ESPIRITISMO E ARTE

“O Espiritismo irá depurar a arte que conhecemos e esta arte, depurada, será aquela inspirada nos ensinamentos da Doutrina Espírita”. (Espírito Rossini em Obras Póstumas)


4 – O ARTISTA ESPÍRITA: INSTRUÇÕES DA ESPIRITUALIDADE

 

O CONSOLADOR

Francisco C. Xavier pelo espírito Emmanuel

Capítulo II – Sentimento

ARTE

161 –Que é arte?

-A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma. O artista verdadeiro é sempre o “médium” das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas mais vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o Infinito e abrindo, em todos os caminhos a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, de sabedoria, de paz e de amor.

162 –Todo artista pode ser também um missionário de Deus?

-Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas cristalizações do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das idéias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhes é próprios, como a literatura, a música, a pintura, a plástica. Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e perecíveis, para considerar tão-somente a luz espiritual que vem do coração uníssono como cérebro, nas realizações da vida, então o artista é um dos mais devotados missionários de Deus, porquanto saberá penetrar os corações na paz da meditação e do silêncio, alcançando o mais alto sentido da evolução de si mesmo e de seus irmãos em humanidade.

163 –Pode alguém se fazer artista tão-só pela educação especializada em uma existência?

-A perfeição técnica, individual de um artista, bem como as suas mais notáveis características, não constituem a resultantes das atividades de uma vida, mas de experiências seculares na Terra e na esfera espiritual, porquanto o gênio, em qualquer sentido, nas manifestações artísticas mais diversas, é a síntese profunda de vidas numerosas, em que a perseverança e o esforço se casaram para as mais brilhantes florações da espontaneidade.

164 –Como devemos compreender o gênio?

– O gênio constitui a súmula dos mais longos esforços em múltiplas existências de abnegação e de trabalho, na conquista dos valores espirituais. Entendendo a vida pelo seu prisma real, muita vez desatende ao círculo estreito da vida terrestre, no que se refere às suas fórmulas convencionais e aos seus preconceitos, tornando-se um estranho ao seu próprio meio, por suas qualidades superiores e inconfundíveis. Esse é o motivo por que a ciência terrestre, encarcerada nos cânones do convencionalismo, presume observar no gênio uma psicose condenável, tratando-o, quase sempre, como a célula enferma do organismo social, para glorifica-lo, muitas vezes, depois da morte, tão logo possa aprender a grandeza da sua visão espiritual na paisagem do futuro.

165 –Como poderemos entender o psiquismo dos artistas, tão diferente do que caracteriza o homem comum?

– O artista, de um modo geral, vive quase sempre mais na esfera espiritual que propriamente no plano terrestre. Seu psiquismo é sempre a resultante do seu mundo íntimo, cheio de recordações infinitas das existências passadas, ou das visões sublimes que conseguiu apreender nos círculos de vida espiritual, antes da sua reencarnação no mundo.

Seus sentimentos e percepções transcendem aos do homem comum, pela sua riqueza de experiências no pretérito, situação essa que, por vezes, dá motivos à falsa apreciação da ciência humana, que lhe classifica os transportes como neurose ou anormalidade, nos seus erros de interpretação. É que, em vista da sua posição psíquica especial, o artista nunca cede às exigências do convencionalismo do planeta, mantendo-se acima dos preconceitos contemporâneos, salientando-se que, muita vez, na demasia de inconsiderações pela disciplina, apesar de suas qualidades superiores, pode entregar-se aos excessos nocivos à liberdade, quando mal dirigida ou falsamente aproveitada. Eis por que, em todas as situações, o ideal divino da fé será sempre o antídoto dos venenos morais, desobstruindo o caminho da alma para as conquistas elevadas da perfeição.

166 –No caso dos artistas que triunfaram sem qualquer amparo do mundo e se fizeram notáveis tão-só pelos valores da sua vocação, traduzem suas obras alguma recordação da vida no Infinito?

-As grandes obras-primas da arte, na maioria das vezes, significam a concretização dessas lembranças profundas. Todavia, nem sempre constituem um traço das belezas entrevistas no Além pela mentalidade que as concebeu, e sim recordações de existências anteriores, entre as lutas e as lágrimas da Terra.

Certos pintores notáveis, que se fizeram admirados por obras levadas a efeito sem os modelos humanos, trouxeram à luz nada mais nada menos que as suas próprias recordações perdidas no tempo, na sombra apagada da paisagem de vidas que se foram. Relativamente aos escritores, aos amigos da ficção literária, nem sempre as suas concepções obedecem à fantasia, porquanto são filhas de lembranças inatas, com as quais recompõem o drama vivido pela sua própria individualidade nos séculos mortos.

O mundo impressivo dos artistas tem permanentes relações com o passado espiritual, de onde os extraem o material necessário à construção espiritual de suas obras.

167 –O grandes músicos, quando compõem peças imortais, podem ser também influenciados por lembranças de uma existência anterior?

-Essa atuação pode verificar-se no que se refere às possibilidades e às tendências, mas, no capítulo da composição, os grandes músicos da Terra, com méritos universais, não obedecem a lembranças do pretérito, e sim a gloriosos impulsos das forças do Infinito, porquanto a música na Terra é, por excelência, a arte divina. As óperas imortais não nasceram do lodo terrestre, mas da profunda harmonia do Universo, cujos cânticos sublimes foram captados parcialmente pelos compositores do mundo, em momentos de santificada inspiração. Apenas desse modo podereis compreender a sagrada influência que a música nobre opera nas almas, arrebatando-as, em quaisquer ocasiões, às ideias indecisas da Terra, para as vibrações do íntimo com o Infinito.

168 –Os Espíritos desencarnados cuidam igualmente dos valores artísticos no plano invisível para os homens?

-Temos de convir que todas as expressões de arte na Terra representam traços de espiritualidade, muitas vezes estranhos à vida do planeta. Através dessa realidade, podereis reconhecer que a arte, em qualquer de suas formas puras, constitui objeto da atenção carinhosa dos invisíveis, com possibilidades outras que o artista do mundo está muito longe de imaginar. No Além, é com o seu concurso que se reformam os sentimentos mais impiedosos, predispondo as entidades infelizes às experiências expiatórias e purificadoras. E é crescendo nos seus domínios de perfeição e de beleza que a alma envolve para Deus, enriquecendo-se nas suas sublimes maravilhas.

169 –A emotividade deve ser disciplinada?

-Qualquer expressão emotiva deve ser disciplinada pela fé, porquanto a sua expansão livre, na base das incompreensões do mundo, pode fazer-se acompanhar de graves consequências.

170 –Com tantas qualidades superiores para o bem, pode o artista de gênio transformar-se em instrumento do mal?

-O homem genial é como a inteligência que houvesse atingido as mais perfeitas condições de técnica realizadora; essa aquisição, porém, não o exime da necessidade de progredir moralmente, iluminando a fonte do coração.

Em vista de numerosas organizações geniais, não haverem alcançado a culminância de sentimento é que temos contemplado, muitas vezes, no mundo, os talentos mais nobres encarcerados em tremendas obsessões, ou anulados em desvios dolorosos, porquanto, acima de todas as conquistas propriamente materiais, a criatura deve colocar a fé, como o eterno ideal divino.

171 –De modo geral, todos os homens terão de buscar os valores artísticos para a personalidade?

-Sim; através de suas vidas numerosas a alma humana buscará a aquisição desses patrimônios, porquanto é justo que as criaturas terrenas possam levar da sua escola de provações e de burilamento, que é o planeta, todas as experiências e valores, suscetíveis de serem encontrados nas lutas da esfera material.

172 –Existem, de fato, uma arte antiga e uma arte moderna?

-A arte envolve com os homens e, representando a contemplação espiritual de quantos a exteriorizam, será sempre a manifestação da beleza eterna, condicionada ao tempo e ao meio de seus expositores.

A arte, pois, será sempre uma só, na sua riqueza de motivos, dentro da espiritualidade infinita.

Ponderemos, contudo, que, se existe hoje grande número de talentos com a preocupação excessiva de originalidade, dando curso às expressões mais extravagantes de primitivismo, esses são os cortejadores irrequietos da glória mundana que, mais distanciados da arte legítima, nada mais conseguem que refletir a perturbação dos tempos que passam, apoiando o domínio transitório da futilidade e da força. Eles, porém. Passarão como passam todas as situações incertas de um cataclismo, como zangões da sagrada colméia da beleza divina, que, em vez de espiritualizarem a Natureza, buscam deprimi-la com as suas concepções extravagantes e doentias.

 

NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 30 – Últimas Páginas 

         Ante o Sol renascente, o campo terrestre brilhava em plena manhã clara. Mudos e expectantes, renteamos com um homem do campo manobrando a enxada na defesa do solo.

Áulus apontou-o com a destra e rompeu o silêncio, murmurando:

– Vejam! A mediunidade como instrumentação da vida surge em toda a parte. O lavrador é o médium da colheita, a planta é o médium da frutificação e a flor é o médium do perfume. Em todos os lugares, damos e recebemos, filtrando os recursos que nos cercam e moldando-lhes a manifestação, segundo as nossas possibilidades.

Avançávamos e, em breves momentos, víamo-nos defrontados por singela oficina de carpinteiro. Nosso orientador indicou o operário que aplainava enorme peça e observou:

– Possuímos no artífice o médium de preciosas utilidades. Da devoção com que se consagra ao trabalho, nasce elevada percentagem de reconforto à Civilização.

Não longe, surpreendemos pequena marmoraria, à porta da qual um jovem envergava o escopro, ferindo a pedra.

– Eis o escultor – disse Áulus –, o médium da obra-prima. A Arte é a mediunidade do Belo, em cujas realizações encontramos as sublimes visões do futuro que nos é reservado.

 

CADERNOS DE ARTE DA ABRARTE

A contribuição da arte espírita para a sociedade

A arte é a máxima possibilidade de expressão do espírito. Podemos aferir o nível de evolução humana, de uma época ou de uma civilização, através da arte, uma vez que esta é o materializar do conjunto de crenças (morais e espirituais) predominantes em uma sociedade. Isto explica, segundo Kardec, a decadência das artes na atualidade.

A decadência das artes, neste século, resultou inevitavelmente da concentração dos pensamentos sobre as coisas materiais, concentração essa que, a seu turno, é o resultado da ausência de toda crença, de toda fé na espiritualidade do ser.(Kardec,1977:157).

Temos, portanto, nas artes um termômetro do pensamento coletivo humano. Por outro lado o caminho inverso também é possível, ou seja, através das artes criar novos referenciais, novas idéias, realizar uma revelação divina. Emmanuel nos confirma essa possibilidade:

Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente, pelas cristalizações do    convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes missionários das ideias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da atividade que lhe é própria, como a literatura, a música, a pintura, a plástica. (Emmanuel,1980:101)

Nós espíritas sabemos que o espiritismo contribui para o progresso da humanidade na medida que destrói o materialismo, uma das chagas da sociedade, e faz o homem compreender que seus verdadeiros interesses residem na sua natureza espiritual, conforme questão 799 de O Livro dos Espíritos. Apresentar e fazer compreender esta realidade à sociedade não é um trabalho fácil, e, tão pouco rápido.

Muitas almas estão prontas para receber, em sua intimidade, as verdades universais apresentadas pelo espiritismo, mas, infelizmente, estas informações ainda não chegam a todos os que necessitam, estejam eles dentro de nossa cidade, estado ou outro país.

É necessário ter uma visão macro desse processo e tomar consciência que para implementar uma nova cultura (espiritual), na civilização, esta necessita ser trabalhada nas várias frentes da organização social e expressão humana, tais como: educação, religião, família, governo, mídias e artes. Neste contexto, podemos verificar a grande contribuição da arte espírita para a sociedade.         Através dela é possível apresentar as novas verdades, já reveladas aos homens, pelos prepostos de Deus. Estas verdades encontram-se sintetizadas nos princípios da Doutrina Espírita: Deus, Jesus (e sua mensagem), espírito, perispírito, evolução, livre arbítrio, causa e efeito, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados, imortalidade da alma, vida futura, plano espiritual, mediunidade, influência dos espíritos na nossa vida, ação dos espíritos na natureza.

Todos estes temas são inesgotáveis fontes de inspiração e pesquisa para o artista espírita e, logicamente, fontes de esperança e consolação para uma humanidade carente de valores superiores.

