ESPIRITISMO E ARTE

“O Espiritismo irá depurar a arte que conhecemos e esta arte, depurada, será aquela inspirada nos ensinamentos da Doutrina Espírita”. (Espírito Rossini em Obras Póstumas)

8 –  AS RESPONSABILIDADES DE SER ARTISTA ESPÍRITA

LIBERTAÇÃO

Francisco C. Xavier pelo espírito André Luiz

Capítulo 17

Assistência Fraternal

         Fitei-o, vigilante, e notei-lhe o singular brilho dos olhos. Parecia alucinado, abatido. Com a expressão típica da loucura cronicificada, falou, aflito:

– Permite-me indagar?

– Perfeitamente – respondi surpreso.

– Que é o pensamento?

Não aguardava a pergunta que me era desfechada, mas, centralizando minha capacidade receptiva, no propósito de responder com acerto, elucidei como pude:

– O pensamento é, sem dúvida, força criadora de nossa própria alma e, por isto mesmo, é a continuação de nós mesmos. Através dele, atuamos no meio em que vivemos e agimos, estabelecendo o padrão de nossa influência, no bem ou no mal.

– Ah! – fez o estranho cavalheiro, um tanto atormentado – a explicação significa que as nossas idéias exteriorizadas criam imagens, tão vivas quanto desejamos?

– Indiscutivelmente.

– Que fazer, então, para destruir nossas próprias obras, quando interferimos, erroneamente, na vida mental dos outros?

– Auxilie-nos a apreciar seu caso, contando-nos alguma coisa de sua experiência – pedi com interesse fraternal.

O interlocutor, provavelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa, expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo, com frases incisivas, quentes de sinceridade e dor:

– Fui homem de letras, mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia, estendendo minhas criações à mocidade de meus dias.

Não consegui posição de evidência, nos galarins da fama; entretanto, mais que eu poderia imaginar, impressionei, destrutivamente, muitas mentalidades juvenis, arrastando-as a perigosos pensamentos. Depois do meu decesso, sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis, que me não deixam em paz, e, enquanto isto ocorre, outras entidades me buscam, formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar.     Compreendi que me achava em ligação, desde a existência terrestre, com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações indesejáveis. No fundo, eu mantinha por mim mesmo, no próprio espírito, suficiente material de leviandade e malícia, que eles exploraram largamente, adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar, sem meu concurso ativo.

Acontece, porém, que abrindo meus olhos à verdade, na esfera em que hoje respiramos, em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas idéias que lhes infundi, na romagem carnal, certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior, como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. Assemelham-se a personalidades autônomas, se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam, gesticulam, acusam-me e riem-se de mim. Reconheço-as sem dificuldade.      São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Investem contra mim, apupam-me e vergastam-me o brio, como se fossem filhos rebelados contra um pai criminoso. Tenho vivido ao léu, qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender, porém, os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas idéias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco?

Havia nos ouvintes significativa expectação, não obstante a calma reinante.

O infeliz deixou de falar, titubeante. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo, apalermado e trêmulo à nossa vista. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e, correndo aos meus braços, bradou:

– Ei-lo! ei-lo que chega por dentro de mim… É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! Acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!…          Alçando a destra à garganta, denunciava, aflito:

– Serei assassinado! Socorro! socorro!…

Os demais companheiros perturbados e sofredores, ali presentes, alarmaram-se, desditosos.

Houve quem tentasse fugir, mas, com uma frase apenas, sustei o tumulto que se iniciava.

 

ATUALIDADE DO PENSAMENTO ESPÍRITA

Divaldo Franco pelo espírito Vianna de carvalho

Educação Artística.

Questão 142

 

A evolução do ser é abrangente, facultando-lhe experiências em várias áreas do conhecimento, do comportamento, da iluminação.

É comum, no entanto, ver-se o Espírito que se realizou em determinado campo de vivência, retornar na mesma atividade, de modo a ampliar o espaço das realizações, não somente plenificando-se, mas também favorecendo a Humanidade com a visão mais ampla e profunda em torno daquela conquista.

O artista, em particular, tende a voltar a reencarnar-se no círculo da beleza, mas, quase sempre em outro gênero de expressão, crescendo na forma de traduzir a grandeza e a majestade da Vida, que a sua sensibilidade capta com maior desenvoltura.

Assim, podemos identificar, por exemplo, Rafael Sanzio renascendo em Frederic Chopin, transformando cores em sons, mas permanecendo vinculado à harmonia.

Vianna de Carvalho

 

CADERNOS DE ARTE DA ABRARTE

A Responsabilidade do Artista Espírita

 

Estamos assistindo, neste momento, ao surgimento de muitos grupos e artistas em geral no meio espírita, tal como o alvorecer de uma nova era que se inicia para a arte espírita.

Concordamos com o médium Divaldo Pereira Franco quando diz que o século passado foi o da tecnologia e que o século que se iniciaria a partir do ano 2001 seria o século das artes e da espiritualidade.

Muito felizes somos por estarmos num tempo no qual cada vez mais pessoas abrem as mentes e os corações para as artes em geral, e pelo tanto que podemos fazer para envolvê-las neste ‘universo’ que é o da estética e da beleza, um dos atributos de Deus, concedendo a nós uma fração das suas virtudes para que possamos apreender e sentir a presença Dele em nós.

Mas diante de tantas possibilidades de realizações e tanta carência das pessoas em geral que buscam a arte como parte de suas realizações, na mesma medida daqueles que buscam o aprimoramento moral e intelectual, é imperioso não deixarmos de falar da responsabilidade do artista espírita no que diz respeito a sua postura ética e moral, social e técnica.

