublimes emoções. Aqueles minutos valiam para nós como abençoada oração. Os lances da magnífica sinfonia como que nos elevavam a círculos harmoniosos de ignota beleza e todos trazíamos lágrimas abundantes, de vez que os encantadores acordes em movimento possuíam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente, os refolhos do ser.

Findas as notas derradeiras, despedimo-nos, maravilhados. Nossos pensamentos vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais fraternos.

Capítulo 20

Comovente Surpresa

         No largo estrado, em que se destacava a direção, Druso aparecia, ladeado pelo Instrutor Arando, a quem passaria o governo do estabelecimento, e pela esposa querida, aquela que lhe ofertara no mundo os sonhos doces do primeiro matrimônio, cujos olhos serenos exprimiam irradiante bondade.

Outros benfeitores, incluindo o nosso caro Silas, ali também se encontravam, atenciosos e emocionados.

Na multidão dos ouvintes, estávamos nós, renteando com os assessores e funcionários do grande hospital-escola, ao pé de mais de trezentos internados.

Todos os enfermos, abrigados e servidores vinham trazer a Druso preciosos testemunhos de reconhecimento.

As manifestações comovedoras multiplicavam-se, incessantes.

Enquanto música leve nascia de instrumentos ocultos, espalhando-se em surdina, todos os doentes, em fila movimentada, queriam dizer uma palavra ao abnegado Instrutor que os acolhera, generoso.

 

SEXO E DESTINO

Francisco C. Xavier e Waldo Vieira pelo espírito André Luiz

 Parte I

Capítulo 10

         De olhos parados, como se buscasse, além, no espaço infinito, o colo agasalhante que o tempo arrebatara, assumiu nova posição, colocando a cabeça da jovem no próprio regaço e, emocionando-se até às lágrimas, qual se tivesse nos lábios aqueles lábios de mãe, humilde e enferma, que jamais esqueceria, Aracélia, em pranto resignado, cantou suavemente diante de nós:

Lindo anjo de meus passos,
Descansa, meu doce bem;
Dorme, dorme nos meus braços,
Enquanto a noite não vem.
Dorme, filhinha querida;
Não chores, encanto meu;
Dorme, dorme, minha vida,
Tesouro que Deus me deu…

         Qual se fora repentinamente magnetizada, Marita caiu em pesado sono

E A VIDA CONTINUA

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 7

Informações de Alzira

         – Não se aflijam. Vocês conhecerão tudo a seu tempo. A cidade é linda. Uma espécie de vale de edifícios, como que talhados em jade, cristal e lápis-lazúli. Arquitetura original, praças encantadoras recamadas de jardins. Creiam vocês que caminhei, fascinada, de rua em rua. O irmão Nicomedes, pois assim se chama o dono da casa, acolheu-nos com muita gentileza. Apresentou-me a filha Corina, uma bela jovem, com quem para logo simpatizei.

Íntima de uma das amigas que eu seguia e com a qual entraria em combinação sobre assuntos de serviço, salientou a alegria festiva do lar, falando-nos de esperados júbilos domésticos. Mostrou-nos os lustres novos, as telas e os vasos soberbos… Tudo seguia num crescendo de doces surpresas para mim, quando surgiu a bomba…

Achávamo-nos no terraço, admirando um canteiro de jasmins suspensos, quando ouvimos o “Sonho de Amor”, de Liszt, tocado ao piano. Corina informou-nos de que o pai dedilhava o instrumento com grande mestria. Enterneci-me de tal modo que manifestei o desejo de ouvi-lo, mais de perto. A nossa anfitriã conduziu-nos, de imediato, à sala de música. E foi um deslumbramento.

O irmão Nicomedes, absorto, revelava-se num mundo de alegrias profundas, que se lhe irradiavam da vida interior, em forma, de melodias, das notáveis melodias que se sucediam umas às outras.


11 – A TRANSIÇÃO PLANETÁRIA E OS ARTISTAS

MEMÓRIAS DE UM SUICIDA

Yvonne A. Pereira pelo espírito Camilo Cândido Botelho

 

Segunda Parte

Capítulo 6

 

Surpreendidos, verificamos haver ingressado em recinto que se afigurava à nossa apreciação como legítimo cenáculo de Arte, recanto sedutor, se assim nos podemos referir a um atelier de artistas eméritos, onde mestres das artes plásticas exerciam sublimes encargos, cônscios das responsabilidades de que os investia a ação da Divina Providência.

 

Terceira Parte

Capitulo 3

 

Aprendíamos, ainda!