O artista embeleza o caminho da inteligência acordando o coração para as mensagens edificantes que o mundo encerra em seu conteúdo de espiritualidade. (Emmanuel, 2000:132)

O desafio da arte espírita, dentro do contexto social, será fazer da realidade atual o ponto de partida, e não o contrário, ponto de chegada. Explico melhor. Temos a tendência de “adequar” as belezas divinas e as verdades universais para dentro de clichês artísticos já conhecidos. Isso se dá devido a tradição cultural, repetindo velhas fórmulas ou técnicas, na pintura, na música, no teatro, na dança, etc. Com isso, acabamos engessando o novo dentro de uma arte do passado. Deveremos construir uma arte do presente para o futuro, quebrando “as algemas do passado”. Ao invés de criarmos um rock espírita, dançarmos um RAP espírita, encenarmos um drama espírita, que tal conduzir o expectador ao “êxtase supradimensional” através de um novo estilo musical, ao “vôo interior da alma” através de uma nova dança, ao “replanejamento de vida” através de uma nova forma de interpretar e interagir com o publico no teatro, ao “encontro consigo mesmo” através do simbólico de uma nova pintura? Tudo isso para possibilitar a mais perfeita expressão do belo, do são, do bom, do bem, do amor, da caridade, do perdão, da humildade, da simplicidade, etc, através das artes.

Quando nos possibilitamos este olhar fica mais fácil entender a expressão: “As artes não sairão do torpor em que jazem, senão por meio de uma reação no sentido das ideias espiritualistas.” (Kardec,1977:157)

A arte espírita é, para a sociedade, educadora: esclarece, ensina, distrai (distração sã), consola e ilumina. A arte espírita é descida dos planos superiores para nos conduzir até Deus. Ela deverá ser sempre instrumento de ascensão espiritual para a sociedade!

Cláudio Marins

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. Obras Póstumas (Euvres Posthumes). Tradução de Guillon Ribeiro. 16a ed. Rio de Janeiro: FEB, 1977.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos (LE LIVRE DES ESPRITS). Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2007.
XAVIER, Francisco Cândido (Médium) e EMMANUEL (Espírito). Fonte Viva. 24a ed. Brasília: FEB, 2000.
XAVIER, Francisco Cândido (Médium) e EMMANUEL (Espírito). O consolador. 8a ed. Rio de Janeiro: FEB, 1980.
UBALDI, Pietro. A Grande Síntese: Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito. Tradução de Mário Corboli.10a ed. São Paulo: Lake, 1976.
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte e na pintura em particular (DUSPIRITUAL DANS L’ART). Tradução de Álaro Cabral e Antonio de Pádua Danesi. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco, pelo espírito Vianna de Carvalho

 Psicologia da Arte

Questão 148

         O legítimo portador da beleza caracteriza-se pelo conteúdo da mensagem que expressa, enriquecendo a Humanidade com paz, com inspiração e engrandecimento moral, fazendo que, através da sua manifestação de arte, as pessoas se encontrem e confraternizem, respeitando-se umas às outras, sem os apelos às paixões perturbadoras que induzem à violência, ao sexo desvairado, aos tormentos que desgovernam as emoções com predominância das sensações.

O artista real é missionário de Deus como co-criador junto à Humanidade. A sua contribuição permanece edificando, mesmo quando ele morre, e não raro, pela qualidade e profundidade do conteúdo da sua inspiração, que antecipa o futuro, não é reconhecido como gênio, senão depois da morte.

Vianna de Carvalho


5 – SER ARTISTA ESPÍRITA: UMA AÇÃO DE EVANGELIZAÇÃO DA ALMA

CONDUTA ESPÍRITA

Waldo Vieira pelo espírito André Luiz

Capítulo 44

 Perante a Arte

Colaborar na cristianização da arte, sempre que se lhe apresentar ocasião.
A arte deve ser o Belo criando o Bom.
Repelir, sem crítica azeda, as expressões artísticas torturadas que exaltem a animalidade ou a extravagância.
O trabalho artístico que trai a Natureza nega a si próprio.
Burilar incansavelmente as obras artísticas de qualquer gênero.
Melhoria buscada, perfeição entrevista.
Preferir as composições artísticas de feitura espírita integral, preservando-se a pureza doutrinária.
A arte enobrecida estende o poder do amor.
Examinar com antecedência as apresentações artísticas para as reuniões festivas nos arraiais espíritas, dosando-as e localizando-as segundo as condições das assembleias a que se destinem.
A apresentação artística é como o ensinamento: deve observar condições e lugar.
“E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.”
Paulo. (Filipenses, capítulo 4, versículo 7.)

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco, pelo espírito Vianna de Carvalho

         Cada espírito vê e sente a Arte com as suas características e expressões evolutivas, porquanto, à medida que o ser progride, amplia a capacidade de perceber a beleza e senti-la nas suas várias expressões.

Essa forma de identificação muito pessoal, que é resultado da experiência individual, expressa-se na aptidão por uma ou por outra manifestação da Arte, bem como na maneira de traduzir o sentimento no instante da sua captação.

Colocando a sua maneira de entendimento e emoção cria o estilo, que se poderia chamar o legítimo autógrafo colocado naquilo que faz.

Vianna de Carvalho

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

Allan Kardec

Capítulo 13

 item 16

            (…)E todos vós que podeis produzir, dai. Dai vosso talento, vossas inspirações, vosso coração, que Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que sois lidos pelas pessoas da sociedade, satisfazei o gosto deles, mas que o produto de alguma de vossas obras seja consagrado ao consolo dos infelizes.

Pintores, escultores, artistas de todos os gêneros, que vossa inteligência também venha em ajuda dos vossos irmãos, não tereis por isso diminuído a vossa glória e tereis aliviado o sofrimento de muitos.


6 – A APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA – RELAÇÃO COM A PLATEIA NOS DOIS PLANOS DA VIDA

O LIVRO DOS MÉDIUNS

Allan Kardec

 Capítulo 14

Itens 169 e 170 

Assistimos certa noite à representação da ópera Oberon ao lado de um excelente médium vidente. Havia no salão grande número de lugares vazios, mas muitos estavam ocupados por Espíritos que pareciam acompanhar o espetáculo. Alguns se aproximavam de certos espectadores e pareciam escutar as suas conversas. No palco se passava outra cena: por trás dos atores muitos Espíritos joviais se divertiam em contracená-los, imitando-lhes os gestos de maneira grotesca.

Outros, mais sérios, pareciam inspirar os cantores, esforçando-se por lhes dar mais energia. Um desses mantinha-se junto a uma das principais cantoras. Julgamos as suas intenções um tanto levianas e o evocamos após o baixar da cortina. Atendeu-nos e reprovou com severidade o nosso julgamento temerário.

“Não sou o que pensas, — disse, — sou o seu guia, o seu Espírito protetor, cabe-me dirigi-la”.

Após alguns minutos de conversação bastante séria, deixou-nos dizendo:

“Adeus. Ela está no seu camarim e preciso velar por ela”.

Evocamos depois o Espírito de Weber, autor da ópera, e lhe perguntamos o que achava da representação.

“Não foi muito má, — respondeu, — mas fraca. Os atores cantam, eis tudo. Faltou inspiração. Espera, — acrescentou, — vou tentar insuflar-lhes um pouco do fogo sagrado”!

Vimo-lo então sobre o palco, pairando acima dos atores. Um eflúvio parecia se derramar dele para os intérpretes, espalhando-se sobre eles. Nesse momento verificou-se entre eles uma visível recrudescência da energia.

Eis outro fato que prova a influência dos espíritos sobre os homens, sem que estes o percebam.

Assistimos a uma representação teatral com outro médium. Conversando com um Espírito espectador, disse-nos ele: Estás vendo aquelas duas senhoras sozinhas num camarote de primeira?

Pois bem, vou me esforçar para tirá-las do salão. Dito isso, foi se colocar no camarote das senhoras e começou a falar-lhes. Súbito as duas, que estavam muito atentas ao espetáculo, se entreolharam, parecendo consultar-se e a seguir se foram, não voltando mais. O Espírito nos fez então um gesto gaiato, significando que cumprira a palavra. Mas não o pudemos rever para pedir-lhe maiores explicações.

Muitas vezes fomos assim testemunhas do papel que os Espíritos exercem entre os vivos.

Observamo-los em diversos lugares de reunião: em bailes, concertos, sermões, funerais, núpcias, etc., e em toda parte os encontramos atiçando as más paixões, insuflando a discórdia, excitando as rixas e regozijando-se com suas proezas. Outros, pelo contrário, combatem essa influência perniciosa, mas só raramente são ouvidos.

Allan Kardec


7 – A APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA – IRRADIAÇÃO DO BEM

MECANISMOS DA MEDIUNIDADE

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 4

Matéria Mental

         Emitindo uma ideia, passamos a refletir as que se lhe assemelham, ideia essa que para logo se corporifica, com intensidade correspondente à nossa insistência em sustentá-la, mantendo-nos, assim, espontaneamente em comunicação com todos os que nos esposem o modo de sentir.

É nessa projeção de forças, a determinarem o compulsório intercâmbio com todas as mentes encarnadas ou desencarnadas, que se nos movimenta o Espírito no mundo das formas-pensamentos, construções substanciais na esfera da alma, que nos liberam o passo ou no-lo escravizam, na pauta do bem ou do mal de nossa escolha. Isso acontece porque, à maneira do homem que constrói estradas para a sua própria expansão ou que talha algemas para si mesmo, a mente de cada um, pelas correntes de matéria mental que exterioriza, eleva-se a gradativa libertação no rumo dos planos superiores ou estaciona nos planos inferiores, como quem traça vasto labirinto aos próprios pés.

Capítulo 11

Onda Mental

         Recorrendo, ainda, a recursos igualmente incompletos, recordemos a televisão, cujos serviços se verificam à base de poderosos feixes eletrônicos devidamente controlados.

Nos transmissores dessa espécie, é imperioso conjugar a aparelhagem necessária à captação, transformação, irradiação e recepção dos sons e das imagens de modo simultâneo.

De igual maneira, até certo ponto, o pensamento, a formular-se em ondas, age de cérebro a cérebro, quanto a corrente de elétrons, de transmissor a receptor, em televisão.

Não desconhecemos que todo Espírito é fulcro gerador de vida onde se encontre.

E toda espécie de vida começa no impulso mental.

Sempre que pensamos, expressando o campo íntimo na ideação e na palavra, na atitude e no exemplo, criamos formas-pensamentos ou imagens-moldes que arrojamos para fora de nós, pela atmosfera psíquica que nos caracteriza a presença.

Sobre todos os que nos aceitem o modo de sentir e de ser, consciente ou inconscientemente, atuamos à maneira do hipnotizador sobre o hipnotizado, verificando-se o inverso, toda vez que aderimos ao modo de ser e de sentir dos outros.

Capítulo 12

Reflexo Condicionado

         (…) Uma conversação, essa ou aquela leitura, a contemplação de um quadro, a ideia voltada para certo assunto, um espetáculo artístico, uma visita efetuada ou recebida, um conselho ou uma opinião representam agentes de indução, que variam segundo a natureza que lhes é característica, com resultados tanto mais amplos quanto maior se nos faça a fixação mental ao redor deles.

 

A GÊNESE

Allan Kardec

Capítulo XIV – item 19

         Assim se explicam os efeitos que se produzem nos lugares de reunião. Uma assembleia é um foco de irradiação de pensamentos diversos. É como uma orquestra, um coro de pensamentos, onde cada um emite uma nota.

Resulta daí uma multiplicidade de correntes e de eflúvios fluídicos cuja impressão cada um recebe pelo sentido espiritual, como num coro musical cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

Mas, do mesmo modo que há radiações sonoras, harmoniosas ou dissonantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto é harmonioso, agradável é a impressão; penosa, se aquele é discordante. Ora, para isso, não se faz mister que o pensamento se exteriorize por palavras; quer ele se externe, quer não, a irradiação existe sempre.

Tal a causa da satisfação que se experimenta numa reunião simpática, animada de pensamentos bons e benévolos. Envolve-a uma como salubre atmosfera moral, onde se respira à vontade; sai-se reconfortado dali, porque impregnado de salutares eflúvios fluídicos. Basta, porém, que se lhe misturem alguns pensamentos maus, para produzirem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido, ou o de uma nota desafinada num concerto. Desse modo também se explica a ansiedade, o indefinível mal-estar que se experimenta numa reunião antipática, onde malévolos pensamentos provocam correntes de fluido nauseabundo.