Do ponto de vista moral, que em filosofia significa conjunto de regras a serem seguidas, temos que considerar o artista espírita como aquele que procura seguir o código moral deixado pelo Cristo que é o Evangelho, unido ao que Allan Kardec classifica como sendo o verdadeiro espírita, aquele que se esforça na luta contra as suas más inclinações. O mestre de Lion tira-nos a responsabilidade de sermos seres superiores ou perfeitos e nos deixa o simples conselho de sermos imperfeitos, mas cumpridores fiéis ao dever moral.

A Ética, um dos principais ramos da Filosofia, é a investigadora do bom e do certo. É ela quem questiona se uma coisa é boa ou má, certa ou errada, etc. Enfim, podemos dizer, para efeito didático, que a ética é o questionamento da moral. Sendo assim o artista será ético quando ele observa e questiona o que é melhor para si, como padrão de conduta, e moral quando ele se enquadra naqueles padrões de conduta suficientes para que tenha um julgamento cada vez mais sadio, daquilo que sua inteligência concebe como beleza.

O mundo hoje está cheio de artistas frustrados e deprimidos, transmitindo os raios de suas inspirações sempre permeadas de concepções pessimistas a respeito do mundo. O artista espírita deve se alegrar por conhecer a realidade que descortina paulatinamente a sua frente e transmiti-la em forma de beleza e esperança aos que se encontram oprimidos e tristonhos com suas provações e dificuldades psicológicas.

Do ponto de vista social, aquele que se vale do seu estro e/ou da sua interpretação sente intuitivamente a necessidade de levar a todas as pessoas o objeto de suas ocupações, sem contar que este sentir é um chamado da consciência para não guardar para si o que foi feito para ser compartilhado com todos sem distinção.

Dentro do aspecto social, o ato da doação da renda financeira das atividades artísticas para instituições filantrópicas ou mesmo artísticas me parece uma questão saudável e natural, pois vivemos numa sociedade da qual pertencemos e ter uma função ativa nocrescimento dela é profundamente prazeroso e gratificante dentro do nosso sentimento de utilidade.

Por fim a técnica se nos apresenta como uma necessidade, mas o domínio completo dela não nos parece o fim para o qual deveríamos encaminhar os nossos esforços; assim observamos a técnica do ponto de vista de sua utilidade ao bom desenvolvimento daquilo que nos propomos a fazer. A pessoa que ama aquilo que faz busca com abnegação o seu aprimoramento a fim de transmitir com a maior perfeição possível a sua arte, mas a técnica está a serviço do artista e não o contrário.

Outro aspecto importante, sem a pretensão de encerrar o assunto sobre a postura do artista, é a finalidade, ou seja, qual é o objetivo do grupo ou de quem esteja disposto a iniciar um trabalho artístico. Muitas pessoas há no espiritismo, totalmente despreocupadas em ter qualquer tipo de finalidade com relação aos efeitos do seu trabalho, alegando serem livres e sem rótulos; ora, usar conceitos espíritas e levantar a bandeira de um movimento não pode limitar ninguém! Somos livres e a nossa maior liberdade está em nosso pensamento.

Embora estejamos ainda formando as bases estruturais da Arte Espírita, é preciso desde já trabalhar pelo aprimoramento dela; levar com força de convicção um projeto bem intencionado para que os bons espíritos, responsáveis pela evolução do planeta, encontrem em nós instrumentos capazes de transmitir aos seres aquilo que o materialismo não foi capaz de inspirar: o anseio de uma vida melhor e mais venturosa!

Dentro de tudo isso podemos dizer que uma boa obra ou apresentação pode divulgar, curar, revelar, ensinar, contagiar e emocionar! Todas as atividades no mundo capazes de influenciar positivamente um ser humano são dignas do amparo da espiritualidade maior; sendo a arte uma ciência elevada no mundo, quem não educa a sua sensibilidade através da auto-reflexão, estará se fechando às sublimes inspirações emanadas dos planos maiores, ou recebendo com imperfeição e imprecisão as concepções avançadas do progresso.

Enfim, beleza, bondade, sabedoria e inteligência são atributos que devemos buscar incessantemente, pois o artista do futuro terá em si a marca inconfundível da estética avançada e laureada de bondade, paz e sabedoria emocional. O artista do futuro não será mais o velho gênio perturbado e constrangido pelas suas deficiências.

Encerramos lembrando a célebre frase do Grande compositor desencarnado Rossini, em comunicação mediúnica anotada por Allan Kardec:

[…] O Espiritismo moralizando os homens, exercerá, pois, uma grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão suas virtudes fazendo ouvir as suas composições […]. Rir-se-á menos, chorar-se-á mais; a hilaridade dará lugar à emoção, a fealdade dará lugar à beleza, e o cômico à grandiosidade.

E mais adiante acrescenta o Maestro:

Oh, sim, o espiritismo terá influência sobre a música! Como isso seria de outro modo? Seu advento mudará a arte, depurando-a. Sua fonte é divina, sua força a conduzirá por toda parte onde haja homens para amar, para se elevar e para compreender. Tornar-se-á o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas, pedir-lhe-ão as suas inspirações, e ele as fornecerá, porque é rico, é inesgotável…

Bom, diante destas palavras só nos resta colocar a mão na massa e avançarmos dentro da fé e do trabalho que nos conduzirá a planos cada vez melhores.

Clayton Prado

 

Referências Bibliográficas

KARDEC, Allan. Obras Póstumas (OEuvres Posthumes). Trad. De Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. 7a Ed. Araras-SP: IDE, 1999, Cap.IX, p.182.

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