Progredíamos em conhecimentos obtendo, nas citadas reuniões, noções de Arte Clássica Transcendental, de que eram dignos expoentes não apenas nossos mestres, como outros que caridosamente nos visitavam, e até nossas vigilantes, que ensaiavam com eles nova modalidade de servir a Deus e à Criação, isto é, utilizando-se do Belo, empregando a Beleza!… pois convém acentuar que nossos mestres, em sendo cientistas, também se revelavam estetas, enamorados da Suprema Beleza que se origina do Sempiterno Artista!

 

Terceira Parte

Capitulo 4

 

Os dias consagrados a tais exames eram festivos para todo o Burgo da Esperança. Legítimos certamens de uma Arte Sagrada – a do Bem -, o encanto que de tais reuniões se destacava ultrapassava todas as concepções de beleza que antes poderíamos ter! Esforçavam-se as vigilantes na decoração dos ambientes, na qual entravam jogos e efeitos de luzes transcendentes indescritíveis em linguagem humana, enquanto luminares de nossa Colônia, como Teócrito, Ramiro de Guzman e Aníbal de Silas se revelavam artistas portadores de dons superiores, quer na literatura como na música e oratória descritiva, isto é, na exposição mental, através de imagens, das produções próprias.

De outras esferas vizinhas desciam caravanas fraternas a emprestarem brilho artístico e confortativo às nossas experimentações. Nomes que na Terra se pronunciam com respeito e admiração acorriam bondosamente a reanimar-nos para o progresso, ativando em nossos corações humílimos o desejo de prosseguir nas pelejas promissoras. Não faltaram mesmo em tais assembleias o estimulo genial de vultos como Victor Hugo e Fréderic Chopin, este último considerado suicida na Pátria Espiritual, dado o descaso com que se ativera relativamente à própria saúde corporal; ambos, como muitos outros, cujos nomes surpreenderiam igualmente o leitor, exprimiam a magia dos seus pensamentos, dilatados pelas aquisições de longo período na Espiritualidade, através de criações intraduzíveis para as apreciações humanas do momento!

Tivemos, assim, ocasião de ouvir o grande compositor que viveu na Terra mais de uma experiência carnal, sempre consagrando à Arte ou às Belas-Letras as suas melhores energias mentais, traduzir sua música em imagens e narrações, numa variedade atordoadora de temas, enquanto que o gênio de Hugo mostrava em lições inapreciáveis de beleza e instrução a realidade mental de suas criações literárias!

 

DEVASSANDO O INVISÍVEL

Yvonne A. Pereira

Capítulo 3

Frederico Chopin, na Espiritualidade

 

(…) Interessa-se profundamente pela Doutrina dos Espíritos, pois confessa que, em suas existências passadas, não chegou a se dedicar fielmente a nenhum credo religioso, não obstante estivesse convencida da ideia de Deus, da imortalidade da alma e da eternidade e imutabilidade das leis divinas. Sua religião tem sido, através dos milênios, as Artes, pois afirma ter vivido em várias épocas sobre a Terra, sempre como artista  destacado. Ele serviu mesmo, como gênio inesquecível, as Belas Artes, a Arquitetura, a Pintura e finalmente a Música, que parece ser o ponto culminante das Artes em nosso planeta, o ápice da sensibilidade que um gênio da Arte pode galgar no estado de encarnação.

No momento, porém, podemos afirmar, convincentemente, graças a um convívio assíduo e fecundo com beneméritos amigos invisíveis, que os nobres artistas do passado, exceção feita de alguns poucos, se encontram reunidos na Pátria Espiritual, onde progridem e se habilitam para. em ocasião oportuna, voltarem em falanges brilhantes, a fim de viverem nas sociedades terrenas servindo à Arte, a qual, então, alcançará um inconcebível fastígio, como ao Amor, a que não serviram ainda, pois eles próprios têm feito tais confissões sempre que lhes é permitido confabular com os médiuns. Confessam, outrossim, o grande desgosto que os acompanha quando reconhecem que, no estado de encarnação, arrebatados pela Arte, esqueceram os caminhos luminosos conducentes à redenção espiritual, o que nos leva à conclusão de que a Arte, por si só, não redime ou santifica o artista. Ele necessitará, além dela, do cultivo do amor a Deus e ao próximo, da excelência de uma fé inquebrantável nos princípios divinos, pois a lei que do Todo-Poderoso emanou, para orientar o trajeto evolutivo das criaturas, não foi diferente para os artistas.