NOS DOMINIOS DA MEDIUNIDADE

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 4

Ante o Serviço

         A mente, por isso, continua encarcerada nos interesses quase sempre inferiores do mundo, cristalizada e enfermiça em paisagens inquietantes, criadas por ela mesma. Daí o valor do culto religioso respeitável, formando ambiente propício à ascensão espiritual, com indiscutíveis vantagens, não só para os Espíritos encarnados que a ele assistem, com sinceridade e fervor, mas também para os desencarnados, que aspiram à própria transformação. Todos os santuários, em seus atos públicos, estão repletos de almas necessitadas que a eles comparecem, sem o veículo denso, sequiosas de reconforto.

Os expositores da boa palavra podem ser comparados a técnicos eletricistas, desligando “tomadas mentais”, através dos princípios libertadores que distribuem na esfera do pensamento.

Capítulo 13

Pensamento e Mediunidade

         Imaginar é criar.

E toda criação tem vida e movimento, ainda que ligeiros, impondo responsabilidade à consciência que a manifesta. E como a vida e o movimento se vinculam aos princípios de permuta, é indispensável analisar o que damos, a fim de ajuizar quanto àquilo que devamos receber.

(…)Nossos pensamentos geram nossos atos e nossos atos geram pensamentos nos outros.

Inspiremos simpatia e elevação, nobreza e bondade, junto de nós, para que não nos falte amanhã o precioso pão da alegria. Convicção de imortalidade, sem altura de espírito que lhe corresponda, será projeção de luz no deserto.

Capítulo 19

Dominação Telepática

         O pensamento exterioriza-se e projeta-se, formando imagens e sugestões que arremessa sobre os objetivos que se propõe atingir. Quando benigno e edificante, ajusta-se às Leis que nos regem, criando harmonia e felicidade, todavia, quando desequilibrado e deprimente, estabelece aflição e ruína. A química mental vive na base de todas as transformações, porque realmente evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles encarnados ou desencarnados que se afinam conosco.

 

AÇÃO E REAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 10

Entendimento

          (…) registrávamos o império da música, em sua majestade soberana, arrebatando-nos às mais sublimes emoções. Aqueles minutos valiam para nós como abençoada oração. Os lances da magnífica sinfonia como que nos elevavam a círculos harmoniosos de ignota beleza e todos trazíamos lágrimas abundantes, de vez que os encantadores acordes em movimento possuíam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente, os refolhos do ser.

Findas as notas derradeiras, despedimo-nos, maravilhados. Nossos pensamentos vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais fraternos.


8 –  AS RESPONSABILIDADES DE SER ARTISTA ESPÍRITA

LIBERTAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 17

Assistência Fraternal

         Fitei-o, vigilante, e notei-lhe o singular brilho dos olhos. Parecia alucinado, abatido. Com a expressão típica da loucura cronicificada, falou, aflito:

– Permite-me indagar?

– Perfeitamente – respondi surpreso.

– Que é o pensamento?

Não aguardava a pergunta que me era desfechada, mas, centralizando minha capacidade receptiva, no propósito de responder com acerto, elucidei como pude:

– O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.

– Ah! – fez o estranho cavalheiro, um tanto atormentado – a explicação significa que as nossas idéias exteriorizadas criam imagens, tão vivas quanto desejamos?

– Indiscutivelmente.

– Que fazer, então, para destruir nossas próprias obras, quando interferimos, erroneamente, na vida mental dos outros?

– Auxilie-nos a apreciar seu caso, contando-nos alguma coisa de sua experiência – pedi com interesse fraternal.

O interlocutor, provavelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa, expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo, com frases incisivas, quentes de sinceridade e dor:

– Fui homem de letras, mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia, estendendo minhas criações à mocidade de meus dias.

Não consegui posição de evidência, nos galarins da fama; entretanto, mais que eu poderia imaginar, impressionei, destrutivamente, muitas mentalidades juvenis, arrastando-as a perigosos pensamentos. Depois do meu decesso, sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis, que me não deixam em paz, e, enquanto isto ocorre, outras entidades me buscam, formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar.     Compreendi que me achava em ligação, desde a existência terrestre, com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações indesejáveis. No fundo, eu mantinha por mim mesmo, no próprio espírito, suficiente material de leviandade e malícia, que eles exploraram largamente, adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar, sem meu concurso ativo.

Acontece, porém, que abrindo meus olhos à verdade, na esfera em que hoje respiramos, em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas idéias que lhes infundi, na romagem carnal, certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior, como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. Assemelham-se a personalidades autônomas, se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam, gesticulam, acusam-me e riem-se de mim. Reconheço-as sem dificuldade.      São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Investem contra mim, apupam-me e vergastam-me o brio, como se fossem filhos rebelados contra um pai criminoso. Tenho vivido ao léu, qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender, porém, os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas idéias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco?

Havia nos ouvintes significativa expectação, não obstante a calma reinante.

O infeliz deixou de falar, titubeante. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo, apalermado e trêmulo à nossa vista. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e, correndo aos meus braços, bradou:

– Ei-lo! ei-lo que chega por dentro de mim… É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! Acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!…          Alçando a destra à garganta, denunciava, aflito:

– Serei assassinado! Socorro! socorro!…

Os demais companheiros perturbados e sofredores, ali presentes, alarmaram-se, desditosos.

Houve quem tentasse fugir, mas, com uma frase apenas, sustei o tumulto que se iniciava.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco pelo espírito Vianna de carvalho

Educação Artística.

Questão 142

 

A evolução do ser é abrangente, facultando-lhe experiências em várias áreas do conhecimento, do comportamento, da iluminação.

É comum, no entanto, ver-se o Espírito que se realizou em determinado campo de vivência, retornar na mesma atividade, de modo a ampliar o espaço das realizações, não somente plenificando-se, mas também favorecendo a Humanidade com a visão mais ampla e profunda em torno daquela conquista.

O artista, em particular, tende a voltar a reencarnar-se no círculo da beleza, mas, quase sempre em outro gênero de expressão, crescendo na forma de traduzir a grandeza e a majestade da Vida, que a sua sensibilidade capta com maior desenvoltura.

Assim, podemos identificar, por exemplo, Rafael Sanzio renascendo em Frederic Chopin, transformando cores em sons, mas permanecendo vinculado à harmonia.

Vianna de Carvalho

 

CADERNOS DE ARTE DA ABRARTE

A Responsabilidade do Artista Espírita

 

Estamos assistindo, neste momento, ao surgimento de muitos grupos e artistas em geral no meio espírita, tal como o alvorecer de uma nova era que se inicia para a arte espírita.

Concordamos com o médium Divaldo Pereira Franco quando diz que o século passado foi o da tecnologia e que o século que se iniciaria a partir do ano 2001 seria o século das artes e da espiritualidade.

Muito felizes somos por estarmos num tempo no qual cada vez mais pessoas abrem as mentes e os corações para as artes em geral, e pelo tanto que podemos fazer para envolvê-las neste ‘universo’ que é o da estética e da beleza, um dos atributos de Deus, concedendo a nós uma fração das suas virtudes para que possamos apreender e sentir a presença Dele em nós.

Mas diante de tantas possibilidades de realizações e tanta carência das pessoas em geral que buscam a arte como parte de suas realizações, na mesma medida daqueles que buscam o aprimoramento moral e intelectual, é imperioso não deixarmos de falar da responsabilidade do artista espírita no que diz respeito a sua postura ética e moral, social e técnica.

Do ponto de vista moral, que em filosofia significa conjunto de regras a serem seguidas, temos que considerar o artista espírita como aquele que procura seguir o código moral deixado pelo Cristo que é o Evangelho, unido ao que Allan Kardec classifica como sendo o verdadeiro espírita, aquele que se esforça na luta contra as suas más inclinações. O mestre de Lion tira-nos a responsabilidade de sermos seres superiores ou perfeitos e nos deixa o simples conselho de sermos imperfeitos, mas cumpridores fiéis ao dever moral.

A Ética, um dos principais ramos da Filosofia, é a investigadora do bom e do certo. É ela quem questiona se uma coisa é boa ou má, certa ou errada, etc. Enfim, podemos dizer, para efeito didático, que a ética é o questionamento da moral. Sendo assim o artista será ético quando ele observa e questiona o que é melhor para si, como padrão de conduta, e moral quando ele se enquadra naqueles padrões de conduta suficientes para que tenha um julgamento cada vez mais sadio, daquilo que sua inteligência concebe como beleza.

O mundo hoje está cheio de artistas frustrados e deprimidos, transmitindo os raios de suas inspirações sempre permeadas de concepções pessimistas a respeito do mundo. O artista espírita deve se alegrar por conhecer a realidade que descortina paulatinamente a sua frente e transmiti-la em forma de beleza e esperança aos que se encontram oprimidos e tristonhos com suas provações e dificuldades psicológicas.

Do ponto de vista social, aquele que se vale do seu estro e/ou da sua interpretação sente intuitivamente a necessidade de levar a todas as pessoas o objeto de suas ocupações, sem contar que este sentir é um chamado da consciência para não guardar para si o que foi feito para ser compartilhado com todos sem distinção.

Dentro do aspecto social, o ato da doação da renda financeira das atividades artísticas para instituições filantrópicas ou mesmo artísticas me parece uma questão saudável e natural, pois vivemos numa sociedade da qual pertencemos e ter uma função ativa nocrescimento dela é profundamente prazeroso e gratificante dentro do nosso sentimento de utilidade.

Por fim a técnica se nos apresenta como uma necessidade, mas o domínio completo dela não nos parece o fim para o qual deveríamos encaminhar os nossos esforços; assim observamos a técnica do ponto de vista de sua utilidade ao bom desenvolvimento daquilo que nos propomos a fazer. A pessoa que ama aquilo que faz busca com abnegação o seu aprimoramento a fim de transmitir com a maior perfeição possível a sua arte, mas a técnica está a serviço do artista e não o contrário.

Outro aspecto importante, sem a pretensão de encerrar o assunto sobre a postura do artista, é a finalidade, ou seja, qual é o objetivo do grupo ou de quem esteja disposto a iniciar um trabalho artístico. Muitas pessoas há no espiritismo, totalmente despreocupadas em ter qualquer tipo de finalidade com relação aos efeitos do seu trabalho, alegando serem livres e sem rótulos; ora, usar conceitos espíritas e levantar a bandeira de um movimento não pode limitar ninguém! Somos livres e a nossa maior liberdade está em nosso pensamento.

Embora estejamos ainda formando as bases estruturais da Arte Espírita, é preciso desde já trabalhar pelo aprimoramento dela; levar com força de convicção um projeto bem intencionado para que os bons espíritos, responsáveis pela evolução do planeta, encontrem em nós instrumentos capazes de transmitir aos seres aquilo que o materialismo não foi capaz de inspirar: o anseio de uma vida melhor e mais venturosa!

Dentro de tudo isso podemos dizer que uma boa obra ou apresentação pode divulgar, curar, revelar, ensinar, contagiar e emocionar! Todas as atividades no mundo capazes de influenciar positivamente um ser humano são dignas do amparo da espiritualidade maior; sendo a arte uma ciência elevada no mundo, quem não educa a sua sensibilidade através da auto-reflexão, estará se fechando às sublimes inspirações emanadas dos planos maiores, ou recebendo com imperfeição e imprecisão as concepções avançadas do progresso.

Enfim, beleza, bondade, sabedoria e inteligência são atributos que devemos buscar incessantemente, pois o artista do futuro terá em si a marca inconfundível da estética avançada e laureada de bondade, paz e sabedoria emocional. O artista do futuro não será mais o velho gênio perturbado e constrangido pelas suas deficiências.

Encerramos lembrando a célebre frase do Grande compositor desencarnado Rossini, em comunicação mediúnica anotada por Allan Kardec:

[…] O Espiritismo moralizando os homens, exercerá, pois, uma grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão suas virtudes fazendo ouvir as suas composições […]. Rir-se-á menos, chorar-se-á mais; a hilaridade dará lugar à emoção, a fealdade dará lugar à beleza, e o cômico à grandiosidade.

E mais adiante acrescenta o Maestro:

Oh, sim, o espiritismo terá influência sobre a música! Como isso seria de outro modo? Seu advento mudará a arte, depurando-a. Sua fonte é divina, sua força a conduzirá por toda parte onde haja homens para amar, para se elevar e para compreender. Tornar-se-á o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas, pedir-lhe-ão as suas inspirações, e ele as fornecerá, porque é rico, é inesgotável…

Bom, diante destas palavras só nos resta colocar a mão na massa e avançarmos dentro da fé e do trabalho que nos conduzirá a planos cada vez melhores.

Clayton Prado

 

Referências Bibliográficas

KARDEC, Allan. Obras Póstumas (OEuvres Posthumes). Trad. De Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 7a Ed. Araras-SP: IDE, 1999, Cap.IX, p.182.


10 – ARTE NO MUNDO ESPIRITUAL

 

NOSSO LAR

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 3

A Oração Coletiva

 

Mal não saíra da consoladora surpresa, divina melodia penetrou quarto adentro, parecendo suave colméia de sons a caminho das esferas superiores. Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração. Ante meu olhar indagador, o enfermeiro, que permanecia ao lado, esclareceu, bondoso:

__ É chegado o crepúsculo em “Nosso Lar”. Em todos os núcleos desta colônia de trabalho, consagrada ao Cristo, há ligação direta com as preces da Governadoria.

E enquanto a música embalsamava o ambiente, despediu-se,  atencioso:

__ ‘ ‘ __

         Aquela melodia renovava-me as energias profundas. Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia. Seguindo vacilante, cheguei a enorme salão, onde  numerosa assembleia meditava em silêncio, profundamente recolhida. Da abóbada cheia de claridade brilhante, pendiam delicadas e flóreas guirlandas, que vinham do teto à base, formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior.

Ninguém parecia dar conta da minha presença, ao passo que mal dissimulava eu a surpresa inexcedível. Todos os circunstantes, atentos, pareciam aguardar alguma coisa. Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente, notei que ao fundo, em tela gigantesca, desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica.

Obedecendo a processos adiantados de televisão, surgiu o cenário de templo maravilhoso.

__ ‘ ‘ __

         Mal terminara a explicação, as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino, repleto de indefinível beleza. A fisionomia de Clarêncio, no círculo dos veneráveis companheiros, figurou-se-me tocada de mais intensa luz. O cântico celeste constituía-se de notas angelicais, de sublimado reconhecimento. Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e, quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato, desenhou-se ao longe, em plano elevado, um coração maravilhosamente azul com estrias douradas. Cariciosa música, em seguida, respondia aos louvores, procedente talvez de esferas distantes.

Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós; mas, se fixávamos os miosótis celestiais, não conseguíamos detê-los nas mãos. As corolas minúsculas desfaziam-se de leve, ao tocar-nos a fronte, experimentando eu, por minha vez, singular renovação de energias ao contacto das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração.

 __ ‘ ‘ __

         Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfermo, amparado pelo amigo que me atendia de perto. Entretanto, não era mais o doente grave de horas antes. A primeira prece coletiva, em “Nosso Lar”, operara em mim completa transformação. Conforto inesperado envolvia-me a alma. Pela primeira vez, depois de anos consecutivos de sofrimento, o pobre coração, (Imagem simbólica formada pelas vibrações mentais dos habitantes da colônia. – (Nota do Autor espiritual) saudoso e atormentado, à maneira de cálice muito tempo vazio, enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança.

Capítulo 17

Em Casa de Lísias

         Ligado um grande aparelho, fez-se ouvir música suave. Era o louvor do momento crepuscular. Surgiu, ao fundo, o mesmo quadro prodigioso da Governadoria, que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes, no parque hospitalar. Naquele momento, porém, sentia-me dominado de   profunda e misteriosa alegria. E vendo o coração azul desenhado ao longe, senti que minh’alma se ajoelhava no templo interior, em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.

Capítulo 18

Amor, alimento das Almas

         Decorridos momentos, a senhora Laura falou sorridente:

– Todos vocês trabalharam muito hoje. Utilizaram o dia com proveito. Não estraguem o programa afetivo, por nossa causa. Não esqueçam a excursão ao Campo da Música. Notando a preocupação de Lísias, advertiu a alavra materna:

– Vai, meu filho. Não faças Lascínia esperar tanto. Nosso irmão ficará em minha companhia, até que te possa acompanhar nesses entretenimentos.

Capítulo 24

O Impressionante Apelo

         Ligado o receptor, suave melodia derramou-se no ambiente, embalando-nos em harmoniosa sonoridade, vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor, no gabinete de trabalho. Daí a instantes, começou ele a falar:

– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”. Continuamos a irradiar o apelo da colônia, em benefício da paz na Terra.

(…) Nesse ínterim, interrompia-se a música, voltando o locutor:

– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra. Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus  da  Europa.  Forças  tenebrosas  do Umbral penetram  em  todas  as  direções, respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem.

Capítulo 32

Notícias de Veneranda

         (…) Surgiram deliciosos recantos em toda parte. Os mais interessantes, todavia, a meu ver, são os que se instituíram nas escolas. Variam nas formas  e  dimensões.  Nos  parques  de  educação  do  Esclarecimento,  instalou  a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação, em forma de estrela, dentro do qual se abrigam cinco numerosas classes de aprendizados e cinco instrutores diferentes. No centro,  funciona  enorme  aparelho  destinado  a  demonstrações  pela  imagem,  à maneira  do  cinematógrafo  terrestre,  com  o  qual  é  possível  levar  a  efeito  cinco projeções variadas, simultaneamente. Essa iniciativa melhorou consideravelmente a cidade, unindo no mesmo esforço o serviço proveitoso à utilidade prática e à beleza espiritual.

(…) Esse  salão  é  nota  de  júbilo  para  os  nossos Ministérios. Talvez já saiba que o Governador aqui vem, quase que semanalmente, aos  domingos.  Ali  permanece  longas  horas,  conferenciando  com  os  Ministros  da Regeneração,  conversando  com  os  trabalhadores,  oferecendo  sugestões  valiosas, examinando nossas vizinhanças com o Umbral, recebendo nossos  votos e  visitas, e confortando  enfermos  convalescentes.  À  noitinha,  quando  pode  demorar-se,  ouve música  e  assiste  a  números  de  arte,  executados  por  jovens  e  crianças  dos  nossos educandários. A maioria dos forasteiros, que se hospedam em “Nosso Lar”, costuma vir  até  aqui  só  no  propósito  de  conhecer  esse  “palácio  natural”,  que  acomoda confortavelmente mais de trinta mil pessoas.

Capítulo 42

A Palavra do Governador

         Tive a impressão de que toda a vida social do nosso Ministério convergiu para o grande salão natural, desde o raiar de domingo, quando verdadeiras caravanas de  todos  os  departamentos  regeneradores  chegavam  ao  local.  O  Grande  Coro  do Templo  da  Governadoria,  aliando­se  aos  meninos  cantores  das  escolas  do Esclarecimento,  iniciou  a  festividade  com  o  maravilhoso  hino  intitulado  “Sempre Contigo,  Senhor  Jesus”,  cantado  por  duas  mil  vozes  ao  mesmo  tempo.  Outras melodias  de  beleza  singular  encheram  a  amplidão.  O  murmúrio  doce  do  vento, canalizado em vagas de perfume, parecia responder às harmonias suaves.

Havia permissão geral de ingresso ao  enorme recinto verde, para todos os servidores  da  Regeneração,  porque,  conforme  o  programa  estabelecido,  o  culto evangélico era dedicado especialmente a eles, comparecendo os demais Ministérios, por numerosas delegações.

Pela  primeira  vez,  tive  à  frente  dos  olhos  alguns  cooperadores  dos Ministérios da Elevação  e  União Divina, que me pareceram vestidos em  brilhantes claridades.

A  festividade  excedia  a  tudo  que  eu  pudesse  sonhar  em  beleza  e deslumbramento. Instrumentos musicais de sublime poder vibratório embalavam de melodias a paisagem odorante.

Às dez horas, chegou o Governador acompanhado pelos doze Ministros da Regeneração.

Nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço; a ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e  justo.  Alto,  magro,  envergando  uma  túnica  muito  alva,  olhos  penetrantes  e maravilhosamente lúcidos, apoiava-se num bordão, embora caminhasse com aprumo juvenil.

Satisfazendo-me a curiosidade, Salústio informou:

–  O  Governador  sempre  estimou  as  atitudes  patriarcais,  considerando  que se deve administrar com amor paterno. Sentando-se  ele  na  tribuna  suprema,  levantaram-se  as  vozes  infantis, seguidas de harpas caridosas, entoando o hino “A Ti, Senhor, Nossas Vidas”.

O velhinho enérgico e amorável passeou o olhar pela assembleia compacta, constituída de  milhares  de  assistentes. Em  seguida, abriu  um  livro  luminoso  que  o companheiro me informou ser o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Folheou-o atento e, depois, leu em voz pausada:

–  “E  ouvíreis  falar  de  guerras  e  de  rumores  de  guerras;  olhai,  não  vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.” – Palavras do Mestre em Mateus, capítulo 24, versículo 6.

Volume  de  voz  consideravelmente  aumentado  pelas  vibrações  elétricas,  o chefe  da  cidade  orou  comovidamente,  invocando  as  bênçãos  do  Cristo,  saudando, em seguida, os representantes da União Divina, da Elevação, do Esclarecimento, da Comunicação  e  do  Auxílio,  dirigindo-se,  com  especial  atenção,  a  todos  os colaboradores dos trabalhos de nosso Ministério.

__ ‘ ‘ __

         (…) Comovido e deslumbrado, ouvi as crianças entoarem o hino que a Ministra Veneranda  intitulara  “A  Grande  Jerusalém”.  O  Governador  desceu  da  tribuna  sob vibrações de imensa esperança e foi então que brisas cariciosas começaram a soprar sobre  as  árvores,  trazendo,  talvez  de  muito  longe,  pétalas  de  rosas  diferentes,  em maravilhoso azul, que se desfaziam, de leve, ao tocar nossas frontes, enchendo-nos o coração de intenso júbilo.

Capítulo 45

No Campo da Música

         À tardinha, Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música.

– É preciso distrair-se um pouco, André! – disse ele, gentil.

Vendo-me relutante, acentuou:

– Falarei a Tobias. A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso. Vamos!

(…) Despedindo-nos, a dona da casa me abraçou e falou, bem-humorada:

– Então, doravante, a cidade terá mais um frequentador para o Campo da Música! Tome cuidado com o coração!… Quanto a mim, ainda ficarei hoje em casa. Vingar-me-ei de vocês, porém, muito breve! Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!…

(…) Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música. Luzes de indescritível beleza banhavam extenso parque, onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas. Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes: um espetáculo absolutamente novo para mim.

(…) Nesse momento, atingimos a faixa de entrada, onde Lísias pagou gentilmente o ingresso.

Notei, ali mesmo, grande grupo de passeantes, em torno de gracioso coreto, onde um corpo   orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira. Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente, dando acesso ao interior do parque, em várias direções. Observando minha admiração pelas canções que se ouviam, o companheiro explicou:

– Nas extremidades do Campo, temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime; mas, no centro, temos a música universal e divina, a arte santificada, por excelência.

Com efeito, depois de atravessarmos alamedas risonhas, onde cada flor parecia possuir seu reinado particular, comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu. Na Terra, há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional. Ali, contudo, verificava-se o contrário. O centro do campo estava repleto. Eu havia presenciado numerosas agregações de gente, na colônia, extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador, mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então.

(…) Não era luxo, nem excesso de qualquer natureza, o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso. Era a expressão natural de tudo, a simplicidade confundida com a beleza, a arte pura e a vida sem artifícios. O elemento feminino aparecia na paisagem, revelando extremo apuro de gosto individual, sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina. Grandes árvores, diferentes das que se conhecem na Terra, guarnecem belos recintos, iluminados e acolhedores

Grandemente maravilhado com a música sublime, ouvi Lísias dizer:

– Nossos orientadores, em harmonia, absorvem raios de inspiração nos planos mais altos e os grandes compositores terrestres são, por vezes, trazidos às esferas como a nossa, onde recebem

algumas expressões melódicas, transmitindo-as, por sua vez, aos ouvidos humanos, adornando os temas recebidos com o gênio que possuem. O Universo, André, está cheio de beleza e sublimidade.