(…) Asseverounos que sabia ser ele muito amado pelos brasileiros, o que particularmente o enternece. Mas observa que ninguém lhe dirige uma prece, e que necessita desse estímulo para as futuras tarefas que empreenderá, ao reencarnar, quando pretende servir a Deus e ao próximo, o que nunca fêz através da música. Declarou que, salvo resoluções posteriores, pretende reencarnar no Brasil, país que futuramente muito auxiliará o triunfo moral das criaturas necessitadas de progresso, mas que tal acontecimento só se verificará do ano de 2000 em diante, quando descerá à Terra brilhante falange com o compromisso de levantar, moralizar e sublimar as Artes. Não poderá precisar a época exata. Só sabe que será depois do ano de 2000, e que a dita falange será como que capitaneada por Vítor Hugo, Espírito experiente e orientador (a quem se acha ligado por afinidades espirituais seculares), capaz de executar missões dessa natureza

(…) Ainda na mesma oportunidade, afirmou o instrutor espiritual Charles que Frederico Chopin seria a reencarnação do poeta romano Ovídio, que viveu cerca de quarenta anos antes do Cristo, falecido no ano 16 da nossa era, e do pintor itAllano Rafael Sanzio, pois que o intelectual, o artista, na sua evolução pelo roteiro do Saber, dentro da Arte, há de passar por todas as suas facetas, sublimando-se até à comunhão com o Divino.

(…) que vêm à Terra quando o desejam, e por uma especial solidariedade para com os humanos, a fim de estimularem entre estes o amor pelo Belo, pois que esse atributo, o Belo, é tão necessário às almas em progresso quanto o Amor, visto tratar-se também de um dos atributos do próprio Criador de Todas as Coisas, e que, sendo o Universo uma expressão da Beleza Divina, e sendo o homem destinado a se tornar a imagem e a semelhança de Deus, deverá igualmente comungar com o Belo, a fim de poder compreender o Universo e com ele vibrar em toda a sua arrebatadora, feérica e harmoniosa beleza.

 

TRANSIÇÃO PLANETÁRIA

Divaldo Franco pelo espírito manoel Philomeno de Miranda

 

Capítulo 01

Novos Rumos

 

Nesse ínterim, suave musicalidade chegou-nos aos ouvidos, oriunda do santuário próximo onde se ensaiavam as partituras da Missa em si menor, de Johann Sebastian Bach, originalmente composta para orquestra, mas ali apresentada em órgão magistralmente dedilhado com o coral infantil de nossa comunidade…

Experimentamos a sensação de que, naquele momento, os Céus comunicavam-se com nossa Colônia

Realmente, essa ocorrência tinha lugar, porque o edifício reservado às celebrações do amor e da fé religiosa encontrava-se iluminado com tonalidades prateadas e azuis suaves. Particularmente chamou-se a atenção o movimento das ondas sonoras, que obedeciam ao ritmo suave e doce do órgão e das vozes infantis.

Quase extasiado, ia falar ao amigo Oscar, quando lhe percebi chorando discretamente.

 

Capítulo 3

A Mensagem-Revelação

 

A semelhança das ondas oceânicas a abraçarem as praias voluptuosamente, sorvendo as rendas de espumas alvas, os novos obreiros do Senhor se sucederão ininterruptamente alterando os hábitos sociais, os costumes morais, a literatura e a arte, o conhecimento em geral, ciência e tecnologia, imprimindo novos textos de beleza que despertarão o interesse mesmo daqueles que, momentaneamente, encontram-se adormecidos.

 

Capítulo 15

Experiências Iluminativas

 

Em nossa esfera de ação espiritual, por exemplo, as paisagens são ricas de tonaldiade incomparáveis, nasceres e pores-do-sol portadores de luzes em tons indefiníveis, jardins e nascentes de água cristalina, em jorros intermináveis, flores em festões multicoloridos e perfumes suaves e penetrantes, educandários e teatros para formação  intelecto-moral, hospitais e sanatórios modelares, que deverão inspirar as futuras construções terrestres conforme já vem acontecendo, galerias de arte em todos os gêneros, em que nobres artistas aprimoram a capacidade de registro para tornarem a Terra um planeta paradisíaco.

 

Capítulo 16

Programações Reencarnatórias

 

Ciladas habilmente organizadas, estereótipos do prazer e estímulos vulgares às sensações passaram a ser inspirados aos multiplicadores de opinião dos grandes veículos da mídia, de modo a perturbar a marcha do progresso, ampliando a área dos desmandos de toda ordem, especialmente a que diz respeito aos gozos servis e de fácil acesso.