O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus.

Capítulo 48

Culto Familiar

         Fez-se grande quietude e Clarêncio disse comovedora e singela prece. Em seguida, Lísias se fez ouvir na cítara harmoniosa, enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento. Logo após, Clarêncio tomou novamente a palavra:

(…) Observei, então, com surpresa, que as filhas e a neta da senhora Laura, acompanhadas de Lísias, abandonavam o estrado, tomando posição junto dos instrumentos musicais. Judite, Iolanda e Lísias se encarregaram, respectivamente, do piano, da harpa e da cítara, ao lado de Teresa e Eloísa, que integravam o gracioso coro familiar.

As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se, cariciosa e divina, semelhante a gorjeio celeste. Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento, quando vozes argentinas embalaram o interior. Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção, composta por eles mesmos.

(…) Às derradeiras notas da bela composição, notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso-acinzentada, apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura. Era Ricardo. Impossível descrever a sagrada emoção da família, dirigindo-lhe amorosas saudações.

O recém-chegado, após falar particularmente à companheira e aos filhos, fixou o olhar amigo em nós outros, pedindo fosse repetida a suave canção filial, que ouviu banhado em lágrimas. Quando se calaram as últimas notas, falou comovidamente:

– Oh! Meus filhos, como é grande a bondade de Jesus, que nos aureolou o culto  doméstico do  Evangelho com  as  supremas  alegrias  desta  noite!

OS MENSAGEIROS

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 

Capítulo 16

No Posto de Socorro

 

De varanda extensa e nobre, onde as colunatas se enfeitavam de hera florida, muito diferente, porém, da que conhecemos na Terra, penetramos em vasto salão mobiliado ao gosto mais antigo.

Os móveis delicadamente esculturados formavam conjunto encantador. Admirado, fixei as paredes, de onde pendiam quadros maravilhosos. Um deles, contudo, impunha-me especial atenção.

Era uma tela enorme, representando o martírio de São Dinis, o Apóstolo das Gálias rudemente supliciado nos primeiros tempos do Cristianismo, segundo meus humildes conhecimentos de História. Intrigado, recordei que vira, na Terra, um quadro absolutamente igual àquele. Não se tratava de um famoso trabalho de Bonnat, célebre pintor francês dos últimos tempos? A cópia do Posto de Socorro, todavia, era muito mais bela. A lenda popular estava lindamente expressa nos mínimos detalhes. O glorioso Apóstolo, seminu, com a cabeça decepada, tronco aureolado de intensa luz, fazia um esforço supremo por levantar o próprio crânio que lhe rolara aos pés, enquanto os assassinos o contemplavam, tomados de intenso horror; do alto, via-se descer um emissário divino, trazendo ao Servo do Senhor a coroa e a palma da vitória. Havia, porém, naquela cópia, profunda luminosidade, como se cada pincelada contivesse movimento e vida.

Observando-me a admiração, Alfredo falou, sorrindo:

– Quantos nos visitam, pela primeira vez, estimam a contemplação desta cópia soberba.

– Ah! sim – retruquei –, o original, segundo estou informado, pode ser visto no Panteão de Paris.

– Engana-se – elucidou o meu gentil interlocutor –, nem todos os quadros, como nem todas as grandes composições artísticas, são originariamente da Terra. É certo que devemos muitas criações sublimes à cerebração humana; mas, neste caso, o assunto é mais transcendente. Temos aqui a história real dessa tela magnífica. Foi idealizada e executada por nobre artista cristão, numa cidade espiritual muito ligada à França. Em fins do século passado, embora estivesse retido no círculo carnal, o grande pintor de Bayonne visitou essa colônia em noite de excelsa inspiração, que ele, humanamente, poderia classificar de maravilhoso sonho. Desde o minuto em que viu a tela, Florentino Bonnat não descansou enquanto não a reproduziu, palidamente, em desenho que ficou célebre no mundo inteiro. As cópias terrestres, todavia, não têm essa pureza de linhas e luzes, e nem mesmo a reprodução sob nossos olhos tem a beleza imponente do original, que já tive a felicidade de contemplar de perto, quando organizávamos, aqui no Posto, homenagens singelas para a honrosa visita que nos fez o grande servo do Cristo. Para movimentar as providências necessárias, visitei pessoalmente a cidade espiritual a que me referi.

Grande espanto apossara-se-me do coração. Via, agora, explicada a tortura santa dos grandes artistas, divinamente inspirados na criação de obras imortais; agora, reconhecia que toda arte elevada é sublime na Terra, porque traduz visões gloriosas do homem na luz dos planos superiores.

Parecendo interessado em completar meus pensamentos, Alfredo considerou:

– O gênio construtivo expressa superioridade espiritual com livre trânsito entre as fontes sublimes da vida. Ninguém cria sem ver, ouvir ou sentir, e os artistas de superior mentalidade costumam ver, ouvir e sentir as realizações mais altas do caminho para Deus.

 

Capítulo 31

Cecília ao Órgão

         Conversávamos, animadamente, quando Alfredo nos convidou para o Salão de Música.

Houve geral contentamento. A senhora Bacelar, dando o braço à nobre Ismália, parecia encantada com a lembrança.

Dirigimo-nos para o grande recinto, prodigiosamente iluminado por luzes de um azul doce e brilhante. Deliciosa música embalava-nos a alma. Observei, então, que um coro de pequenos músicos executava harmoniosa peça, ladeando um grande órgão, algo diferente dos que conhecemos na Terra. Oitenta crianças, meninos e meninas, surgiam, ali, num quadro vivo, encantador.

Cinqüenta tangiam instrumentos de corda e trinta conservavam-se, graciosamente, em posição de canto.. Executavam, com maravilhosa perfeição, uma linda barcarola que eu nunca ouvira no mundo.

Comovidíssimo, ouvi o administrador explicar:

– As crianças do Posto são as nossas flores vivas. Dão-nos perfume, encantamento, alegria, suavizando-nos todos os trabalhos.

Abeiramo-nos do órgão, sentando-nos todos em confortáveis poltronas.

Quando as crianças terminaram, sob aplausos calorosos, Ismália pediu a Cecília executasse alguma coisa.

– Eu? – disse a jovem, corando – se a senhora vem das altas esferas, onde a harmonia é santificada e pura, como poderei executar para os seus ouvidos?

– Não diga isso, Cecília – tornou, sorridente, a generosa esposa do administrador –, a música elevada é sublime em toda parte. Vá, minha filha! lembre-me o lar terreno nos dias mais belos!…

E, antes que a jovem Bacelar perguntasse qual a peça preferida, Ismália continuou:

– Os serviços musicais do Posto levam-me a recordar a velha Fazenda, quando voltava do Internato… Meus pais estimavam as composições européias e, quase todas as noites, ensaiava ao piano…

E, fixando em Cecília os olhos úmidos e brilhantes, rematou:

– Sua mamãe deve lembrar comigo a música predileta de meu velho e carinhoso pai…

Notei que a senhora Bacelar disse alguma coisa à filha, em voz baixa, e vimos Cecília caminhar para o grande instrumento, sem hesitação. Com emoção indizível, ouvimo-la executar, magistralmente, a ‘Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Bach, acompanhada pelas crianças exultantes.

Fixei o rosto de Ismália, notando, pela luz do seu olhar, que seus pensamentos vagueavam longe, talvez em torno do antigo ninho doméstico. Vi-a enxugar as lágrimas discretas e abraçar Cecília carinhosamente, ao findar a execução.

– Agora, Cecília, cante alguma canção da própria alma! – falou a nobre senhora com ternuras de mãe – mostre-nos seu coração…

Os senhores Bacelar estavam satisfeitos e emocionados. Lia se-lhes nos gestos o carinho com que acompanhavam os menores movimentos da filha.

A jovem sorriu, voltou ao teclado, mas permanecia, agora, fundamente transfigurada. Seu belo semblante parecia refletir alguma luz diferente, que vinha de mais alto. Começou a cantar, de maneira misteriosa e comovedora. A música parecia sair-lhe das profundezas do coração, mergulhando-nos em sublime emotividade. Procurei guardar as palavras da maravilhosa canção, mas seria impossível repeti-las integralmente, no círculo dos encarnados na Terra. A sombra da meia-noite não poderia traduzir o revérbero da aurora. Mas de algo me lembro, para registrar aqui, com a fidelidade de que é suscetível minha memória imperfeita.

Como se fora rodeada de claridades diversas daquela em que nos banhávamos, Cecília cantou com voz veludosa e cariciante:

“Guardei para os teus olhos
As estrelas brilhantes do céu calmo…
Guardei para tua alma
Todos os lírios puros dos caminhos!…
Amado meu, amado meu,
Como é longa a viagem entre escolhos
Neste oceano imenso da saudade,
Ao sublime luar da eternidade!…
Em vão, a fada Esperança
Acende a luz dentro de mim…
Porque te foste ao mundo, assim?
Volta, amado!
Ainda mesmo
Que as tuas mãos estejam frias
E que teus pés sangrem de dor.
Trago comigo o bálsamo, a ternura,
Volta a mim,
Vem respirar, de novo, no jardim
Da Imortal união!…
Curarei tuas chagas de amargura,
Dar-te-ei o roteiro para a estrada,
Amarei os que amas,
Para que me abençoes com o teu sorriso.
Volta, amado!
Esquece a dor e a sombra do passado,
Volta, de novo, ao nosso paraíso!…”

         Quando desferiu as últimas notas, vi-lhe o semblante lavado em lágrimas, como se fora banhado em pérolas de luz. Observei que a senhora Bacelar, muitíssimo comovida, tocou de leve a mão de Ismália, e falou:
– Cecília nunca o esquece.

A esposa do administrador, mostrando-se extremamente sensibilizada, indagou:

– Não têm vocês novas notícias de Hermínio?

– O pobrezinho tem vivido de queda em queda – esclareceu a nobre interlocutora – e Cecília sabe que não poderá contar com ele, por muito tempo ainda, guardando, por esse motivo, muita mágoa íntima. Entretanto, nossa filha não desanima e trabalha, incessantemente, cheia de esperança.

Nesse momento, porém, a jovem regressava ao círculo familiar, enxugando os olhos.

A esposa de Alfredo abraçou-a e falou:

– Minhas felicitações! não sabia que você progredira tanto na arte divina! E que bela canção!…

Cecília fez um gesto de timidez, beijou a mão da carinhosa amiga e retrucou:

– Perdoe-me, querida Ismália, meu coração permanece ainda muito ligado à Terra!…

Capítulo 32

Melodia Sublime

         Num gesto nobre, Aniceto pediu a Ismália que executasse algum motivo musical de sua elevada esfera.

A esposa de Alfredo não se fez rogada. Com extrema bondade, sentou-se ao órgão, falando, gentil:

– Ofereço a melodia ao nosso caro Aniceto.

E, ante nossa admiração comovida, começou a tocar maravilhosamente. Logo às primeiras notas, alguma coisa me arrebatava ao sublime. Estávamos extasiados, silenciosos. A melodia, tecida em misteriosa beleza, inundava-nos o espírito em torrentes de harmonia divina. Penetrava-me o coração um campo de vibrações suavíssimas, quando fui surpreendido por percepções absolutamente inesperadas. Com assombro indefinível, reparei que a esposa de Alfredo não cantava, mas no seio caricioso da música havia uma prece que atingia o sublime – oração que eu não escutava com os ouvidos mas recebia em cheio na alma, através de vibrações sutis, como se o melodioso som estivesse impregnado do verbo silencioso e criador. As notas de louvor alcançavam-me o âmago do espírito, arrancando-me lágrimas de intraduzível emotividade:

“O Senhor Supremo de Todos os Mundos
E de Todos os Seres,
Recebe, Senhor,
O nosso agradecimento
De filhos devedores do teu amor!
Dá-nos tua bênção.
Ampara-nos a esperança,
Ajuda-nos o ideal
Na estrada Imensa da vida…
Seja para o teu coração,
Cada dia,
Nosso primeiro pensamento de amor!
Seja para tua bondade
Nossa alegria de viver!…
Pai de amor infinito
Dá-nos tua mão generosa e santa.
Longo é o caminho.
Grande o nosso débito,
Mas inesgotável é a nossa esperança.
Pai Amado,
Somos as tuas criaturas,
Raios divinos
De tua Divina inteligência.
Ensina-nos a descobrir
Os tesouros imensos
Que guardaste
Nas profundezas de nossa vida,
Auxilia-nos a acender
A lâmpada sublime
Da Sublime Procura!
Senhor,
Caminhamos contigo
Na eternidade!…
Em Ti nos movemos para sempre.
Abençoa-nos a senda,
Indica-nos a Sagrada Realização.
E que a glória eterna
Seja em teu eterno trono!…
Resplandeça contigo a Infinita Luz,
Mane em teu coração misericordioso
A Soberana Fonte do Amor,
Cante em tua Criação Infinita
O sopro divino da eternidade.
Seja a tua bênção
Claridade aos nossos olhos,
Harmonia ao nosso ouvido,
Movimento às nossas mãos,
Impulso aos nossos pés.
No amor sublime da Terra e dos Céus!…
Na beleza de todas as vidas,
Na progressão de todas as coisas,
Na voz de todos os seres,
Glorificado sejas para sempre,
Senhor.”

         Que melodia era aquela que se ouvia através de sons inarticulados? Não pude conter as lágrimas abundantes. Cecília comovera-nos a sensibilidade. lembrando as harmonias terrenas e os afetos humanos. Ismália, no entanto, arrebatava-nos o Espírito, elevando-nos ao Supremo Pai.       Nunca ouvira oração de louvor como aquela! Além disso, a esposa de Alfredo glorificava o Senhor de maneira diferente, inexprimível na linguagem humana. A prece tocara-me as recônditas fibras do coração e reconhecia que nunca meditara na grandeza divina, como naquele instante em que uma alma santificada falava de Deus, com a maravilha de suas riquezas espirituais.

E não era só eu a chorar como criança. Aniceto enxugava os olhos, de maneira discreta, e algumas senhoras levavam o lenço ao rosto.

Compreendi que a oração terminara, porque a música mudou de expressão. O caráter heróico cedeu lugar a lirismo encantador.

Experimentando a profunda serenidade ambiente, vi que luzes prodigiosas jorravam do Alto sobre a fronte de Ismália, envolvendo-a num arco irisado de efeito magnético e, com admiração e enlevo, observei que belas flores azuis partiam do coração da musicista, espalhando-se sobre nós. Desfaziam-se como se feitas de caridosa bruma anilada, ao tocar-nos, de leve, enchendo-nos de profunda alegria. A maior parte caía sobre Aniceto, fazendo-nos recordar as palavras amigas da dedicatória. Impressionavam-me profundamente aquelas corolas fluídicas, de sublime azul-celeste, multiplicando-se, sem cessar, no ambiente, e penetrando-nos o coração como pétalas constituídas apenas de colorido perfume.

Sentia-me tão alegre, experimentava tamanho bom ânimo que não conseguiria traduzir as emoções do momento.

Mais alguns minutos e Ismália terminou a magistral melodia.

A esposa do administrador desceu até nós, coroada de intensa luz. Alfredo avançou, beijando-a no rosto, ao mesmo tempo que Aniceto lhe estendia a destra, agradecido.

– Há muito tempo não ouvia músicas tão sublimes como as desta noite – exclamou nosso orientador, sorrindo. Cecília falou-nos do sublime amor terrestre, Ismália arrebatou-nos ao divino amor celestial. Idéia feliz a de permanecermos no Posto! Fomos igualmente socorridos pela luz da amizade, que nos revigorou o bom ânimo!

MISSIONÁRIOS DA LUZ

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 10

Materialização

Notando a perturbação vibratória do ambiente, em vista da atitude desaconselhável dos companheiros encarnados, disse Calimério ao controlador mediúnico:

– Alencar, é necessário extinguir o conflito de vibrações. Nossos amigos ignoram ainda como auxiliar-nos, harmonicamente, através das emissões mentais. É mais razoável se abstenham da concentração por agora.   Diga-lhes que cantem ou façam música de outra natureza. Procure distrair-lhes a atenção deseducada.

Alencar, porém, que se encontrava sob preocupações fortes, diante das múltiplas obrigações que deveria desempenhar no momento, pediu a colaboração de Alexandre, que se colocou à disposição dele, imediatamente:

– André – falou o meu orientador, em tom grave –, improvisemos a garganta ectoplásmica. Não podemos perder tempo.

E, identificando-me a inexperiência, acrescentou:

– Não precisa inquietar-se. Bastará ajudar-me na mentalização das minúcias anatômicas do aparelho vocal.

Estava aturdido, mas o instrutor considerou:

– A força nervosa do médium é matéria plástica e profundamente sensível às nossas criações mentais. Logo após. Alexandre tomou pequena quantidade daqueles eflúvios leitosos, que se exteriorizavam particularmente através da boca, narinas e ouvidos do aparelho mediúnico, e, como se guardasse nas mãos reduzida quantidade de gesso fluido, começou a manipulá-lo, dando-me a impressão de estar completamente alheio ao ambiente, pensando, com absoluto domínio de si mesmo, sobre a criação do momento.

Aos poucos, vi formar-se, sob meus olhos atônitos, um delicado aparelho de fonação. No íntimo do esqueleto cartilaginoso, esculturado com perfeição na matéria ectoplásmica, organizavam-se os fios tenuíssimos das cordas vocais, elásticas e completas na fenda glótica e, em seguida, Alexandre experimentava emitir alguns sons, movimentando as cartilagens aritenóides.

Formara-se, ao influxo mental e sob a ação técnica de meu orientador, uma garganta irrepreensível.

Com assombro, verifiquei que através do pequeno aparelho improvisado e com a cooperação dos sons de vozes humanas, guardados na sala, nossa voz era integralmente percebida por todos os encarnados presentes.

Parecendo-me satisfeito com o êxito de seu trabalho, Alexandre falou pela garganta artificial, como quem utilizava um instrumento vocal humano:

– Meus amigos, a paz de Jesus seja convosco! Ajudem-nos, cantando! Façam música e evitem a concentração!…

Fez-se música no ambiente e vi que o Irmão Alencar, depois de ligar-se profundamente à organização mediúnica, tomava forma, ali mesmo, ao lado da médium, sustentada por Calimério e assistida por numerosos trabalhadores.

Aos poucos, valendo-se da força nervosa exteriorizada e de vários materiais fluídicos, extraídos no interior da casa, aliados a recursos da Natureza, Alencar surgiu aos olhos dos encarnados, perfeitamente materializado.

OBREIROS DA VIDA ETERNA

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 1

Convite ao Bem

         Breves minutos decorreram e penetramos, por nossa vez, o recinto radioso.

Vagavam no ar suaves melodias, precedendo a palavra orientadora. Flores perfumosas, ornamentando o ambiente, embalsamavam a nave ampla.

Alguns instantes agradabilíssimos de espera e o emissário apareceu na tribuna simples, magnificamente iluminada. Era um ancião de porte respeitável, cujos cabelos lhe teciam uma coroa de neve luminosa. De seus olhos calmos, esplendidamente lúcidos, irradiavam-se forças simpáticas que de súbito nos dominaram os corações. Depois de estender sobre nós a mão amiga, num gesto de quem abençoa, ouviu-se o coro do templo entoando o hino “Glória aos Servos Fiéis”:

(…) Transcorridos alguns momentos de meditação, Metelo fez exibir num grande globo de substância leitosa, situado na parte central do templo, vários quadros vivos do seu campo de ação nas zonas inferiores. Tratava-se da fotografia animada, com apresentação de todos os sons e minúcias anatômicas inerentes às cenas observadas por ele, em seu ministério de bondade cristã.

Capítulo 10

Fogo Purificador

         Vasta dose de paciência era despendida por todos nós, para conter a multidão furiosa. Impressionavam-nos as formas monstruosas e miseráveis a se arrastarem vestidas de sombra, quando começaram a chegar entidades aureoladas de luz. Trajavam farrapos e traziam comovedores sinais de sofrimento. Dando a perceber que desejavam isolar a mente das centenas de revoltados que ali se congregavam em ativo movimento de insurreição, contemplavam o Alto e cantavam hinos de reverência ao Senhor, em regozijo da própria renovação, cânticos esses abafados pela algaravia dos rebeldes agitados.

Reparava, pela expressão de quantos luminados se aproximavam de nós, que se esforçavam por manter o pensamento alheio às objurgatórias dos maus, temendo talvez o interesse mental pelo que emitiam, circunstância criadora de novos laços magnéticos favoráveis à dominação dos verdugos. Intentavam, por isso, alimentar o máximo desprendimento dos apodos que lhes eram lançados pela turba malévola e impenitente.

Formavam agrupamentos de formosura singular. Sublimes quadros de paraíso, no inferno de atrozes padecimentos! Vinham, de mãos entrelaçadas, como a permutar energias, a fim de que se lhes aumentasse a força para a salvação, no minuto supremo da batalha que mantinham, talvez, desde muito antes. E esse processo de troca instintiva dos valores magnéticos infundia-lhes prodigiosa renovação de poder, porquanto levitavam, sobrepondo-se ao desvairado ajuntamento. Emolduravam-lhes a fronte belos círculos de luz, com brilho mais ou menos uniforme. Enquanto os tipos de semblante sinistro lhes dirigiam insultos, elas cantavam hosanas ao Cristo, entoando louvores, que, de certo, lembravam os júbilos dos primeiros cristãos, perseguidos e flagelados nos circos, quando se retiravam sob os apupos de espectadores perversos.

NO MUNDO MAIOR, ANDRÉ LUIZ POR FRANCISCO XAVIER

Capítulo 3

A casa Mental

Inquestionavelmente, vivíamos todos em intenso trabalho, com escassas horas reservadas a excursões de entretenimento; demais, fruíamos ambiente de felicidade e alegria a favorecer-nos a marcha evolutiva. Nossos templos constituíam, por si sós, abençoados núcleos de conforto e de revigoramento. Nas associações culturais e artísticas encontrávamos a continuidade da existência terrestre, enriquecida, porém, de múltiplos elementos educativos.

O campo social regurgitava de oportunidades maravilhosas para a aquisição de inestimáveis afeições. Os lares, em que situávamos o serviço diuturno, erguiam-se entre jardins encantadores, quais ninhos tépidos e venturosos em frondes perfumadas e tranquilas.

Capítulo 15

Apelo Cristão

Eusébio, ao terminar, estava aureolado de prodigiosas emissões de luz.

A assembléia prosternada mostrava semblantes lívidos de estupefação.

Enorme grupo de colaboradores de nosso plano elevou a voz em harmonias, entoando comovente cântico de glorificação ao Supremo Senhor.

As melodiosas notas do hino perdiam-se, ao longe, no arvoredo distante, nas asas de suave brisa…

Capítulo 20

No Lar de Cipriana

Cipriana, assumindo a direção da prece, fez-se acompanhar pelos colaboradores diretos que a seguiam no momento.

De alma genuflexa, vi-a de olhos erguidos para o alto, de onde jorrava intensa luz sobre a sua fronte… Do tórax, do cérebro e das mãos brotavam radiosas emissões de força divina, das quais ela se constituía visível intermediária para nós todos.

Alcançados pelos fulgurantes raios que fluíam de esfera superior através de sua personalidade sublime, sentíamo-nos embalados por indizível suavidade…

Harmonioso coro de uma centena de vozes bem afinadas cantou inolvidável hino de louvor ao Supremo Pai, arrancando-me copiosas lágrimas.

LIBERTAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 3

Entendimento

A essa altura da instrutiva conversação, chegamos a gracioso templo.

Nesse doce recanto consagrado à materialização de entidades sublimes, a luz suave da noite calma como que se fazia mais bela.

As vibrações constantes das preces, aí emitidas por vários séculos, tinham criado em torno da edificação prodigioso clima de encantamento.

Melodia celeste derramava-se à surdina e as flores delicadas do átrio pareciam corresponder aos sons cristalinos, variando no brilho e na cor, quase que imperceptivelmente.

(…) Não houve tempo para conversações prévias.

Em seguida a saudações ligeiras e cordiais, foi composto o conjunto de oração.

Os doadores de energia radiante, médiuns de materialização em nosso plano, se alinhavam, não longe, em número de vinte.