Conclaves insidiosos organizados pelos inimigos do Bem, nas furnas em que se homiziavam, estabeleceram metas de vingança, utilizando-se da política sórdida a que se entregam muitos dos seus membros, ora reencarnados nessa área, como nas religiões, nas artes e noutros setores sociais, a fim de que chafurdem no lodaçal do caos moral, em estímulo negativo aos comportamentos saudáveis, fazendo campear o descrédito, o desrespeito às leis e aos deveres, na volúpia de acumula: recursos que não são transferidos com a desencarnação, mas entorpecem os significados elevados da existência espiritual.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco pelo espírito Vianna de carvalho

 

Tópico 9.1

Questão 204

 

A fim de que se expressem novas formas de comportamento em todas as áreas do progresso humano, a Divindade faz com que reencarnem na Terra os grandes Missionários, a fim de darem cumprimento a esses objetivos elevados.

Neste crepúsculo de milênio e quase amanhecer de uma Nova Era, já se encontram em processos de renascimento orgânico os Missionários da beleza, qul tem sucedido em todos os períodos passados, trazendo programas de rara sensibilidade e emoção, promovendo as variadas expressões da Cultura, da Ciência e da Arte.

 

VOZES DO INFINITO

Raul Teixeira por diversos espíritos

 

A MISSÃO DA ARTE

 

A Arte é das mais profundas formas de expressão que o Espírito pode encontrar sobre a Terra.

Quando penetrada por ideais de excelência, cabe à Arte o labor de cooperar no desenvolvimento da estesia nas criaturas de Deus.

Assim, o artista é alguém dotado dessas sutis percepções, tendo possibilidades, muitas vezes, de captar a vibração superior da Vida, as ondas luminosas de esferas cerúleas e apresentar aos homens o produto de sua filtragem.

O artista imbuído da Arte que se agita nos painéis do Cosmo, quando segue fiel aos preceitos do equilíbrio da realização do bem, não poucas vezes se faz intérprete de fulgurantes mensagens, depositário que se torna dos fulgores estelares.

Cooperador de Deus, cabe ao artista desenvolver ou colaborar para que se desenvolvam nos seres humanos os sentimentos do belo, do inefável, do indefinível.

Não é por outra causa que deparamos com artistas de níveis variados, atendendo aos Programas da Divindade nos patamares mais diversos pelo mundo.

Dos tambores rústicos da selva aos violinos apaixonados e rútilos concertos, vemos a Presença de Deus.

Do totem dos prístimos dias da tribo, às esculturas de Miguel Ângelo, na Europa, percebemos a Presença de Deus.

Das evocações do vozerio rítmico dos polinésios às mais formidáveis sinfônicas do mundo, sentimos a Presença de Deus, conduzindo Seus filhos ao amadurecimento estético, aos voos mais altos da sensibilidade, a fim de que O compreendam, gradativamente, na fileira evolutiva.

Não podemos ignorar, contudo, que aparecem aqui e ali, em muitos lugares, e mesmo que luxuriam em vários locais no mundo, almas infernizadas em si mesmas, marcadas pelos institntos rebaixados do crime, possuidores de pulsões anímicas aberrantes, que se mostram como artistas, impondo aos despreparados e incautos as suas alucinações íntimas as quais nomeiam como arte.

No momento em que vive a Humanidade em meio de tantas confusões conceptuais e do gargalhar do deboche, mesmo nas áreas onde deveria vigorar o legítimo e o são, a irrisão campeia, a loucura toma foros de destaque e se projeta na telas como nas pautas, nos palcos como na literatura, enrodilhando um incontável número de indivíduos em suas sombras.

Na hora torturante pela qual passam os homens da Terra encontramos grande leva de considerados artistas que, ignorando a sua missão de contribuir com a Obra do Criador, enleiam-se nos fios da vaidade e ao revés de prestarem homenagem à Vida Cósmica por meio da sua arte, poem-se como centros dessa arte, buscando o aplauso e a fama, a riqueza e os fogos-fátuos que brilham por pouco tempo, deixando trevas e amargores, lágrimas e frustrações nas almas dos desprevenidos comerciantes da Arte.

Se identificas em tuas possibilidades a Presença do Senhor a se fazer através de diversificada expressão artística, eleva-te, aprimora-te, ilumina-te, conquista-te e deixa-te a ti mesmo penetrar pelas vibrações dos seres Angélicos, que honram a Deus, espargindo amor e saúde pelo Universo, a fim de que, ao longo dos tempos, participes dos seus misteres.

Fazer arte, em verdade, é louvar a Deus alcandorando os seres da Humanidade.

Engaja-te nesse labor e deixa brilhar, também aí, a tua luz.

Camilo

(por José Raul Teixeira)