Comovedora partitura soou, argentina e leve, em aposento próximo, predispondo-nos à meditação de ordem superior.

Capítulo 4

Numa Cidade Estranha

Música exótica fazia-se ouvir não distante e Gúbio rogou-nos prudência e humildade em favor do êxito no trabalho a desdobrar-se.

Reerguemo-nos e avançamos.

Fizera-se-nos tardio o passo e nossa movimentação difícil.

Capítulo 5

Operações Seletivas

Varando, agora, o recinto, os lictores passaram o instrumento simbólico às mãos e alinharam-se, corretos, perante a tribuna espaçosa, sobre a qual resplandecia alarmante facho de luz.

Os julgadores, por sua vez, desceram, pomposos, dos tronos içados e tomaram assento numa espécie de nicho a salientar-se de cima, inspirando silêncio e temor, porque a turba inconsciente, em redor, calou-se de súbito.

Tambores variados rufaram, como se estivéssemos numa parada militar em grande estilo, e uma composição musical semi-selvagem acompanhou-lhes o ritmo, torturando-nos a sensibilidade.

Terminado aquele ruído, um dos julgadores se levantou e dirigiu-se à massa, aproximadamente nestes termos:

– “Nem lágrimas, nem lamentos. (…)

Capítulo 17

Assistência Fraternal

         Fitei-o, vigilante, e notei-lhe o singular brilho dos olhos. Parecia alucinado, abatido. Com a expressão típica da loucura cronicificada, falou, aflito:

– Permite-me indagar?

– Perfeitamente – respondi surpreso.

– Que é o pensamento?

Não aguardava a pergunta que me era desfechada, mas, centralizando minha capacidade receptiva, no propósito de responder com acerto, elucidei como pude:

– O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.

– Ah! – fez o estranho cavalheiro, um tanto atormentado – a explicação significa que as nossas idéias exteriorizadas criam imagens, tão vivas quanto desejamos?

– Indiscutivelmente.

– Que fazer, então, para destruir nossas próprias obras, quando interferimos, erroneamente, na vida mental dos outros?

– Auxilie-nos a apreciar seu caso, contando-nos alguma coisa de sua experiência – pedi com interesse fraternal.

O interlocutor, provavelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa, expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo, com frases incisivas, quentes de sinceridade e dor:

– Fui homem de letras, mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia, estendendo minhas criações à mocidade de meus dias.

Não consegui posição de evidência, nos galarins da fama; entretanto, mais que eu poderia imaginar, impressionei, destrutivamente, muitas mentalidades juvenis, arrastando-as a perigosos pensamentos. Depois do meu decesso, sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis, que me não deixam em paz, e, enquanto isto ocorre, outras entidades me buscam, formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar.     Compreendi que me achava em ligação, desde a existência terrestre, com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações indesejáveis. No fundo, eu mantinha por mim mesmo, no próprio espírito, suficiente material de leviandade e malícia, que eles exploraram largamente, adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar, sem meu concurso ativo.

Acontece, porém, que abrindo meus olhos à verdade, na esfera em que hoje respiramos, em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas idéias que lhes infundi, na romagem carnal, certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior, como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. Assemelham-se a personalidades autônomas, se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam, gesticulam, acusam-me e riem-se de mim. Reconheço-as sem dificuldade.      São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Investem contra mim, apupam-me e vergastam-me o brio, como se fossem filhos rebelados contra um pai criminoso. Tenho vivido ao léu, qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender, porém, os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas idéias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco?

Havia nos ouvintes significativa expectação, não obstante a calma reinante.

O infeliz deixou de falar, titubeante. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo, apalermado e trêmulo à nossa vista. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e, correndo aos meus braços, bradou:

– Ei-lo! ei-lo que chega por dentro de mim… É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! Acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!…          Alçando a destra à garganta, denunciava, aflito:

– Serei assassinado! Socorro! socorro!…

Os demais companheiros perturbados e sofredores, ali presentes, alarmaram-se, desditosos.

Houve quem tentasse fugir, mas, com uma frase apenas, sustei o tumulto que se iniciava.

Capítulo 20

Reencontro

         Doce intervalo mostrou-nos o júbilo reinante.

Salutar otimismo transbordava de todos os rostos.

Saldanha, de olhos fitos em nosso dirigente, confundia-nos pelo pranto de contrição purificadora, a correr-lhe, abundante, dos olhos.

Antes que o nosso instrutor pudesse retomar o fio da palavra encorajadora e vigilante, algumas irmãs entoaram formoso hino de louvor à bondade do Cristo, com visível desassombro no olhar firme, dantes ansioso e dorido, enchendo-nos o coração de intraduzível bem-estar.

Raios de safirina luz derramaram-se profusamente sobre nós, enquanto as vozes harmoniosas e singelas se espalhavam, em derredor, tangendo-nos as fibras mais recônditas, nos recessos do ser.

Terminado o cântico melodioso e tocante que nos recordava os pensamentos sublimes de inolvidável Salmo de David 7, o instrutor retomou a palavra e informou que, não obstante as santificadas alegrias daquela hora, a batalha não estava finda.

Faltava-nos o epílogo, esclareceu com inflexão mais grave na voz.

 

ENTRE A TERRA E O CÉU

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 

Capítulo 9

No Lar da Benção

 

Clarêncio movimentou a destra, indicando-nos o quadro sublime a desdobrar-se sob a nossa vista.

Doce melodia que enorme conjunto de meninos acompanhava, cantando um hino delicado de exaltação do amor materno, vibrava no ar.

Aqui e ali, sob tufos de vegetação verde-clara, muitas senhoras sustentavam lindas crianças nos braços.

– É o Lar da Bênção – informou o instrutor, satisfeito. – Nesta hora, muitas irmãs da Terra chegam em visita a filhinhos desencarnados. Temos aqui importante colônia educativa, misto de escola de mães e domicílio dos pequeninos que regressam da esfera carnal.

O Ministro, porém, interrompeu-se, de improviso.

Nossas companheiras pareciam agora tomadas de jubilosa aflição.

Vimo-las desgarrar, de inopino, qual se fossem atraídas por forças irresistíveis, precipitando-se para os anjinhos que cantarolavam alegremente. Enquanto a que nos era menos conhecida enlaçava louro petiz, com infinito contentamento a expressar-se em lágrimas, dona Antonina abraçou um pequeno de formoso semblante, gritando, feliz:

– Marcos! Marcos!…

– Mãezinha! Mãezinha!… – respondeu a criança, colando-se-lhe ao peito.

 

AÇÃO E REAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 10

Entendimento

         (…) registrávamos o império da música, em sua majestade soberana, arrebatando-nos às mais sublimes emoções. Aqueles minutos valiam para nós como abençoada oração. Os lances da magnífica sinfonia como que nos elevavam a círculos harmoniosos de ignota beleza e todos trazíamos lágrimas abundantes, de vez que os encantadores acordes em movimento possuíam a faculdade de lavar-nos, miraculosamente, os refolhos do ser.

Findas as notas derradeiras, despedimo-nos, maravilhados. Nossos pensamentos vibravam em sintonia mais pura, e os nossos corações pareciam mais fraternos.

Capítulo 20

Comovente Surpresa

         No largo estrado, em que se destacava a direção, Druso aparecia, ladeado pelo Instrutor Arando, a quem passaria o governo do estabelecimento, e pela esposa querida, aquela que lhe ofertara no mundo os sonhos doces do primeiro matrimônio, cujos olhos serenos exprimiam irradiante bondade.

Outros benfeitores, incluindo o nosso caro Silas, ali também se encontravam, atenciosos e emocionados.

Na multidão dos ouvintes, estávamos nós, renteando com os assessores e funcionários do grande hospital-escola, ao pé de mais de trezentos internados.

Todos os enfermos, abrigados e servidores vinham trazer a Druso preciosos testemunhos de reconhecimento.

As manifestações comovedoras multiplicavam-se, incessantes.

Enquanto música leve nascia de instrumentos ocultos, espalhando-se em surdina, todos os doentes, em fila movimentada, queriam dizer uma palavra ao abnegado Instrutor que os acolhera, generoso.

 

SEXO E DESTINO

Francisco C. Xavier e Waldo Vieira pelo espírito André Luiz

 Parte I

Capítulo 10

         De olhos parados, como se buscasse, além, no espaço infinito, o colo agasalhante que o tempo arrebatara, assumiu nova posição, colocando a cabeça da jovem no próprio regaço e, emocionando-se até às lágrimas, qual se tivesse nos lábios aqueles lábios de mãe, humilde e enferma, que jamais esqueceria, Aracélia, em pranto resignado, cantou suavemente diante de nós:

Lindo anjo de meus passos,
Descansa, meu doce bem;
Dorme, dorme nos meus braços,
Enquanto a noite não vem.
Dorme, filhinha querida;
Não chores, encanto meu;
Dorme, dorme, minha vida,
Tesouro que Deus me deu…

         Qual se fora repentinamente magnetizada, Marita caiu em pesado sono

E A VIDA CONTINUA

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

 Capítulo 7

Informações de Alzira

         – Não se aflijam. Vocês conhecerão tudo a seu tempo. A cidade é linda. Uma espécie de vale de edifícios, como que talhados em jade, cristal e lápis-lazúli. Arquitetura original, praças encantadoras recamadas de jardins. Creiam vocês que caminhei, fascinada, de rua em rua. O irmão Nicomedes, pois assim se chama o dono da casa, acolheu-nos com muita gentileza. Apresentou-me a filha Corina, uma bela jovem, com quem para logo simpatizei.

Íntima de uma das amigas que eu seguia e com a qual entraria em combinação sobre assuntos de serviço, salientou a alegria festiva do lar, falando-nos de esperados júbilos domésticos. Mostrou-nos os lustres novos, as telas e os vasos soberbos… Tudo seguia num crescendo de doces surpresas para mim, quando surgiu a bomba…

Achávamo-nos no terraço, admirando um canteiro de jasmins suspensos, quando ouvimos o “Sonho de Amor”, de Liszt, tocado ao piano. Corina informou-nos de que o pai dedilhava o instrumento com grande mestria. Enterneci-me de tal modo que manifestei o desejo de ouvi-lo, mais de perto. A nossa anfitriã conduziu-nos, de imediato, à sala de música. E foi um deslumbramento.

O irmão Nicomedes, absorto, revelava-se num mundo de alegrias profundas, que se lhe irradiavam da vida interior, em forma, de melodias, das notáveis melodias que se sucediam umas às outras.


11 – A TRANSIÇÃO PLANETÁRIA E OS ARTISTAS

MEMÓRIAS DE UM SUICIDA

Yvonne A. Pereira pelo espírito Camilo Cândido Botelho

 

Segunda Parte

Capítulo 6

 

Surpreendidos, verificamos haver ingressado em recinto que se afigurava à nossa apreciação como legítimo cenáculo de Arte, recanto sedutor, se assim nos podemos referir a um atelier de artistas eméritos, onde mestres das artes plásticas exerciam sublimes encargos, cônscios das responsabilidades de que os investia a ação da Divina Providência.

 

Terceira Parte

Capitulo 3

 

Aprendíamos, ainda!

Progredíamos em conhecimentos obtendo, nas citadas reuniões, noções de Arte Clássica Transcendental, de que eram dignos expoentes não apenas nossos mestres, como outros que caridosamente nos visitavam, e até nossas vigilantes, que ensaiavam com eles nova modalidade de servir a Deus e à Criação, isto é, utilizando-se do Belo, empregando a Beleza!… pois convém acentuar que nossos mestres, em sendo cientistas, também se revelavam estetas, enamorados da Suprema Beleza que se origina do Sempiterno Artista!

 

Terceira Parte

Capitulo 4

 

Os dias consagrados a tais exames eram festivos para todo o Burgo da Esperança. Legítimos certamens de uma Arte Sagrada – a do Bem -, o encanto que de tais reuniões se destacava ultrapassava todas as concepções de beleza que antes poderíamos ter! Esforçavam-se as vigilantes na decoração dos ambientes, na qual entravam jogos e efeitos de luzes transcendentes indescritíveis em linguagem humana, enquanto luminares de nossa Colônia, como Teócrito, Ramiro de Guzman e Aníbal de Silas se revelavam artistas portadores de dons superiores, quer na literatura como na música e oratória descritiva, isto é, na exposição mental, através de imagens, das produções próprias.

De outras esferas vizinhas desciam caravanas fraternas a emprestarem brilho artístico e confortativo às nossas experimentações. Nomes que na Terra se pronunciam com respeito e admiração acorriam bondosamente a reanimar-nos para o progresso, ativando em nossos corações humílimos o desejo de prosseguir nas pelejas promissoras. Não faltaram mesmo em tais assembleias o estimulo genial de vultos como Victor Hugo e Fréderic Chopin, este último considerado suicida na Pátria Espiritual, dado o descaso com que se ativera relativamente à própria saúde corporal; ambos, como muitos outros, cujos nomes surpreenderiam igualmente o leitor, exprimiam a magia dos seus pensamentos, dilatados pelas aquisições de longo período na Espiritualidade, através de criações intraduzíveis para as apreciações humanas do momento!

Tivemos, assim, ocasião de ouvir o grande compositor que viveu na Terra mais de uma experiência carnal, sempre consagrando à Arte ou às Belas-Letras as suas melhores energias mentais, traduzir sua música em imagens e narrações, numa variedade atordoadora de temas, enquanto que o gênio de Hugo mostrava em lições inapreciáveis de beleza e instrução a realidade mental de suas criações literárias!

 

DEVASSANDO O INVISÍVEL

Yvonne A. Pereira

Capítulo 3

Frederico Chopin, na Espiritualidade

 

(…) Interessa-se profundamente pela Doutrina dos Espíritos, pois confessa que, em suas existências passadas, não chegou a se dedicar fielmente a nenhum credo religioso, não obstante estivesse convencida da ideia de Deus, da imortalidade da alma e da eternidade e imutabilidade das leis divinas. Sua religião tem sido, através dos milênios, as Artes, pois afirma ter vivido em várias épocas sobre a Terra, sempre como artista  destacado. Ele serviu mesmo, como gênio inesquecível, as Belas Artes, a Arquitetura, a Pintura e finalmente a Música, que parece ser o ponto culminante das Artes em nosso planeta, o ápice da sensibilidade que um gênio da Arte pode galgar no estado de encarnação.

No momento, porém, podemos afirmar, convincentemente, graças a um convívio assíduo e fecundo com beneméritos amigos invisíveis, que os nobres artistas do passado, exceção feita de alguns poucos, se encontram reunidos na Pátria Espiritual, onde progridem e se habilitam para. em ocasião oportuna, voltarem em falanges brilhantes, a fim de viverem nas sociedades terrenas servindo à Arte, a qual, então, alcançará um inconcebível fastígio, como ao Amor, a que não serviram ainda, pois eles próprios têm feito tais confissões sempre que lhes é permitido confabular com os médiuns. Confessam, outrossim, o grande desgosto que os acompanha quando reconhecem que, no estado de encarnação, arrebatados pela Arte, esqueceram os caminhos luminosos conducentes à redenção espiritual, o que nos leva à conclusão de que a Arte, por si só, não redime ou santifica o artista. Ele necessitará, além dela, do cultivo do amor a Deus e ao próximo, da excelência de uma fé inquebrantável nos princípios divinos, pois a lei que do Todo-Poderoso emanou, para orientar o trajeto evolutivo das criaturas, não foi diferente para os artistas.

(…) Asseverounos que sabia ser ele muito amado pelos brasileiros, o que particularmente o enternece. Mas observa que ninguém lhe dirige uma prece, e que necessita desse estímulo para as futuras tarefas que empreenderá, ao reencarnar, quando pretende servir a Deus e ao próximo, o que nunca fêz através da música. Declarou que, salvo resoluções posteriores, pretende reencarnar no Brasil, país que futuramente muito auxiliará o triunfo moral das criaturas necessitadas de progresso, mas que tal acontecimento só se verificará do ano de 2000 em diante, quando descerá à Terra brilhante falange com o compromisso de levantar, moralizar e sublimar as Artes. Não poderá precisar a época exata. Só sabe que será depois do ano de 2000, e que a dita falange será como que capitaneada por Vítor Hugo, Espírito experiente e orientador (a quem se acha ligado por afinidades espirituais seculares), capaz de executar missões dessa natureza

(…) Ainda na mesma oportunidade, afirmou o instrutor espiritual Charles que Frederico Chopin seria a reencarnação do poeta romano Ovídio, que viveu cerca de quarenta anos antes do Cristo, falecido no ano 16 da nossa era, e do pintor itAllano Rafael Sanzio, pois que o intelectual, o artista, na sua evolução pelo roteiro do Saber, dentro da Arte, há de passar por todas as suas facetas, sublimando-se até à comunhão com o Divino.

(…) que vêm à Terra quando o desejam, e por uma especial solidariedade para com os humanos, a fim de estimularem entre estes o amor pelo Belo, pois que esse atributo, o Belo, é tão necessário às almas em progresso quanto o Amor, visto tratar-se também de um dos atributos do próprio Criador de Todas as Coisas, e que, sendo o Universo uma expressão da Beleza Divina, e sendo o homem destinado a se tornar a imagem e a semelhança de Deus, deverá igualmente comungar com o Belo, a fim de poder compreender o Universo e com ele vibrar em toda a sua arrebatadora, feérica e harmoniosa beleza.

 

TRANSIÇÃO PLANETÁRIA

Divaldo Franco pelo espírito manoel Philomeno de Miranda

 

Capítulo 01

Novos Rumos

 

Nesse ínterim, suave musicalidade chegou-nos aos ouvidos, oriunda do santuário próximo onde se ensaiavam as partituras da Missa em si menor, de Johann Sebastian Bach, originalmente composta para orquestra, mas ali apresentada em órgão magistralmente dedilhado com o coral infantil de nossa comunidade…

Experimentamos a sensação de que, naquele momento, os Céus comunicavam-se com nossa Colônia

Realmente, essa ocorrência tinha lugar, porque o edifício reservado às celebrações do amor e da fé religiosa encontrava-se iluminado com tonalidades prateadas e azuis suaves. Particularmente chamou-se a atenção o movimento das ondas sonoras, que obedeciam ao ritmo suave e doce do órgão e das vozes infantis.

Quase extasiado, ia falar ao amigo Oscar, quando lhe percebi chorando discretamente.

 

Capítulo 3

A Mensagem-Revelação

 

A semelhança das ondas oceânicas a abraçarem as praias voluptuosamente, sorvendo as rendas de espumas alvas, os novos obreiros do Senhor se sucederão ininterruptamente alterando os hábitos sociais, os costumes morais, a literatura e a arte, o conhecimento em geral, ciência e tecnologia, imprimindo novos textos de beleza que despertarão o interesse mesmo daqueles que, momentaneamente, encontram-se adormecidos.

 

Capítulo 15

Experiências Iluminativas

 

Em nossa esfera de ação espiritual, por exemplo, as paisagens são ricas de tonaldiade incomparáveis, nasceres e pores-do-sol portadores de luzes em tons indefiníveis, jardins e nascentes de água cristalina, em jorros intermináveis, flores em festões multicoloridos e perfumes suaves e penetrantes, educandários e teatros para formação  intelecto-moral, hospitais e sanatórios modelares, que deverão inspirar as futuras construções terrestres conforme já vem acontecendo, galerias de arte em todos os gêneros, em que nobres artistas aprimoram a capacidade de registro para tornarem a Terra um planeta paradisíaco.

 

Capítulo 16

Programações Reencarnatórias

 

Ciladas habilmente organizadas, estereótipos do prazer e estímulos vulgares às sensações passaram a ser inspirados aos multiplicadores de opinião dos grandes veículos da mídia, de modo a perturbar a marcha do progresso, ampliando a área dos desmandos de toda ordem, especialmente a que diz respeito aos gozos servis e de fácil acesso.

Conclaves insidiosos organizados pelos inimigos do Bem, nas furnas em que se homiziavam, estabeleceram metas de vingança, utilizando-se da política sórdida a que se entregam muitos dos seus membros, ora reencarnados nessa área, como nas religiões, nas artes e noutros setores sociais, a fim de que chafurdem no lodaçal do caos moral, em estímulo negativo aos comportamentos saudáveis, fazendo campear o descrédito, o desrespeito às leis e aos deveres, na volúpia de acumula: recursos que não são transferidos com a desencarnação, mas entorpecem os significados elevados da existência espiritual.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco pelo espírito Vianna de carvalho

 

Tópico 9.1

Questão 204

 

A fim de que se expressem novas formas de comportamento em todas as áreas do progresso humano, a Divindade faz com que reencarnem na Terra os grandes Missionários, a fim de darem cumprimento a esses objetivos elevados.

Neste crepúsculo de milênio e quase amanhecer de uma Nova Era, já se encontram em processos de renascimento orgânico os Missionários da beleza, qul tem sucedido em todos os períodos passados, trazendo programas de rara sensibilidade e emoção, promovendo as variadas expressões da Cultura, da Ciência e da Arte.

 

VOZES DO INFINITO

Raul Teixeira por diversos espíritos

 

A MISSÃO DA ARTE

 

A Arte é das mais profundas formas de expressão que o Espírito pode encontrar sobre a Terra.

Quando penetrada por ideais de excelência, cabe à Arte o labor de cooperar no desenvolvimento da estesia nas criaturas de Deus.

Assim, o artista é alguém dotado dessas sutis percepções, tendo possibilidades, muitas vezes, de captar a vibração superior da Vida, as ondas luminosas de esferas cerúleas e apresentar aos homens o produto de sua filtragem.

O artista imbuído da Arte que se agita nos painéis do Cosmo, quando segue fiel aos preceitos do equilíbrio da realização do bem, não poucas vezes se faz intérprete de fulgurantes mensagens, depositário que se torna dos fulgores estelares.

Cooperador de Deus, cabe ao artista desenvolver ou colaborar para que se desenvolvam nos seres humanos os sentimentos do belo, do inefável, do indefinível.

Não é por outra causa que deparamos com artistas de níveis variados, atendendo aos Programas da Divindade nos patamares mais diversos pelo mundo.

Dos tambores rústicos da selva aos violinos apaixonados e rútilos concertos, vemos a Presença de Deus.

Do totem dos prístimos dias da tribo, às esculturas de Miguel Ângelo, na Europa, percebemos a Presença de Deus.

Das evocações do vozerio rítmico dos polinésios às mais formidáveis sinfônicas do mundo, sentimos a Presença de Deus, conduzindo Seus filhos ao amadurecimento estético, aos voos mais altos da sensibilidade, a fim de que O compreendam, gradativamente, na fileira evolutiva.

Não podemos ignorar, contudo, que aparecem aqui e ali, em muitos lugares, e mesmo que luxuriam em vários locais no mundo, almas infernizadas em si mesmas, marcadas pelos institntos rebaixados do crime, possuidores de pulsões anímicas aberrantes, que se mostram como artistas, impondo aos despreparados e incautos as suas alucinações íntimas as quais nomeiam como arte.

No momento em que vive a Humanidade em meio de tantas confusões conceptuais e do gargalhar do deboche, mesmo nas áreas onde deveria vigorar o legítimo e o são, a irrisão campeia, a loucura toma foros de destaque e se projeta na telas como nas pautas, nos palcos como na literatura, enrodilhando um incontável número de indivíduos em suas sombras.

Na hora torturante pela qual passam os homens da Terra encontramos grande leva de considerados artistas que, ignorando a sua missão de contribuir com a Obra do Criador, enleiam-se nos fios da vaidade e ao revés de prestarem homenagem à Vida Cósmica por meio da sua arte, poem-se como centros dessa arte, buscando o aplauso e a fama, a riqueza e os fogos-fátuos que brilham por pouco tempo, deixando trevas e amargores, lágrimas e frustrações nas almas dos desprevenidos comerciantes da Arte.

Se identificas em tuas possibilidades a Presença do Senhor a se fazer através de diversificada expressão artística, eleva-te, aprimora-te, ilumina-te, conquista-te e deixa-te a ti mesmo penetrar pelas vibrações dos seres Angélicos, que honram a Deus, espargindo amor e saúde pelo Universo, a fim de que, ao longo dos tempos, participes dos seus misteres.

Fazer arte, em verdade, é louvar a Deus alcandorando os seres da Humanidade.

Engaja-te nesse labor e deixa brilhar, também aí, a tua luz.

Camilo

(por José Raul Teixeira)